2 de maio de 2013

o óbvio olvidado

Heberth Sobral, via P3

Para encontrarmos um sentido duradouro para a nossa vida não basta ir além dos psicopatas que não têm projetos de vida nem compromissos a longo prazo; precisamos também de ir além dos egoístas mais prudentes, que têm projetos a longo prazo, mas exclusivamente virados para os seus interesses pessoais. Esses egoístas podem encontrar um sentido na vida durante algum tempo, porque têm o objetivo de fomentar os seus interesses pessoais, mas, no fim de contas, que sentido tem isso? Quando todos os nossos interesses já tiverem sido realizados, iremos ficar sentados a gozar a felicidade? Conseguiríamos ser felizes desse modo? Ou chegaríamos à conclusão de que o nosso objetivo ainda estava por atingir, que ainda precisaríamos de mais alguma coisa antes de podermos repousar, plenamente satisfeitos? A maior parte dos egoístas materialmente bem sucedidos opta por esta última alternativa, fugindo assim à necessidade de admitir que não consegue encontrar a felicidade vivendo em férias permanentes. As pessoas que se mataram a trabalhar para abrir pequenos negócios, dizendo a si mesmas que só o fariam até ganharem o suficiente para levar uma vida confortável, continuam a trabalhar muito para além da concretização do seu objetivo original. As suas «necessidades» materiais expandem-se suficientemente depressa de modo a ultrapassarem os seus rendimentos.

Começamos agora a ver onde entra a ética no problema do sentido da nossa vida. Se procuramos um objetivo mais amplo do que os nossos interesses pessoais, alguma coisa que nos permita ver a nossa existência como algo que tem um sentido que extravasa os estreitos limites dos nossos estados conscientes, uma solução óbvia é adoptar o ponto de vista ético. Este, como já vimos, exige que ultrapassemos um ponto de vista pessoal e que assumamos o ponto de vista de um espetador imparcial. Portanto, ver as coisas eticamente é uma forma de transcender as nossas preocupações subjetivas e de nos identificarmos com o ponto de vista mais objetivo possível – nas palavras de Sidgwick, com «o ponto de vista do universo».

Quero agora sugerir que a racionalidade, no sentido amplo que inclui a consciência de si mesmo e a reflexão sobre a natureza e a finalidade da nossa própria existência, pode levar-nos a preocupações mais amplas do que a qualidade da nossa própria existência.

Peter Singer

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