23 de maio de 2013



Um leitor não crente leu com atenção a obra Educação, Ciência e Religião, que publiquei na Gradiva juntamente com o Prof. João Paiva, e fez alguns comentários pertinentes. Partilho com os leitores deste blogue alguns desses comentários a passagens do livro, aqui indicadas, bem como os meus esclarecimentos.


Texto: 
 “À religião importa ajudar a Humanidade a saber viver, enquanto à ciência importa saber explicar os fenómenos da natureza.”

Comentário do leitor- A afirmação é redutora; ambos procuram dar respostas a questões filosóficas profundas. A ciência procura, e deve procurar, muito mais do que explicar os fenómenos; pretende também ajudar a Humanidade a saber viver bem.

Esclarecimento de autor Um médico poderá curar uma pessoa com SIDA, mas deverá, enquanto médico, dizer-lhe por que valores deverá orientar a sua vida?

            O que poderá um neurocientista dizer a alguém a quem foi diagnosticado um tumor cerebral condenando-o a alguns meses de vida? Poderá certamente, enquanto cientista, explicar-lhe, em todo o pormenor, como se forma um tumor no cérebro, como se pode tentar extirpá-lo, por que razão em alguns casos se salva o doente e em outros não. Será isto que procura alguém a quem foi diagnosticado um tal tumor e que pergunta pelo sentido da sua situação? O neurocientista procurará ajudar os doentes a viver melhor a sua vida física, mas será essa toda a ajuda que as pessoas procuram e precisam? Poderá dar-lhes alguma ajuda quando não é possível prolongar-lhes a vida?

            A religião, por seu lado, nada tem a dizer sobre como acontecem os fenómenos naturais, seja a formação de um tumor, de uma galáxia ou do próprio universo. Não entra em concorrência com a ciência. A religião tem apenas como objectivo ajudar as pessoas a encontrar o sentido do universo e da vida e a viver num horizonte de sentido muito mais amplo que o da ciência, uma vez que se coloca especificamente no domínio da ética e refere os valores éticos não apenas à vida que termina com a morte mas também à existência que se prolonga para além da morte.

Como muito bem afirmou o filósofo Ludwig Wittgenstein, 
“Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos.” (Tractatus)

2 comentários:

Anónimo disse...

Tenho oferecido cuidados de saúde a muitas pessoas. Algumas em situações verdadeiramente difíceis. Nunca neguei um conselho, jamais calei-me se tinha alguma coisa útil para partilhar. Tenho incentivado a fé de muito doentes ao meu cuidado. Tenho orientado a procura da pratica de valores... Jamais, nunca, passou pela minha cabeça que para ser um bom profissional de saúde devia restringir-me ao cuidado do corpo e apenas deter-me nos conhecimentos que a ele se referem. Espiritualizo-me para meu bem-estar, e porque enriquece o exerço da minha profissão. Não falo de religião (desta ou daquela) com os meus doentes, no em tanto não me furto da espiritualidade que a todos nos conforma e nos transforma. Espiritualizar, orientar, e partilhar valores de vida não é função só de "padres" e "pastores". O amor transcende os muros das instituições e das religiões. E todos estamos moralmente obrigados a não furtar-nos da responsabilidade de o partilhar.

Dr.Paulo Monteiro

alfredo dinis disse...

Caro Dr. Paulo Monteiro,

Muito obrigado pela sua intervenção. Repare que eu não afirmo que um médico não possa dar aos seus pacientes conselhos sobre como viver bem a vida. Afirmo que se um médico se limitar a tratar profissionalmente um doente de forma a curá-lo ou a aliviá-lo da doença que o aflige, ninguém o pode acusar de não cumprir a sua missão. De um médico, enquanto médico, espera-se que trate os doentes libertando-os da doença. Mas de um cristão, enquanto cristão, espera-se que ajude as pessoas não a compreender como é feito o universo, o corpo humano, etc., mas sim a viver bem a sua vida, seja essa pessoa sã seja ela doente. Os não cristãos e os não crentes poderão dar essa mesma ajuda. Se a derem, muito bem. Se não a derem, provavelmente não se sentirão culpados de nada, nem os poderemos culpar. Mas para um crente, particularmente para um Cristão, ele deve, precisamente por ser Cristão, procurar ajudar as pessoas a viverem bem. Se não o fizer, deve sentir-se em má consciência.

Espero ter tornado a minha posição mais clara.

Cordiais saudações.
Alfredo Dinis