4 de junho de 2013

.Habilidade para calar.


Nestas décadas de tantas palavras, parece que o silêncio ganha valor. Merece respeito o silêncio sábio. Este silêncio é capaz de dizer muito. E não é um silêncio próprio de quem não tem nada a dizer, ou de quem consente passivamente sem se pronunciar, mas antes é um silêncio de quem pretende desmentir a farsa de tanto discurso vazio, de quem se refugia na mansidão calada duma verdade sem sílabas. Costuma o povo dizer que não é do tagarela de quem devemos ter medo, mas sim daquele que permanece calado. Quem não se pronuncia sobre um certo assunto pode estar a querer transmitir muito. Um silêncio oportuno tem a habilidade de fornecer sentido e ordem à algaravia de palavras que violam os discursos. As ideias não deveriam ser traídas pelos argumentos, mas antes aconchegadas ao calor dum silêncio esperançoso. Esta habilidade nunca foi hábito imediato, e precisa de constante treino. Aprender a calar garante que haja ouvidos atentos quando decidirmos falar. Falar sem descanso faz com que só se deseje um pouco de silêncio para esses mesmos ouvidos.
Neste sentido, Kierkegaard aponta que: “O ditado diz «a palavra é de prata, o silêncio é de oiro», porque as nossas palavras, como facto material, podem trazer-nos dissabores, o que é uma coisa real. Como se calar fosse uma coisa de nada! E é o maior dos perigos! O homem que se cala fica com efeito reduzido ao diálogo consigo próprio, e a realidade não o vem socorrer castigando-o, fazendo recair sobre ele as consequências das suas palavras. Nesse sentido não, nada custa calar-se. Aos olhos do mundo, o perigo está em arriscar (ou seja, em falar), pela simples razão de se poder perder. Evitar os riscos, eis a sabedoria. Contudo, a não arriscar, que espantosa facilidade de perder aquilo que, arriscando, só dificilmente se perderia. A vida castiga-me para me socorrer. Mas se nada arriscar, quem me ajudará? Tanto mais que arriscando no sentido mais lato ganho ainda por cima todos os bens deste mundo – e perco o meu eu”. E é que, em certo sentido, a verborreia de razões nunca poderá vencer à razão serena de quem fica voluntariamente calado.
Não costuma ser mais sábio quem mais fala.
Por isso mesmo, o exercício de recuperar o silêncio no meio de discussões ou confrontos pode vir a ser sinal de sossego interior em vez de de afronta dialéctica. Mas, a pesar desta minha defesa dum silêncio maduro e dialogante, o homem que (se) cala sofre. Calar faz sofrer, ao tempo que desabafar alivia; só que as consequências desse desabafo –na consciência daquele que o proferiu e na impressão daquele que o testemunhou- costumam desencadear outro tipo de sofrimento bem diferente por ser agora intrínseco a dois indivíduos e não só a um. Calar restringe a causa desse silêncio ao seu possuidor. Só o coração afectado conhece as razões da sua afectação  Os sentimentos não se oferecem se não a quem os souber desembrulhar. De resto, bem fazem em ficar dentro do individuo sentinte. Coração e cabeça devem funcionar adequadamente neste caso pois, se não, o risco de descompensação é grande. Apareceriam então casos de carência ou dependência afectiva, assim como de paranóias ou esquizofrenias em relação ao ambiente quotidiano. A tentação de calar, por vezes apresentada como recomendação, pode, pelos vistos, trazer incomodidades para o sujeito que opta por calar. Lá está o dilema: recomendação ou tentação? Arriscar -como sugeria Kierkegaard- ou evitar (pronunciar-se)? Calar ou falar? Em definitiva, as nossas palavras serão caminho de felicidade exprimida ou trilho de desespero contido?
Não há dúvida. Nada melhor que o senso comum para distinguir e indicar em que casos convém ficar calado e em quais atrever-se a falar. Contudo, a tal habilidade para calar supõe uma ferramenta nada desdenhável nas inercias comunicativas em que todo cidadão do século XXI anda imerso. 

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