25 de julho de 2013

O crente faz mais perguntas que o não crente?


Quando se pergunta por que razão existe um universo – ou infinitos universos! –, por que razão se desenvolveu a vida no planeta Terra - e talvez em milhões de outros planetas -, e ainda por que razão vale a pena dar a vida por grandes causas, pela justiça, pela liberdade, os não crentes apenas poderão responder: ‘porque sim’. Se o universo e a vida surgiram por acaso, toda a história da Humanidade acabará em nada, e tudo o que fizermos ou deixarmos de fazer não tem, em última análise, qualquer importância. Não há mais nada a explicar. Os crentes não se satisfazem com estas respostas. Poderão, como afirmam alguns não crentes, contentar-se com respostas erradas e fantasiosas, mas o que separa os crentes dos não crentes é a insatisfação dos crentes perante respostas simples que são dadas pelos não crentes a questões extremamente complexas.

Como escreveu o filósofo Ludwig Wittgenstein, na sua obra Tractatus, “Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos.” (6.52)

16 comentários:

Anónimo disse...

Caro Alfredo,
Você diz que "Se o universo e a vida surgiram por acaso, toda a história da Humanidade acabará em nada, e tudo o que fizermos ou deixarmos de fazer não tem, em última análise, qualquer importância". Contudo não apresenta qualquer razão para justificar esta afirmação. Mas parece-me que essa condicional é falsa. Pois, pode ser o caso que o universo tenha surgido por acaso e o que fazemos tem importância. Mesmo que tudo acabe em nada podemos construir projectos com valor que não deixarão de ser valiosos só porque vão terminar algum dia, do mesmo modo que um flor não deixa de ser bela só porque amanhã vai murchar e morrer.

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

Obrigado pelo seu comentário.
Compreendo que para os não crentes tenham sentido projectos realizados num universo sem sentido. Eu tenho porém alguma dificuldade em convencer um meu amigo que passa todos os Verões em viagens de férias e diversão, a proceder como outro amigo que passa os Verões em acções de voluntariado. Se vamos acabar todos do mesmo modo, por que razão vale a pena distinguir entre um e outro dos comportamentos dos meus amigos?

Saudações.

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

O universo e a vida não surgiram por acaso, e tenho muita dificuldade em acreditar, que por mero acaso se tenha chegado a organismos extremamente complexos.
De qualquer forma não é essa "crença" que faz de mim crente. Sou crente porque a existência de um Deus pessoal é o que mais faz sentido. É o mais racional que consigo
conceber, num mundo que não sobrevive a subjetividade moral, num mundo que não sobreviverá nunca sem uma referencia comum a todos os homens.
Num mundo cujo ser humano e toda natureza decai em corrupção desde que o Homem se desarmonizou de Deus e de tudo o que Ele criou, pela via do joio que desde então se
semeou e não parou de crescer.
Fomos feitos à Sua semelhança, e mantemos suas caraterísticas(suscetíveis de sermos corrompidos, claro). Ele, o Deus Criador e pessoal, encaixa perfeitamente na origem da vida. Encaixa na necessidade de uma moral objetivamente boa em Jesus Cristo para a vivência humana, que jaz no poder do mal e da auto suficiência. Encaixa na passagem para a vida através da morte e ressurreição, como reparação final da danosa ação do pecado.

Francisco

Cisfranco disse...

Não sei como os não crentes conseguem dar explicações, como a do acaso para o surgimento do universo. Reacções e fenómenos a acontecerem ao acaso, chegam a produzir organismos cada vez mais complexos, no topo dos quais está o próprio Homem!?... Tudo ao acaso, por acaso! Eu não conheço nada, dentro do pouco que eu conheço, que possa dizer que surgiu por acaso. Tudo tem uma causa, nada acontece por acaso.

Para mim, Deus é, em termos simplistas, uma espécie de reserva/garantia de todas as coisas. Sem Ele nada existe, nem para mim é compreensível tudo o que existe. Seja qual for a volta que tenha que se dar para lá chegar...

Anónimo disse...

Caro Alfredo,
"Se vamos acabar todos do mesmo modo, por que razão vale a pena distinguir entre um e outro dos comportamentos dos meus amigos?"
Essa poderá talvez ser a distinção entre viver uma vida desperdiçada e viver a vida com valor. Então por que se deve viver uma e não a outra? Talvez porque uma vida com valor gera mais felicidade global, é mais criativa e constrói momentos de realização pessoal e interpessoal. E isto vale a pena mesmo que tudo acabe um dia, mesmo que não exista Deus. O que tem valor tem valor por si mesmo e não por existir um Deus ou por isso ser eterno. Portanto, penso que o seu argumento não funciona!

Anónimo disse...


É bastante estranho que um Deus (omnipotente, omnisciente e sumamente bom) não interveio miraculosamente para evitar Auschwitz, mas em vez disso fez intervenções triviais como …

Anónimo disse...

... como, transformar a água em vinho... O que acha disto Cisfranco? Se Deus existe, então por que existe tanto mal natural e moral, bem como males gratuitos?

alfredo dinis disse...

Caro anónimo (7.16),
"Talvez porque uma vida com valor gera mais felicidade global, é mais criativa e constrói momentos de realização pessoal e interpessoal."

Por que razão o meu amigo que se diverte não consegue perceber que o que se dedica ao voluntariado é mais feliz? Talvez porque nunca tenha experimentado?

Em todo o caso, a sua expressão "uma vida com valor" parece ter um significado universal, aplicável a todas as pessoas. Mas de que valor se trata?

Alfredo Dinis

Anónimo disse...

Estimado Alfredo,

"Talvez porque nunca tenha experimentado?" Possivelmente pode ser esse o caso, ou por não ter reflectido o suficiente para examinar aquilo que é melhor a nível global, etc.

Em todo o caso, a sua expressão "uma vida com valor" parece ter um significado universal, aplicável a todas as pessoas.
"Mas de que valor se trata?" Quando falo de vida com valor estou a referir-me, por exemplo, a ter uma vida de entrega a projectos como estudar, ajudar o próximo, ter uma família, ou até mesmo ter uma vida completamente entregue aos outros (como fazem os missionário). Uma vida que não é entregue a projecto de valor seria uma vida de passividade e fechamento em si mesmo.
Talvez o melhor seja dar exemplos: consegue ver a diferença entre a vida da Madre Teresa e a vida de uma pessoa que passa todos os dias frente à televisão a beber cerveja? No primeiro caso penso que temos uma vida com valor, no segundo não.
Agora com a minha tese só quero defender que uma vida tem valor mesmo que Deus não exista. Ou será que as coisas só são valiosas porque existe um Deus? Será que as coisas são boas só porque Deus existe? Mas aqui vamos ao dilema de Eutífron: y é bom porque Deus julga que x é bom, ou Deus julga que y é bom porque y é bom? Imagine que brevemente descobrimos um argumento sólido e imbatível que prova que Deus não existe, será que a vida deixaria de fazer sentido? Parece-me que não! É por isso que acho que as suas ideias estão equivocadas quando diz que uma condição necessária para a vida ter sentido ou ter valor é Deus existir. Acho que essa não é uma condição necessária, pois pode-se ter uma vida com sentido ou valor, mesmo sem Deus.

Helder Sanches disse...

Caro amigo Alfredo,

Partamos, então, da premissa que o mundo não nasceu por acaso. Não é um salto muito grande partir daí para a conclusão que foi o teu Deus? Porque é que não sendo por acaso, foi esse Deus?
Cumprimentos

alfredo dinis disse...

Caro anónimo (12.31h)

Obrigado pelo seu comentário. Nunca afirmei que uma vida sem Deus não tem qualquer sentido ou valor. O sentido e o valor da vida tem diversos graus. Há pessoas que se sentem mais realizadas que outras. O que creio é que um crente que acredita num Deus que dá valor e sentido à sua vida tem razões para atingir um elevadíssimo grau de realização e felicidade. Isto, porém, não é automático.

Como sabe hoje um dos grandes problemas com que se defronta a humanidade tem a ver com o fundamento da ética. O tradicional fundamento religioso - a vontade de Deus - é aceite por poucos. Mas fica um problema em aberto. Ou dois. O primeiro é o de se pensar que a vontade de Deus nada tem a ver com a realização e a felicidade humanas. Os seres humanos têm que obedecer a Deus, mesmo que estejam contra essa vontade, não têm que compreender as razões de Deus, e se não obedecerem irão para o inferno. Eu, como crente, nada tenho a ver com esta caricatura da vontade de Deus. Se esta caricatura, muito divulgada entre os não crentes e talvez também entre alguns crentes, fosse a única opção possível, há já muitos anos que eu seria descrente. Para mim, porém, a vontade de Deus vai na linha da minha máxima realização e felicidade. É isso que tenho verificado ao longo da minha vida.

Não sendo Deus o fundamento da moral, tenho alguma dificuldade em convencer um meu amigo de que uma vida de voluntariado em favor dos mais pobres, como a da Madre Teresa, tem mais valor do que passar o dia a ver televisão. Ou isto é evidente e não há necessidade de mais fundamento - e não me parece assim tão evidente para muita gente - ou então eu terei que justificar racionalmente a opção de Madre Teresa. E isto não me parece nada fácil.

Saudações,

Alfredo Dinis

alfredo dinis disse...

Caro amigo Helder,

O facto de o universo não ter surgido por acaso e ter tido um criador, não prova nem leva à conclusão de que esse criador coincide com o deus cristão.

Pessoalmente, a perspectiva cristã parece-me a mais credível. Bem sei que ao longo da História da Humanidade os cristãos têm feito e dito muitas coisas de que não podem orgulhar-se. Isso continua ainda hoje, infelizmente. Mas, como já tenho afirmado outras vezes, há que ter a perspectiva no seu conjunto. Se apenas estamos dispostos a olhar para o que de negativo os cristãos têm feito, não vamos longe. Entre os não crentes também há quem tenha feito e continue a fazer de tudo um pouco. Se só olhasse para o negativo dos não crentes, não teria a perspectiva que tenho actualmente deles: muitos são tão ou mais honestos e empenhados num mundo livre e justo que alguns crentes, sejam eles cristãos ou não.

Entre as várias hipóteses de explicação da criação do universo não encontro, pois, uma melhor que a cristã. Isto não significa, porém, que os cristãos são capazes de dar uma explicação completa desta criação, nem da relação que Deus tem com o universo, etc.

Às vezes fico com a sensação de que os não crentes se consideram na posse dessa explicação completa. Não sei se estou enganado.

Um abraço.

Alfredo

Helder Sanches disse...

Alfredo,

Ninguém tem resposta a esta questão nem está na posse da explicação completa (quiçá nem parcial) do surgimento do universo. Mas, será que surgiu ou este é, apenas? A matéria não surge, transforma-se. Na realidade, nunca ninguém viu nada a surgir, isso é apenas uma questão de semântica para nos facilitar a vida. A matéria transforma-se e é tudo.
E se não estiver na natureza do universo ser criado, apenas existir? Deixa de haver necessidade de um criador.

Abraço

alfredo dinis disse...

Caro Helder,

Obrigado pelo interessante comentário. O caso de o universo simplesmente existir tem a ver com a posição de um conhecido físico norte-americano que está para publicar um livro intitulado Our Mathematical Universe: My Quest for the Ultimate Nature of Reality by Max Tegmark (Jan 7, 2014). Para este autor, a matemática existiu desde sempre e existirá para sempre. Considera que o universo não é um objecto físico que obedece às leis matemáticas mas um objecto matemático. Como tal, existe desde sempre.

Outro físico teórico igualmente conhecido e ateu militante, Lawrence Krauss, publicou um livro intitulado A Universe from Nothing. Ele pretende mostrar, com base nas leis da física, que o universo realmente surgiu do nada - ou do 'quase nada'. O que significa que o universo não existiu desde sempre.

Temos aqui duas perspectivas de dois físicos teóricos de grande prestígio.

Isto leva-me a pensar que a grande questão que muitos não crentes levantam: quem criou Deus? talvez possa ter uma resposta simples: Deus existe desde sempre. O que não quer dizer que tenha sido o criador do universo. Mas isso não significa necessariamente que não possa ter algum tipo de relação com o universo, sobretudo com os seres humanos, e que não lhes queira dar alguma forma de imortalidade.

Creio que desta perspectiva, as crenças religiosas - pelo menos algumas - talvez não sejam tão irracionais e absurdas como por vezes possam parecer.

Boas férias.

Alfredo

Helder Sanches disse...

Alfredo, ambos sabemos que a história desse argumento sempre foi colocada ao contrário, o que não impede que também o possas fazer, mas não me parece perspicaz. O Deus cristão é que sempre foi definido como sendo eterno e essa afirmação foi rebatida pelos ateus com o mecanismo que estás agora a utilizar. Folgo em ver-te recorrer aos argumentos ateístas para justificares a eternidade de Deus...

A maravilha da ciência, como tu bem sabes muito melhor que eu, é que quando um desses dois físicos conseguir demonstrar inequivocamente a sua teoria, o outro cumprimenta-o e, dada a importância da questão, provavelmente até o propõe para um Nobel. Quando isso acontecer, contudo, os cristãos hão-de arranjar maneira de encolher um pouco mais o seu deus de maneira a que ele caiba no buraco cada vez mais pequeno onde tem vindo a ser enfiado pelo conhecimentos científico ao longo dos últimos séculos.

Boas férias também para ti.

Anónimo disse...

«os cristãos hão-de arranjar maneira de encolher um pouco mais o seu deus de maneira a que ele caiba no buraco cada vez mais pequeno onde tem vindo a ser enfiado pelo conhecimentos científico ao longo dos últimos séculos.»


Quanta presunção....Gostava de saber em que, e como é que a ciência conseguiu enfiar Deus nesse suposto buraco.

A ciência, na sua componente útil para os seres humanos, "cria" imitações do que encontra na Criação, mas estas últimas foram projetadas, mas as primeiras não, de acordo com os descrentes, não é assim?
Francisco