10 de junho de 2013

ciência e/ou religião?

O texto seguinte está em debate no site www.contraditorio.pt, sobre a compatibilidade entre ciência e religião, juntamente com o texto da Profª Silva. Eu defendo a compatibilidade, a Profª Palmira defende a incompatibilidade. O debate estará aberto durante alguns dias, e quem o desejar poderá deixar o seu comentário no referido site.


1. O debate sobre a compatibilização entre ciência e religião é tão antigo que pode causar a muitos admiração o facto de não ter ainda chegado ao fim. Parece-me pois conveniente começar mais um debate com algumas observações preliminares sobre algumas causas que mantêm o debate aceso e sem fim à vista.

2. A questão de saber como se harmonizam ciência e religião em geral é complexa e nunca será provavelmente compreendida pelos seres humanos. É certo que de uma e outra parte – crentes e não crentes - há quem afirme que o debate já não se justifica e que uma solução já foi encontrada. Há, por um lado, crentes que consideram provada a existência de um Deus criador do universo, sendo a ciência compatível com a religião. Há, por outro lado, não crentes para os quais a ciência já demonstrou que não existe nenhum Deus, criador ou não, e que ciência e religião são incompatíveis.
De facto, porém, não possuímos qualquer prova tão forte e indubitável que convença toda a gente, seja da existência necessária de um deus que constitua a explicação última do universo, como querem alguns crentes, seja da não existência e não necessidade de um tal deus, como querem alguns não crentes.

3. A ideia de que a ciência é incompatível com a religião tem a sua origem, pelo menos na cultura ocidental de raíz Cristã, no facto de durante muitos séculos a narração bíblica da criação do mundo e da Humanidade, tal como surge no Livro do Génesis, ser considerada uma explicação em termos a que hoje chamamos científicos, de como tudo realmente começou. A fusão desta narração com ideias da cosmologia grega sobre a natureza e o movimento dos corpos celestes, e sobre a estrutura do universo – constituído, até ao século XVII, praticamente pelo sistema solar e as estrelas -, pareceu fundamentar um discurso coerente e completo sobre todos os fenómenos naturais, e até o paraíso, Deus, os anjos e os santos tinham o seu lugar por detrás das estrelas.

4. Quando no século XVII o crente Galileu e outros, crentes ou não, deitaram por terra esta estrutura, pareceu à Inquisição que as novas ideias cosmológicas eram incompatíveis com o Cristianismo. Mas não eram. Eram incompatíveis com a versão cosmológica fruto da fusão do Génesis com a cosmologia grega, como se disse. Mas essa fusão não pertence ao núcleo do Cristianismo, como não pertence a este núcleo qualquer teoria científica, cosmológica ou outra.

5. Quando no século XIX Charles Darwin deitou por terra a ideia de que no espaço de uns dias Deus criou o universo e todas as espécies, incluindo Adão e Eva dos quais descenderiam todos os seres humanos, pareceu a muitos que as novas ideias antropológicas eram incompatíveis com o Cristianismo. Mas não eram, ainda que actualmente haja crentes para os quais a narrativa bíblica deva ser entendida literalmente. São os Criacionistas. Para estes, parece haver um conflito entre ciência e religião. Mas não há. O que há é um conflito entre a sua interpretação do texto bíblico e os dados da ciência moderna.

6. Acontece que nas suas críticas à religião alguns não crentes aliam-se estranhamente aos Criacionistas para mostrar como a narração bíblica da criação do mundo em seis dias está em contradição com a ciência. E está. Mas a maior parte dos crentes não é Criacionista. Acontece, porém, que na sua argumentação os não crentes tendem a escolher cuidadosamente as teses de alguns Cristãos que mais contradizem a ciência, optando por ignorar a posição dos Cristãos que têm uma perspectiva não contraditória com a ciência.

7. Criou-se, por outro lado, uma ideia da religião como algo de ‘sobrenatural’, algo que paira acima da natureza e que ‘desceu do céu’, desse céu aristotélico-tomista que entretanto desapareceu. A ideia, hoje defendida muitos, de que o sentimento religioso é um simples fenómeno evolutivo tendo por isso uma explicação meramente natural parece por isso opor-se à concepção especificamente religiosa. Mas isso não é verdade. O facto de a religião ter surgido no decurso da evolução biológica e histórica da Humanidade, significa que pertence ao mais íntimo da natureza humana como um elemento da sua ‘espinha dorsal cultural e existencial’. Mas a religião representa, ao mesmo tempo, a transposição dos limites de uma existência meramente biológica e de luta pela sobrevivência da espécie. A religião representa a recusa de acreditar que a vida humana não tem qualquer importância num universo que teria surgido por acaso e onde a Humanidade teria aparecido igualmente por mero acaso.

8. Mais recentemente, os estudos do cérebro revelaram as zonas de actividade neuronal relacionadas com a actividade religiosa, como a oração e a meditação, visões, etc. Daqui alguns concluíram apressada e acriticamente que é a actividade de determinadas zonas cerebrais que causa tudo o que tem a ver com a religião. Mas esta afirmação baseia-se num erro básico e muito comum de identificar correlação e causação, condições necessárias e condições suficientes. Para cada aspecto do comportamento humano – ético, estético, físico, etc – há sempre alguma actividade cerebral correspondente associada. Mas isso não significa que essa actividade seja a causa, por exemplo, das grandes sinfonias criadas pelos mestres da música; a actividade neuronal apenas lhes tornam possível o exercício da criatividade artística, como condição necessária, mas não é suficiente para que surjam as grandes obras musicais. Assim também, no caso do comportamento religioso, a actividade neuronal é uma condição necessária para que ele exista, mas não é uma condição suficiente.
Houve sempre cientistas crentes que viveram pacificamente o aspecto científico e o religioso. Em Portugal, podemos referir, por exemplo, a figura do P. Luís Archer, Jesuíta recentemente falecido, que introduziu no nosso país a investigação em Genética Molecular, depois de se ter doutorado nesta área nos Estados Unidos, e trabalhou durante muitos anos no Instituto Gulbenkian de Ciência. Tal como compreendeu o P. Archer, a religião só tem a ganhar com a ciência. Quanto melhor ciência, melhor religião.

9. Eu próprio, também Jesuíta, actualizo-me constantemente sobre ciências como a Biologia, a Cosmologia, as Neurociências e outras Ciências Cognitivas. Leio as obras de cientistas militantemente ateus, como Richard Dawkins, e de outros investigadores como António Damásio. Nunca senti que o conhecimento científico abalasse a minha crença em Deus, mas algum conhecimento científico leva-me a repensar e a reformular alguns aspectos da minha fé, o que só me tem feito bem.

10. Quando se pergunta por que razão existe um universo – ou infinitos universos! –, por que razão se desenvolveu a vida no planeta Terra - e talvez em milhões de outros planetas -, e ainda por que razão vale a pena dar a vida por grandes causas, pela justiça, pela liberdade, os não crentes apenas poderão responder: ‘porque sim’. Se o

universo e a vida surgiram por acaso, toda a história da Humanidade acabará em nada, e tudo o que fizermos ou deixarmos de fazer não tem, em última análise, qualquer importância. Não há mais nada a explicar. Os crentes não se satisfazem com estas respostas. Poderão, como afirmam alguns não crentes, contentar-se com respostas erradas e fantasiosas, mas o que separa os crentes dos não crentes é a insatisfação dos crentes perante respostas simples que são dadas pelos não crentes a questões extremamente complexas.

Finalmente, como escreveu o filósofo Ludwig Wittgenstein, na sua obra Tractatus, “Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos.” (6.52)

6 comentários:

Cisfranco disse...

Não há contradição nenhuma entre ciência e religião. Cada uma segue o seu caminho que é paralelo em relação ao da outra. Esses caminhos não se chocam nem se encontram nunca. O problema surge quando cientistas ou crentes exorbitam do seu próprio trajecto e se metem no caminho que não lhes diz respeito. Ciência e religião não são incompatíveis e a prova disso é que há grandes cientistas que são também profundos crentes e crentes que são eminentes cientistas. Respeitem-se mutuamente a ciência e a religião e aprenderão uma com a outra e sairão todos a ganhar. De resto a aparente dicotomia entre ciência e religião sempre existirá, nunca pensaremos todos da mesma maneira, não só neste assunto como em tudo na vida. Portanto em termos simplistas, cada macaco no seu galho...

Vasco Gama disse...

De um modo geral os ateus sugerem existir contradição entre ciência e religião, o que deve normalmente à perspectiva filosófica que partilham que é o naturalismo filosófico. Esta corrente filosófica é extremamente reducionista (e necessariamente falsa) faz com que tenham muita dificuldade em lidar com a parte do conhecimento humano que tem uma origem subjectiva e desvalorizem e desprezem esse conhecimento. Outro dos problemas que surgem é a sua pouca compreensão sobre o fenómeno religioso, do qual, normalmente partilham uma visão simplista, caricatural e distorcida.

Vasco Gama disse...

Aproveito para transcrever o comentário que escrevi a propósito do debate entre Alfredo Diniz e Palmira Silva sobre a pretensa incompatibilidade entre ciência e religião (depois de emendados alguns erros):

A Dª Palmira apenas têm uma ideia vaga preconceituosa e caricatural do que é religião, desde o início "A religião foi a primeira tentativa de interpretação do mundo e dos fenómenos da Natureza". Depois, prossegue pelo texto a fora sem tino e com pouco acerto.

De modo diverso ao que sugere a Dª Palmira a religião debruça-se sobre a relação entre o homem e o divino, tentando oferecer ao homem respostas que ele faz a si mesmo ao longo dos vários milénios da sua existência sobre questões como o que é ser homem?, o que fazemos aqui?, qual o propósito da nossa existência? questões que são hoje tão actuais e tão intrigantes como o eram no início da nossa existência. Já a ciência procura a compreensão e descrição da natureza e o aproveitamento dos recursos naturais em benefício do homem.

Já se vê que religião e ciência são coisas distintas, que dizem respeito a áreas do conhecimento humano distintos e com objectivos bem diferentes. Poderíamos então perguntar-nos como é possível afirmar que a ciência e a religião são incompatíveis, ou de que forma essa hipotética incompatibilidade poderia ser avaliada. Eu tenho dificuldade em responder, mas a Dª Palmira sugere uma avaliação arqueológica para essa eventual incompatibilidade, não nos dias de hoje, mas há quinhentos ou mil anos atrás. De certo modo podemos tentar fazer esse exercício, e, de facto, constatamos que no passado a igreja se intrometeu nos mais variados assuntos da sociedade. Encontramos contributos da igreja nos mais diversos domínios para além da ciência: na saúde, na educação, na música, na arte, na literatura, na filosofia, na assistência social (assistência à pobreza), no sistema legal e no judicial, na culinária, nas instituições hospitalares e penais, ... Como se pode ver a igreja sempre teve uma enorme tendência para exorbitar as suas funções específicas e meter o bedelho em coisas bem mais prosaicas do que a relação entre o homem e a fé.

A Dª Palmira (fazendo o que fazem tipicamente os ateus que criticam a igreja) fala-nos de disputas entre ideias (científicas) que ocorreram de há quinhentos anos, e nós, naturalmente horrorizados olhamos para essas disputas e (com a perspectiva distorcida e caricatural que dispomos) e abanamos a cabeça com alguma incompreensão do que então se passava. Mas serão estes dias de hoje tão diferentes assim?. Para avaliar isto mesmo podemos recuar apenas alguns anos até ao século XX e ver o que se passou em regimes de inspiração ateia (que talvez para alguns sejam um bom exemplo de sociedades expurgadas de Deus), como durante o nazismo ou durante o regime comunista russo, podemos tentar observar se de facto o debate de ideias (científicas) era, então, mais aberto ou mais tolerante e facilmente chegamos à conclusão que não (antes pelo contrário). Aqui podemos lembrar-nos do episódio do Lysenkoismo, na União Soviética, que é um caso clássico da guerras da pseudociência, em que Trofim Lysenko, procurou opor-se à genética Mendeliana, promovendo a perseguição dos cientistas que defendiam esta teoria, levou a que muitos cientistas fossem afastados, encarcerados (campos de trabalho) ou mesmo mortos. A genética Mendeliana acabou por ser declarada oficialmente como uma pseudociência burguesa em 1948 (o que motivou um grande atraso no desenvolvimento da genética na Rússia, esta visão só seria abandonada pelas autoridades no início da década de 60).

Por muito vícios que possamos encontrar nos ambientes académicos medievais eles eram uma gracinha razoavelmente ordenada (como os casos de Galileu, condenado a prisão domiciliária, ou de Nicholas de Autrecourt que teve de fazer renuncia pública das suas teorias) e de quando comparados com o que se passava, nos sistemas de inspiração totalitária ateus onde a heterodoxia podia custar a vida.

Anónimo disse...

De facto, tenho de concordar que não existe incompatibilidade entre ciência e religião. Proque nada é incompatível com a religião. Porque é que não existe incompatibilidade? Porque os dogmas da religião são dogmas temporários, e, de tempos a tempos, os dogmas mudam com os ventos nas cupulas da igreja como no Pentecostes. Mas afinal a pergunta deve ser: o que é contraditório com religião? NADA! A religião não é mais do que a prisão mental, uma capa de cordeiro para um lobo esfomeado, de crianças, homosexuais, pobres, ignorantes (Só alimenta um obeso Clero). O que pode ser contraditório com a Igreja quando ela própria é contraditória em si mesmo? Basta olhar para a história, basta mudar o "Filósofo Supremo" da República de Platão (o papa) ou papão... O que é incompatível, contraditório? Matar? matam-se entre si, cristãos matam cristãos. Alguns até treinam os seus jovens para morrer por algo que não conhecem e não percebem. Talvez pelas 7 virgens que estão no céu... ou pelo lugar na vida eterna... que não existe. "todos os homens morrem duas vezes, fisicamente, quando o corpo definha, e uma segunda vez, quando são esquecidos" Também a Igreja sabe que pode morrer como o Império Romano e lançar a civilização num período negro. Quem acabou com Itálica para construir Sevilha? Cumprimentos, Coração Luso

António Janela disse...

A propósito de matar... No séc. XX, há poucos anos,foram mortos mais de 100 milhões de pessoas! As contas dizem que mais de 80% estiveram a cargo dos comunistas: 50% na China, 25% na Rússia, e os restantes 25% divididos entre os nazis e outras revoluções comunistas... Só no ano passado, foram mortos mais de 100 mil cristãos por todo o mundo, perseguidos... Os nazis mataram 6 milhões de judeus em 4 anos. Uma das piores formas foi a cabine da morte de Aschwitzs, em que as pessoas morriam à fome e sede. Os soviéticos, só num ano, mataram 7 milhões de ucranianos à fome, extorquindo-lhes todos os alimentos e impedindo-os de sair da sua zona. São coisas que não se sabem! E continuam, sem que os nossos jornais e TV disso falem...! Um historiador soviético afirmou que Stalin matava mais num dia que a Inquisição em toda a sua história... E não foi em séculos passados. É do nosso tempo! Seria bom que estes ateusinhos, que estão cheios de teias da aranha na cabeça, procurassem saber um pouco mais de história, em vez de andarem a engolir patranhas que os seus sequazes espalham desde o séc. XVI. A Igreja tem de facto muitos inimigos e um dos principais é a ignorância. Era bom que estudassem mais a serio os temas...!

António Janela disse...

A propósito de matar... No séc. XX, há poucos anos,foram mortos mais de 100 milhões de pessoas! As contas dizem que mais de 80% estiveram a cargo dos comunistas: 50% na China, 25% na Rússia, e os restantes 25% divididos entre os nazis e outras revoluções comunistas... Só no ano passado, foram mortos mais de 100 mil cristãos por todo o mundo, perseguidos... Os nazis mataram 6 milhões de judeus em 4 anos. Uma das piores formas foi a cabine da morte de Aschwitzs, em que as pessoas morriam à fome e sede. Os soviéticos, só num ano, mataram 7 milhões de ucranianos à fome, extorquindo-lhes todos os alimentos e impedindo-os de sair da sua zona. São coisas que não se sabem! E continuam, sem que os nossos jornais e TV disso falem...! Um historiador soviético afirmou que Stalin matava mais num dia que a Inquisição em toda a sua história... E não foi em séculos passados. É do nosso tempo! Seria bom que estes ateusinhos, que estão cheios de teias da aranha na cabeça, procurassem saber um pouco mais de história, em vez de andarem a engolir patranhas que os seus sequazes espalham desde o séc. XVI. A Igreja tem de facto muitos inimigos e um dos principais é a ignorância. Era bom que estudassem mais a serio os temas...!