14 de agosto de 2013

Fé e ciência (in)compatíveis?


Uma das ideias recorrentes na argumentação que defende a incompatibilidade entre a ciência e a religião é a de que no ocidente, durante a Idade Média e até ao Renascimento, não houve ciência porque a Igreja o impediu. Esta perspectiva parece aceitar que a ciência moderna teve início - para além da tradição islâmica –apenas no Renascimento, como que a partir do zero, tendo a investigação científica entrado imediatamente em conflito com a autoridade religiosa, separando-se da sua esfera. Esta perspectiva persiste em ignorar estudos de história da ciência que colocam em evidência as raízes medievais da ciência moderna (Edward Grant, Os Fundamentos da Ciência Moderna na Idade Média; id., Physical Sciences in the Middle Ages; David Lindberg (ed), Cambridge History of Science: The Middle Ages; William Wallace, Prelude to Galileo: Essays on Medieval and Sixteenth-Century Sources of Galileo’s Thought).

Continua-se também a ignorar que o génio de Galileu não surgiu nem se formou a partir do nada, e que ele manteve estreitas relações com muitos dos seus contemporâneos Católicos, como os Jesuítas do Colégio Romano, que tinham um observatório astronómico no qual tinha lugar investigação do melhor nível que então se fazia na Europa, e cujos resultados transmitiam aos seus alunos em aulas às quais assistiu o próprio Galileu (William Wallace, Galileo and His Sources: Heritage of the Collegio Romano in Galileo’s Science). Ainda hoje os Jesuítas continuam a fazer investigação de ponta a partir do Observatório Astronómico de Castelgandolfo, e na sua secção no Arizona, Estados Unidos.
A argumentação a favor do conflito entre ciência e religião procede também por exemplos. Galileu e o seu conflito com a Inquisição é exemplo de citação obrigatória. Mas uma tal argumentação deve escolher cuidadosamente os casos de conflito e ignorar os casos de não conflito. Por exemplo, o Jesuíta Ruger Boskovic (1711-1787) é considerado um dos precursores da moderna teoria atómica da matéria e o Padre Georges Lemaître foi quem primeiro sugeriu o que mais tarde viria a chamar-se a teoria do Big Bang sobre a origem do universo (The Primeval Atom). Nenhum deles criou qualquer conflito com as autoridades religiosas, mas estes exemplos são cuidadosamente ignorados porque deitariam facilmente por terra toda a argumentação dos não crentes. Os crentes sabem que a questão é complexa, mas para os não crentes tudo parece muito simples e evidente.

23 comentários:

Anónimo disse...

Vamos lá a um pouco de História:

Mas de facto outra revolução tinha tido início em 1400. O conhecimento pode ser impresso, a cópia deixa de ser manual... é possível copiar a informação de forma rápida e "enformar" a população... Martinho Lutero dá início a uma revolução, tradução da bíblia, o livro que afinal está cheio de nada... só a interpretação é que é válida... dos "ditos" representantes...

A europa fica a conhecer as tecnologias dos Chineses (1400), que chegam por terra, com a pólvora... uso pacífico que passa a bélico...

O conhecimento, na mão do Clero, está subordinado ao filósofo supremo, o papa e os seus consultores (cardeais)...

Esta é a ciência antes dos "descobrimentos".

Mapas. "Descobrimentos" a designação mais correcta será: "invasões e genocídeos Europeus". Até à invasão da Mesoamérica, tudo estava pacífico. Depois encontraram seres humanos com outro conhecimento, outra civilização... (lá se foi a Universalidade dos Católicos)... Os Reis mentiam entre si, mas enviam a verdade para o Papa, basta olhar para os mapas da altura... As culturas Mesoamericanas sabiam que existem luas que rodam em torno de outros planetas, logo a terra não é o centro do universo... A cultura "toda poderosa ocidental" tem de mudar de calendário depois de conhecer outros calendários... 10 dias ficam no limbo entre o calendário Juliano e o Gregoriano.

O domínio da República de Platão, com o filósofo supremo, manda no "universo" conhecido... pobres reis, nem percebem que são escravos do lobo coberto com lã de Carneiro... ainda hoje...

A religião não é incompatível com nada... a religião apresenta dogmas "moldáveis" conforme as conveniências e o Filosofo Supremo.

Miguel Oliveira Panão disse...

Anónimo,

não se percebe como se vai dos exemplos à conclusão a não ser que por "uma tal argumentação deve escolher cuidadosamente os casos de conflito e ignorar os casos de não conflito." Tudo parece simples e evidente, mas não é.

Anónimo disse...

Caro Miguel,

A realidade tem uma complexidade infinita, mas só pode dar uso ao conhecimento dessa realidade se lhe der uma figura simples. (citação)

Se quiser manter os outros na ignorância, diga-lhes que não são capazes, que é muito complexo.

Se quiser ensinar alguma coisa, mostre os blocos básicos e eles que os usem...

O que é que não percebeu? Estou ao dispor para clarificar.

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

Prefiro sempre que os comentadores comentem o texto deixado no blogue.

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

Basicamente, quem sabe que o conceito de deus apenas existe na imaginação de alguns, sabem que a questão é complexa. No entanto apresentam a capacidade de apresentar o assunto de forma simples e evidente.

Por exemplo, que autoridades religiosas se refere? Islâmicas? Ortodoxas? Reino Universal de Deus? Cristãos Gregos? Budismo? Anglicanos? Bahaí? Judaicas? Adeventistas?

Como se pode reparar, para alguns representantes de deus, o assunto da autoridade religiosa é simples e evidente, quando é um assunto complexo e contraditório.

Se acredita em Jesus, vai para o inferno. Se não acredita em Jesus também vai para o inferno... só depende das autoridades religiosas em causa...

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

O tema do texto é muito claro: são a religião e a ciência incompatíveis?

Se prefere passar o tempo a caricaturizar a religião, e isso o faz feliz, esteja à vontade.

Miguel Oliveira Panão disse...

Não percebi como passa dos exemplos às conclusões e que relação existe entre esses e o post.

Anónimo disse...

A religião não é incompatível com nada... a religião apresenta dogmas "moldáveis" conforme as conveniências e o Filosofo Supremo.

No livro sagrado está escrito:
O mundo foi feito em 7 dias.
Como todos concordamos que isso é muito improvável para não dizer impossível, então, o que está escrito deixa de ter sentido literal, (segundo os "representantes" de deus) apenas tem validade figurativa, e só a interpretação deles é que é válida.

A religião não é incompatível com nada, nem mesmo com a própria caricatura dos seus textos sagrados...

Anónimo disse...

Caro Miguel,

do post:
"Uma das ideias recorrentes na argumentação que defende a incompatibilidade entre a ciência e a religião é a de que no ocidente, durante a Idade Média e até ao Renascimento, não houve ciência porque a Igreja o impediu."

No meu texto inicial, indico que não concordo o ponto de mudança foi: a invenção de Gutenberg. "O conhecimento pode ser impresso"

O conhecimento ficou fora das mãos dos religiosos. Quer queiram, quer não. Mesmo com inquisições e fogueiras de livros!

Depois, as estórias de Galileiu, são parte do que aconteceu, e a mudança (para mim) teve início com o aparecimento de Chineses, na Europa (1400), e com as "invasões e genócideos" da Mesoamérica. Eles tinham mais conhecimento do que Galileu (1500)

cumprimentos,

Miguel Panão disse...

Caro anónimo,

continuo a não perceber. O que tem a invenção de Guttenberg a ver com a alegação por parte de quem argumenta pela incompatibilidade entre ciência e fé de que a Igreja foi um impedimento para a ciência durante a Idade Média até ao Renascimento? Quer isso dizer que concordas que ciência e fé são compatíveis? Como pode o conhecimento estar nas mãos de quem o imprime? Não estará antes nas mãos de quem o produz efetivamente? Muitos desse não eram religiosos?

Anónimo disse...

Miguel,

Primeiro lê...

"Continua-se também a ignorar que o génio de Galileu não surgiu nem se formou a partir do nada,"

Não, não se ignora. A estrutura lente e aprendiz é que deixou de ser a melhor. Com livros a estrutura professor alunos e agora, com a cópia digital, Computador/alunos permite que 1 professor ensine centenas de alunos...

A religião não é incompatível com nada (Na minha opinião...) porque se ela fosse incompatível com alguma coisa, seria incompatível consigo mesma... "Só uma religião pode ser verdadeira (dito por um papa)"... Como perdemos a guerra do extermínio dos Judeus, agora todas as religiões são boazinhas, somos "ecuménicos"...

Haja paciência para estes falsos representantes de deus... dizem uma coisa e o seu contrário como se fosse a verdade suprema total e unificadora do universo. Nem percebem que estão a dar a vida em nome de uma instituição que não percebem e não conhecem...

Cumprimentos,

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

"O tema do texto é muito claro: são a religião e a ciência incompatíveis?"

Só para religiosos é que essa pode ser a pergunta. Para um cientista é claro que:
Os textos religiosos servem apenas para enquadramento Sociológico, Histórico ou Arquelógico. Para todas as outras ciências, os preconceitos religiosos, são obstáculos a ultrapassar. Por exemplo: O Universo pode não ter tido um início nem ter um fim. O Universo pode ter distância infinita e mesmo assim ter limites...

Cumprimentos,

alfredo dinis disse...

Caro anónimo (2.13pm)

"Para todas as outras ciências, os preconceitos religiosos, são obstáculos a ultrapassar. Por exemplo: O Universo pode não ter tido um início nem ter um fim."

Não. Hoje todos os cientistas afirmam que o universo teve um início. Tal como afirma o Cristianismo.

"O Universo pode ter distância infinita e mesmo assim ter limites... "

Sim, e daí? Será que o Cristianismo afirma o contrário?

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

"Não. Hoje todos os cientistas afirmam que o universo teve um início. Tal como afirma o Cristianismo. " ?

Tem a certeza que todos os cientistas afirmam que o Universo teve um início?

Fico contente que consigo perceber como é que pode percorrer uma distância infinita mesmo num universo com limites.

Anónimo disse...

consiga e não consigo

Anónimo disse...

Como cientista prefiro a ideia dos selvagens da Mesoamérica: ciclos, continuidade, com mudanças progressivas.

Também é compatível com o nosso conhecimento. A energia não se cria, não se perde, apenas se transforma.

Assim o Universo não teve um início, apenas transformou a energia que existe..

Miguel Panão disse...

Anónimo (que raio de nome, mas enfim …)

Não, não se ignora. A estrutura lente e aprendiz é que deixou de ser a melhor.

Alfredo referia-se à opinião de muitos ateus, logo, não percebo o que queres dizer.

"Só uma religião pode ser verdadeira (dito por um papa)"

Podias dizer-me que Papa, quando e em que contexto?

Como perdemos a guerra do extermínio dos Judeus, agora todas as religiões são boazinhas, somos "ecuménicos"...

Não percebo o contexto desta frase ou o sentido em que é escrita.

Haja paciência para estes falsos representantes de deus

Quem? Não percebi.

Nem percebem que estão a dar a vida em nome de uma instituição que não percebem e não conhecem…

A que istituição te referes? Quem é tu para afirmar se percebem ou não?

Saudações

alfredo dinis disse...

Anónimo: "Tem a certeza que todos os cientistas afirmam que o Universo teve um início?"

Tenho. Se conhece algum que não o afirme, agradeço que me indique o seu nome. Obrigado.

alfredo dinis disse...

Anónimo: "Fico contente que consiga perceber como é que pode percorrer uma distância infinita mesmo num universo com limites."

Continuo sem perceber o que tem esta questão a ver com o Cristianismo ou a existência de Deus. Pensará o caro anónimo que os Cristãos são uns completos ignorantes em Astrofísica, Astronomia, Física Teórica, etc? Muitos não crentes costumam pensar que sim.

Unknown disse...

Caro Alfredo/Miguel,

Boa discussão, é sempre bom visitar blogs onde é evidente o excelente nível de retórica e lógica argumentativa. Anónimo...Chegou a haver alguma discussão ou foram só uns galhardetes de um ateu incomformado?

Saudações,
Francisco Neto

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

Agradeço a pergunta e o reconhecimento da possibilidade da existência de outras teorias.

Ao contrário da sua afirmação absoluta:
"Não. Hoje todos os cientistas afirmam que o universo teve um início. Tal como afirma o Cristianismo."

Pode olhar para:
"Paul J. Steinhardt of Princeton University and Neil Turok of Cambridge University" Endless Universe: Beyond the Big Bang...

Mas para um simples filósofo bastaria reconhecer que estamos a falar de uma "teoria" e não de uma lei...

Tenho fé, creio que o Cristianismo verá, mais uma vez, qye está errado... Talvez com um novo concílio, sempre limitado à visão dos internos e seleccionados...

Cumprimentos,

Anónimo disse...

Caro Francsico Neto,

Muito obrigado por reconhecer que os factos são consolidados e representados por bandeiras (galhardetes).

Chineses na Europa (1400), Imprensa, Genocídio na Mesoamérica, mudança de calendário na Europa... Galileu é só para entreter...

Cumprimentos,

Anónimo disse...

"Scientia est Potentia"

Tendo a religião o objectivo de ser omnipotente, a ciência não só é compatível com a religião, como a religião estimula e financia (com recursos orgânicos) a ciência.

cumprimentos,