15 de maio de 2013

.Uma "méconnaissance" muito bem conhecida.


Às vezes, os filósofos enchem de significação uma palavra que permanecera despercebida durante o lento passar dos séculos linguísticos. E fazem-no, propositadamente ou não, com tanta exactidão  que dá a impressão de nunca mais se poder utilizar esse termo sem fazer alusão ao dito autor. Basta ouvir mencionar essa palavra para que os neurónios filosóficos façam uma ligação quase imediata com o muito ou pouco aprendido acerca do génio que concebeu tal significação. É isto exactamente o que acontece com a palavra “méconnaissance”. Possivelmente tenha-se já mexido nalgum cantinho dos miolos do leitor uma outra palavra, uma única palavra. Não já em forma de substantivo impróprio, mas de apelido francês. Exactamente  Trata-se de Girard. René Girard. Em efeito, “méconnaissance” e Girard viajam nos parágrafos mais intelectuais de mãos dadas, embora aquele vocábulo francês já existisse desde muito, muitíssimo antes de o filósofo nascer.
Só que só ele soube dar-lhe a conotação que ganhou após o seu trabalho no campo da antropologia filosófica. Consistiu, paradoxalmente, numa significação tão inspiradora como indefinida, pois este “méconnaissance”, órfão de tradução suficientemente digna no resto das línguas latinas, tanto pode significar “desconhecimento” como “ignorância intencional”. Outros até falam de “conhecimento inadequado” ou “despropositado”. Em qualquer caso, poderíamos imaginar este “méconnaissance” como uma venda que a própria sociedade se põe nos olhos. A si própria, reflexivamente. Portanto, se ela lha põe, não pode afirmar desconhecer a sua existência. Ela lha pôs a se própria. Tocou-a com os seus frágeis dedos e sente-a agora constantemente nas pálpebras. Não é venda inexistente a que cega, mas muito visível… só para aqueles que não temem em a tirar para a ver. No caso contrário, a cegueira voluntária persiste. Este recurso surpreendente que a sociedade parece autoaplicar-se deve-se a uma incapacidade de suportar toda a luz que brotaria duma realidade iluminadamente sincera, nada poupada de cintilações de claridade que poderiam vir a queimar as retinas mais ingénuas. Por esta razão, e de forma muito simplista, podemos afirmar que a gente, assumindo a generalidade deste “gente”, aceita o “méconaissance” como mecanismo de sobrevivência, ainda que nem sempre o queira reconhecer como existente –e bem eficaz-. Neste sentido o méconnaissance é a ignorância social voluntária acerca dos inúmeros casos de victimação. Uma realidade tão sumamente diligente e presente, que se torna insultantemente óbvio referir-se a ela. E é que, como já desvelou São Tomás, “é difícil falar do óbvio”. Em resumo, e numa linguagem acessível até para os que nunca estudaram francês, o “méconnaissance é aquilo que a gente sabe perfeitamente, mas que pretende fingir que não sabe em absoluto. Curiosamente, e sirva esta nota como desvelamento duma porção de verdade a ter em conta, é graças ao Cristianismo que as vítimas do mundo e da História ganharam alguma dignidade.
Porém, o tal “méconnaissance” contemporâneo alimenta-se de inúmeros pecados estruturais (necessidade de falar mal do ausente), atrocidades sociais (expropriações aos mais carentes), corrupções comerciais (estafas natalícias nas montras), resistências juvenis (insatisfação pelo instaurado), negligências médicas (escandaloso atrasos nos diagnósticos),  injustiças judiciais (fácil liberdade para os mais ricos), esquecimentos voluntários (promessa eleitorais), travões burocráticos (gestão dos papeis de residência dos imigrantes), impedimentos governamentais (congelamento de relações bilaterais) e tantos outros exemplos que, infelizmente, se poderiam acrescentar sem muita facilidade (e menos imaginação).
Como consequência, a “méconnaissance” faz avançar o mundo pagão. As cumplicidades imorais favorecem esta cegueira culpável, consciente e irresponsável. As omissões e os silêncios acabam sempre por dar cabo dos mesmos. Os mais ignorantes, nada parvos, continuam a padecer e aturar espertezas de todas as cores e sem-sabores.

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