18 de novembro de 2013

Era de madrugada....

Era de madrugada. Abraão levantou-se cedo, mandou aparelhar os jumentos, deixou a tenda e levou Isaac consigo; Sara, porém, seguiu-os da janela com o olhar ao longo do vale, até que os perdeu de vista. Montaram em silêncio durante três dias, e nem na manhã do quarto dia disse Abraão palavra alguma; levantou porém os olhos e avistou ao longe o monte Moriá. Mandou regressar os servos e subiu a montanha sozinho com Isaac pela mão. Mas disse Abraão para consigo: «Não quero todavia ocultar de Isaac onde o conduz este caminho.» Parou, colocou a mão sobre a cabeça de Isaac para lhe dar a bênção e Isaac inclinou-se para a receber. O rosto de Abraão era a paternidade, o olhar era doce, as palavras exortadoras. Mas Isaac não era capaz de o entender, a sua alma não era capaz de se elevar; abraçou-se aos joelhos de Abraão, lançou-se-lhe aos pés, suplicou-lhe pela juventude, pela sua boa esperança, lembrou-lhe a alegria na casa de Abraão, lembrou-lhe os cuidados e a solidão. Em seguida, Abraão levantou o rapaz, levou-o consigo pela mão e as suas palavras estavam plenas de consolo e de exortação. Mas Isaac não era capaz de o entender. Subiu ao monte Moriá, mas Isaac não o entendeu. Afastou-se dele então por um instante, mas quando Isaac olhou de novo o rosto de Abraão, encontrou-o já alterado, o olhar estava feroz, a figura medonha. Abraão agarrou Isaac pelo peito e lançou-o por terra, dizendo: «Estúpido rapaz acreditas que sou teu pai? Eu sou um idólatra. Acreditas que isto é desígnio de Deus? Não! É desejo meu.» Tremeu então Isaac enquanto gritava na sua angústia: «Deus do Céu, tem misericórdia de mim, Deus de Abraão tem misericórdia de mim, se na terra pai não tenho, que sejas Tu o meu pai!» Murmurou porém Abraão dizendo para consigo: «Senhor nas alturas, graças Te dou; bem melhor é que ele acredite que eu sou um monstro do que vir a perde a fé em Ti.»

Quando um filho deve ser desmamado, a mãe tinge o seio de negro, pois até seria pecado que o seio ainda parecesse deleitoso quando o filho já não pode recebê-lo. Assim, o filho acredita que o seio se modificou, mas a mãe é a mesma, o olhar amoroso e terno como sempre. Feliz é aquela que não recorreu a meios mais terríveis para desmamar o seu filho!

Soren Kierkegaard
Sugestão de Francisco Cortês Ferreira

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