10 de setembro de 2013

Pro-choice sim, mas no que me convém a mim



1. Acaba por ser tristemente divertido ver como muitos dos que hoje se consideram dos maiores campeões das liberdades individuais, da pro-choice, nas matérias mais recônditas da vida de família, da orientação sexual, da reprodução humana, da identidade de género, da vida e da morte, e por aí adiante, de repente apresentam-se furiosamente anti-choice em matéria de educação escolar. Uma mulher pode decidir se quer deixar viver e nascer o filho gerado, ou antes abortá-lo, em total liberdade individual, sem a menor interferência de ninguém, nem sequer do pai do nascituro. E o Estado apoia com dinheiro e férias a sua eventual decisão de abortar. Mas se por acaso ela decidir deixar viver o filho, então, depois de nascido e chegado à idade escolar, o Estado só lhe paga a escolaridade obrigatória se a mãe aceitar a opção escolar do próprio Estado, e prescindir da sua pro-choice escolar. E, neste caso, aqueles mesmos que em geral são furiosos liberais e privados, por exemplo em matéria de aborto, tornam-se igualmente furiosos mas agora totalitários e públicos, em matéria escolar. 

2. Como é que o Estado poderá, nuns casos, ser a favor das liberdades de escolha, e, noutros casos, ser contra as liberdades de escolha, sendo certo que também nestes casos as escolhas resultam do legítimo exercício das liberdades constitucionais individuais, como por exemplo das liberdades de aprender, de ensinar e de escola, consagradas, as três, no n.º 1 do art. 43.º da Constituição? Artigo que ainda por cima acrescenta, no seu n.º 2, o seguinte: "O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas". Com uma limitação educativa "pública" tão drástica, com um Estado que sofre constitucionalmente de uma tal capitis diminutio educativa, como é que até pedagogos encartados defendem sem mais o monopólio da escola estatal?

3. Haveria uma explicação, mas é muito feia: é que os incoerentes defensores das liberdades, nuns casos identificam-se com aqueles que pretendem gozar as liberdades; mas, noutros casos, quando são contra as liberdades, identificam-se com os que se consideram prejudicados por essas liberdades. Só pode. Pro-choice sim, no que me convém a mim.

Mário Pinto, Ex-primeiro presidente do Conselho Nacional de Educação
Jornal Público, 4 de Setembro, p. 38

6 comentários:

Anónimo disse...

costumava vir ver este blog, parecia-me uma coisa séria.
claro, uma pessoa engana-se

Anónimo disse...

http://4.bp.blogspot.com/-41d391L3U4s/Ui12_QFG5PI/AAAAAAAAfxk/hJINirRoqww/s1600/pobreza.jpg

vejam aqui um conjunto de meninos. usando a sua liberdade de escolha, a caminho do colégio S. João de Brito.

Anónimo disse...

deixa cá ver se percebi:
eles (os maus) defende que nisto não deve haver liberdade de escolha e naquilo sim, deve haver.
que incoerentes!!!
nós (os bons) defendemos que nisto
deve haver liberdade de escolha e naquilo não, não deve haver.
que coerentes que nós somos!!!

esta lógica argumentativa deve ser protagonizada pelo visconde que é chefe da opus dei em Portugal

chama-se lógica ao nível do penico de plástico

se o autor do artigo fosse sério, citava da constituição o que diz respeito ao papel do estado no garantir do acesso à educação e do papel subsidiário dos privados que, tão liberais que eles são, se penduram nas tetas do estado e mamam dos impostos daqueles que não têm dinheiro para pôr os filhos nos colégios

que pena ter de deixar de frequentar este site e, sobretudo, ter de me sentir um pouco mais afastado de algo que tem que ver (será que tem?) com a fé em que fui criado

Anónimo disse...

Caro Alfredo,

Parabéns, um texto interessante sobre escolhas e liberdades.

Mas este estado ainda tem mais peculiaridades que merecem ser pensadas.

Olhando para as farmácias, privadas, os utentes podem escolher, mas é o estado que as mata reduzindo o preço de medicamentos que alteram a qualidade de vida a valores de 1 rebuçado comprado no café da esquina...

Cuidado com o que deseja. Pode ser que a liberdade de escolha dos utentes venha com imposições de valores que os colégios podem cobrar... 5 cêntimos... o que acha da fortuna?

Cumprimentos,

alfredo dinis disse...

Caro anónimo,

Vamos então à Constituição:

Art. 43.º n.º 2:

"O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas".

Ora, a reivindicação da Escola Pública não é feita porque nesta Escola se obtêm melhores resultados que nas privadas. Trata-se simplesmente de uma questão ideológica.

Tenha-se em conta que há países em que o Estado não tem a Escola Pública como um dogma (Inglaterra) ou subsidia tanto a Escola Pública como a Privada (Bélgica).

Anónimo disse...

Acho bem que a mulher tenha a liberdade de escolher abortar; acho mal que o Estado pague o aborto (se este não for por razão de saúde). Acho bem que os pais tenham liberdade de escolher a educação dos filhos; acho mal que o estado pague essa educação (se essa não seguir os critérios do ensino público).
carlos cardoso