7 de maio de 2013

.Saltou Félix Baumgarten.


Félix Baumgarten. Muitos o terão já esquecido. Outros nem sequer fazem ideia de quem é. Mas, certo é que este austríaco passou à História. É o homem que se atreveu a saltar da altura mais distante da Terra. A sua queda livre foi a mais demorada de quantas já existiram, precisamente porque o seu comprimento foi o maior de sempre. A força de gravidade acelerou o seu corpo até ultrapassar a barreira do som. Três recordes mundiais fulminados em breves segundos. Por trás deste período de tempo aparentemente insignificante, anos e anos de investimento científico e tecnológico, meses e meses de preparação física e psicológica, dias e dias de ansiosa mistura de expectativa e nervosismo. A comunidade científica olhava para o céu, a mãe olhava para o filho, o espectador olhava para o ecrã. Era uma tarde de domingo, pois as condições climatéricas impediram o salto de se produzir entre semana. Exactamente,  estamos a falar da tarde do dia 14 de Outubro de 2012. Este jovem desportista austríaco, especializado nas modalidades mais extremas, foi elevado durante perto de duas horas num balão de plástico sintético, impulsionado apenas por calor e hélio, até a estratosfera terrestre, donde saltaria convencidamente em direcção a um planeta que não prometia uma recepção agradável. Milhões de cidadãos testemunharam estes minutos sem se poder descolar do televisor ou computador. A façanha merecia toda a atenção. Ninguém sabia se a retransmissão acabaria em sucesso ou em tragédia mas, em qualquer caso, poucos eram os que duvidavam que aquele acontecimento era, simplesmente, histórico. E eu encontrei-o por acaso, por puro acaso (pouco sabia acerca dele antes de ligar o computador aquela tarde). Contudo, fui mais um que permaneceu à expectativa até o fim da aventura, acabasse como acabar. Até reconheço estar minimamente emocionado por ser observador dum evento de tais magnitudes internacionais. Digamos que foi, simplesmente, “o momento mundial de aquele fim-de-semana”.
Pois bem, uma vez chegado ao momento mais alto da expedição, duas horas e pouquinho depois da descolagem num planalto americano, e após seguir as rigorosas indicações da base da NASA, Félix Baumgarten carregou no botão vermelho que abria a porta da nave. Lentamente pôs-se em pé, aproximou-se do vazio que o esperava, igualmente ansioso e, após intermináveis breves segundos de espera… saltou! O que aconteceu depois, ao pormenor, não merece uma narração sucinta da minha parte, pois basta encontrar um vídeo apropriado em Internet para os olhos poderem dar boa conta disso. O único que salientarei, por poder passar despercebido na gravação oficial é que Félix Baumgarten não se benzeu antes de saltar. E não foi uma ausência ingénua, não pode ser. Não foi um simples esquecimento por culpa do nervosismo. Não foi uma questão de vergonha crente perante a câmara que o filmava. Não, não foi por acaso que este campeão das alturas não se benzeu antes de saltar. Encomendar-se ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo antes de saltar? Impensável, nem que respondesse a um simples gesto mecânico ou supersticioso, desprovido de toda significação! Não, não houve sinal da cruz sobre si. Preferiu não abençoar-se antes de arriscar a vida de forma tão puramente desnecessária. Mas é que tal detalhe de desconfiança teria sido imperdoável. A ciência nunca teria consentido um tal desprezo mediático. Fazia todo o sentido não confiar em Deus através desse sinal visível, pois a segurança dos cálculos matemáticos escrupulosamente exactos esperava-o (supostamente) cá em baixo de braços abertos. E chegou à superfície da Terra. Aterrou, sim, sem dificuldade. Não espancado como consequência dum choque de violentíssimas e inimagináveis sequelas, mas suavemente, ajudado do seu para-quedas de último modelo. E nesse momento... sim! Ai, já no chão de novo e consciente de ter salvo a vida e feito história no mesmo salto, fez um dos gestos mais puramente religiosos que existem. Ajoelhou-se. O traje de pseudo-astronauta não foi estorvo.
Deixou-se cair sobre os joelhos, com uma evidente sensação de emoção e agradecimento que previamente não tinha sido visibilizada em forma de pedido de protecção (a tal benção que não existiu). E parecia chorar. Ainda sozinho, pois ainda não se aproximavam os técnicos da base aeronáutica. Mas já na Terra. Na sua Terra, na Terra de todos. São e salvo, regressou ao planeta de todos.
                 No dia a seguir, em conferência de imprensa, ouviu-se uma frase (do género daquela outra, também espacial de “este é um pequeno passo para o Homem, mas um grande passo para a Humanidade”) que sem dificuldade põe qualquer um a pensar: “Às vezes é preciso subir muito alto para reparar em quão
pequenos somos”. E é verdade. As reflexões e raciocínios filosóficos elevam-nos para alturas desde onde o ser humano aparece como ridiculamente diminuto. Será a teologia, na sua abordagem estratosfericamente divina, a encarregada de lhe dar a dignidade que merece e possui?

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