8 de setembro de 2013

A essência do Tractatus I

Dimensão terapêutica

O livro trata dos problemas da Filosofia e mostra – creio eu – que a posição de onde se interroga estes problemas repousa numa má compreensão da lógica da nossa linguagem. Todo o sentido do livro podia ser resumido nas seguintes palavras: o que é de todo exprimível, é exprimível claramente; e aquilo de que não se pode falar, guarda-se em silêncio.
O livro também desenhará a linha de fronteira do pensamento ou melhor ainda – não do pensamento mas da expressão do pensamento, uma vez que para desenhar a linha da fronteira do pensamento deveríamos ser capazes de pensar ambos os lados desta linha (deveríamos ser capazes de pensar aquilo que não se deixa ser pensado).


Para Wittgenstein, a filosofia tradicional, com a sua intenção de captar, justificar e expor racionalmente o sentido da existência do homem ou do mundo, carece de sentido. Consequentemente, os problemas filosóficos tradicionais não se resolvem através da criação de teorias ou sínteses, enquanto tentativas reais para responder a questões que não são genuínas ou a resolver problemas que são espúrios.
Contrariando esta perspetiva, a filosofia patente no Tractatus inova, afirmando-se como uma atividade, um fazer, que tende para a clarificação total, através do estabelecimento de proposições com sentido, sendo o resultado não um aumento de conhecimento, mas uma remoção da confusão.
                A filosofia assim definida pode ser entendida como uma terapia da enfermidade filosófica, cheia de perplexidades ou dificuldades que surgem da não compreensão apropriada da linguagem. Neste sentido, o Tractatus também desenhará a linha de fronteira do pensamento ou melhor ainda – da expressão do pensamento.
Esta terapia, sendo crítica, assenta sobretudo no filósofo e na sua forma de olhar a Linguagem e o Mundo. A filosofia torna-se um meio para a clareza. Seguindo esta terapia clarificadora, o autor austríaco conclui que sendo a maior parte dos problemas filosóficos tradicionais sem-sentido (Cfr. TLP 4.003), é a clarificação destes pensamentos confusos que leva à visão certa do mundo (Cfr. TLP 6.54), à visão sadia do mundo.
A enfermidade só se cura a partir de dentro, ou seja, da própria filosofia, por isso o Tractatus enquanto crítico do sem-sentido da filosofia tradicional, é uma obra irreverente e radical. Wittgenstein afirma mesmo, no prefácio, ter resolvido todos os problemas da filosofia e, deste modo, chegado à sua plenitude, que se chega, não pela contemplação mas pela ação, pela praxis de índole terapêutica. 
Para realizar esta empresa tem que se limitar o campo do sentido a partir de dentro, estabelecendo claramente o que se pode dizer e, deste modo, concomitantemente o que não se pode dizer (Cfr. TLP 4115). Por conseguinte, traçam-se também os limites do que pode ser pensado e consequentemente do que não pode ser pensado (Cfr. TLP 4.114), já que, sendo o pensamento a proposição com sentido (Cfr. TLP 4), a fronteira entre o pensável e o não-pensável é a fronteira entre a linguagem com sentido e com não-sentido.
Esta intuição confirma a concepção Tractatiana de que toda a filosofia é crítica da linguagem (TLP 4.0031).
Esta, funda-se basicamente numa análise lógica da linguagem. Isto é, a crítica que Wittgenstein faz à linguagem solicitando a diferenciação do sentido em relação ao não-sentido (nonsense), demarcando os limites do sentido, relaciona a proposição expressa com a realidade e mostra como as coisas se passam se esta for verdadeira (Cfr. TLP 4.022), como refere nos Notebook

The proposition says something, is identical with: It has a particular relation to the reality, whatever this may be. And if this reality is given and also that relation, then the sense of the proposition is known (NB 25.12.14)

As Proposições servem de modelo (Cfr. TLP 4.01) e constroem a realidade (Cfr. TLP 4.023) e este carácter representacional é baseado nas regras da sintaxe lógica (Cfr. TLP 4.011).
Uma proposição é uma figura da realidade que representa o estado de coisas que descreve (Cfr. TLP 4.023). É central para a teoria pictórica do sentido que se a proposição for verdade ela representa um estado de coisas que existe, uma vez que os seus elementos estão correlacionados com os objetos. Portanto, inferimos o valor de verdade de uma proposição a partir da sua comparação com a realidade (Cfr. TLP 2.223). Se uma proposição é verdade, representa um estado de coisas que existe, pelo contrário, uma proposição falsa representa um estado de coisas que não existe.
Cada proposição é uma combinação vero-funcional de proposições elementares e, assim, através da estrutura de proposições elementares a teoria pictórica do sentido pode explicar a base da representação proposicional. O sentido de uma proposição depende da possibilidade da sua representação, sempre assente em substrato lógico.

A proposição constrói um mundo com a ajuda de um andaime lógico, e por isso se pode também ver na proposição, como tudo se relaciona logicamente, se ela é verdadeira (TLP 4.023)

A filosofia como crítica transcendental do pensamento ou da linguagem com sentido constitui-se como clarificação lógica, partindo sobretudo de elucidações (Cfr. TLP 4.112).
Esta metodologia filosófica da análise lógica elimina a perplexidade filosófica, mostrando que as teorias filosóficas, como as de teor metafisico, são caracteristicamente sem-sentido (nonsense) por terem violado as regras da sintaxe lógica. Só se pode falar dos factos e este nível é coberto pelas ciências empíricas. A metafísica, pelo contrário, pretendeu desde sempre e falsamente, estabelecer um saber supraempírico, uma linguagem que supere o plano fático.
                O âmbito da linguagem com sentido reduz-se, portanto, ao plano do empírico. Assim, a totalidade das proposições verdadeiras é idêntica à totalidade das ciências naturais (Cfr. TLP 4.11). Wittgenstein não pensava que a filosofia fosse um tipo de ciência que tivesse por objetivo desenvolver teorias e descobrir novos fatos. Ele estabelece que a palavra filosofia deve significar algo que se situa acima ou abaixo, mas nunca no mesmo patamar que as ciências naturais (Cfr. TLP 4.111) e que essa filosofia limita a esfera controversa das ciências naturais. (Cfr. TLP 4.113)
Assim, o método filosófico ideal seria: só dizer o que pode ser dito, ou seja, as proposições das ciências naturais – e portanto sem nada que ver com a filosofia tradicional – e depois, quando alguém quisesse dizer algo de metafisico afirmar o sem sentido de certos signos e das suas proposições (Cfr. TLP 6.53).
Contudo, Wittgenstein não é um acérrimo defensor do Positivismo Lógico e discorda de filósofos como Russell que concebem a filosofia como a mais geral das ciências. Para o filósofo inglês, o método científico permitiria à filosofia descartar os sistemas metafísicos e copiar a ciência propondo hipóteses que iriam gradualmente aproximando-se da verdade.
A filosofia do Tractatus pretende apenas a clarificação lógica dos pensamentos. Deve tornar claros e delimitar rigorosamente os pensamentos, que doutro modo são turvos e vagos (Cfr. TLP 4.112). O começo do filosofar é precisamente a suspeita ante a linguagem. O fato de se pretender dizer o que não se pode dizer é o que provoca confusão e perplexidade no pensamento e na linguagem, e este é precisamente o começo da filosofia clássica.
Afirma Wittgenstein subentendendo a sua visão

Eis o que caracteriza a minha filosofia.
As coisas estão mesmo à frente dos nossos olhos, nenhum véu as cobre. (CV, 1930)

O objetivo da filosofia é atingir um ponto de vista logicamente correto (Cfr. TLP 4.1213) e isto envolve o entendimento daquilo que pode ser dito e os seus limites. Deste modo atinge-se a clareza perfeita (Cfr. IF 133).
Wittgenstein pensa que a tarefa da filosofia pode ser completa e que ele atingiu este objetivo com o Tractatus. Ao delimitar o que é pensável, ao esclarecer as proposições científicas, descobre o que elas mostram: a forma lógica da realidade (Cfr. TLP 4.121).









1 comentário:

Wagner Gomes disse...

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