14 de junho de 2013

.Mártires do nosso tempo.


Gostaria de me atrever com uma homenagem aos mártires do nosso tempo. Mas penso neles e sinto arrepios. São homens e mulheres que morrem por uma causa. Uma causa impregnada de bem. Umas vidas que desaparecem para que a causa sobreviva. O Cristianismo não carece de histórias de martírio. A lista de cristãos mortos em defesa da sua fé é comprida. Tanto, que poucos são os fiéis que chegam a ouvir sequer mencionar todos eles enquanto dura a sua vida. Costuma-se a afirmar que o sangue dos mártires é semente de novas vocações. Essas mortes regam a fé dos posteriores. Não se perde em vão esse sangue: flui nas veias dos novos crentes que ressurgem para sustentar a fé. O sentimento de fraternidade ganha dimensões assustadoras ao me tornar consciente de que a forma de morrer de certo cristão (na altura ainda anónimo) condiciona, para bem, a minha forma de viver. Sem a amarga morte de muitos dos mártires da Igreja pode ser que a tradição de fé não tivesse chegado até nós. No seu martírio voa Deus até nos, e aterra na possibilidade de acreditarmos nEle. É por esta razão que não existe agradecimento suficiente para todos aqueles que teimaram em professar a sua fé mesmo quando a fogueira ardia aos pés, ou quando a faca se espetava no pescoço. Mais do que de sangue e lágrima, toda a reflexão do género estará honrosamente manchada de exemplaridade e generosidade (a heroicidade ou santidade, porém, são já temas burocráticos que outros se encarregam de tratar e acrescentar a estas biografias).  Mas louvo a sua fé. Louvo a força da sua fé. Louvo a coerência na força da sua fé. Louvo a insistência na coerência na força da sua fé.
Então e hoje, porque hoje também pinga sangue. Aquela lista de nomes martirizados não conhece (ainda?) um ponto e final. A história de fé continua, e as histórias de mortes violentadas também. Há regiões neste mundo onde acreditar em Deus, no Deus de Jesus, pode acabar com a vida.
Os rebeldes odeiam a mensagem de amor revolucionário que traz consigo o cristão e, simplesmente, decidem assassiná-lo cruel e friamente. Toda a morte é dolorosa, quanto mais se se produzir de forma injusta.
Mas esta injustiça, em vez de sede de vingança, dá ânimo para seguir trabalhando pela justiça. Dão vida estas mortes. Uma vida que a faca não corta nem o fogo queima. Vidas de Deus que não passam despercebidas aos olhos dos homens. As espingardas rurais disparam, mas a bala não atravessa as convicções religiosas. As bombas destroem igrejas, mas a metralha não dana o valor das testemunhas. Nigéria, República CentroAfricana, Congo, Serra Leoa, Argel, Kenya, mas também Irão, Irak, Paquistão, China, Japão ou Indonésia.

Acreditar em Deus parece chamar à violência, mas esse Deus caracteriza-se por ser de paz. Que grande contradição! Quanto desespero! Existem vidas em perigo por defender a fé. Os relatos do folheto mensal de “Ajuda à Igreja que Sofre” não são contos, são façanhas reais. As imagens não são dramatismo barato, são rostos corajosos. Pode ser que algum deles tenha sido abraçado definitivamente pelo Pai enquanto escrevia este humilde elogio dos mártires do nosso tempo. Mais um arrepio.

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