29 de abril de 2013

O paradoxo hedonista

Fabio Bucciarelli, durante a Batalha de Alepo, via P3



A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, verifiquemos que a nossa própria felicidade continua a escapar-nos. 
Peter Singer

28 de abril de 2013

Quinto Domingo de Páscoa


"¿De qué sirve al hombre ganar todo el mundo? 
Todo lo que tiene no le basta, y cuando lo tiene no le parece nada, 
porque él no se basta y no se posee a sí mismo.
 Y todo cuanto añade a esta comida estimulante es alimento vacío. 
Se asquea de sus ídolos a medida que los coloca en lo más alto de su vida. 
Los eleva sólo para romperlos" (Maurice Blondel, L´Action). 

Por isso é que "vos dou um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros" (Jo 13, 34)

27 de abril de 2013

S. Pedro Canísio, presbítero e doutor da Igreja



Nasceu em Nimega (Holanda) no ano de 1521; estudou em Colónia, onde entrou na Companhia de Jesus; foi ordenado sacerdote em 1546. Enviado à Alemanha, trabalhou muitos anos, com os seus escritos e pregações, na defesa e conservação da fé apostólica. Publicou muitas obras, entre as quais sobressai o Catecismo. Morreu a 21 de Dezembro de 1579, na Suiça.
Canísio possuía um substrato de convicção na fé e auto-segurança que o tornou imune face aos influxos provenientes de fora. Estava na Igreja, na forma de vida herdada, e firme em si mesmo, dando mostras de um fundamento da própria vida tão profundamente alicerçado.
A unidade de sentido eclesial e de religiosidade cristã nunca foi para ele questão, e por isso também nunca se pôde ver colocado diante da necessidade de uma decisão entre ambos. Ele conhecia sem dúvida com clareza as riquezas da vida eclesial do seu tempo e manifestou-as com uma nitidez quase sem exemplo. Mas todas estas experiências nunca fizeram com que a Igreja ou determinadas formas da sua vida se tornassem para ele problema, mesmo quando desfiguradas por abusos vários, como na veneração das relíquias, na doutrina das indulgências e no seu culto dos santos.
Quando se trata do seu próprio eu, Canísio é sempre fechado e parco em palavras. Aquilo que enche a sua existência total, o ímpeto religioso do seu coração e o transbordar deste, permanece calado. A fidelidade à obra, que não conhecia quaisquer desejos próprios e não aspirava por um desdobramento da personalidade, imbuiu todas as suas relações com Deus e a sua oração.
No tempo da reforma as forças mais capazes, o entusiasmo maior e a vontade de se comprometer pareciam estar na parte contrária. Apesar de tudo, não se encontra nele sinal algum de desânimo. Pelo contrário era ele o primeiro a dar coragem aos atemorizados e esmorecidos. Aqui se mostra a real grandeza de Canísio, ou seja, plena consciência de ter de trabalhar aparentemente em vão e no vazio e no entanto aguentou sempre fiel e infatigavelmente neste trabalho, de modo que a vida pareceu ir-se-lhe toda nele.
Foi canonizado e proclamado doutor da Igreja por Pio XI em 1925.

25 de abril de 2013

Fundamentação ética

Brittney Panda, via P3



 Dado que ya no nos remitimos a la religión para regular nuestras relaciones, dado que esta regulación es una necesidad perentória, tendremos que acudir a un substituto de la misma que no puede ser outro que la ética. La ética passa así a primer plano; com una perspectiva: la de ser sobre todo ética de la convivência, ética cívica; y com un reto: el de encontrar una fundamentación autónoma, no dependiente de la religión. El problema es que esta ética de convivência no da en sí el sentido de la vida que deseamos u necessitamos para que nuestras acciones no se sitúen en la pura arbitrariedad. 
Xabier Etxeberria

23 de abril de 2013

.Uma universalidade mais local.



O ser humano, enquanto vive, está forçosamente sujeito a um espaço e a um tempo. Nunca existiu quem pudesse habitar dois lugares ao mesmo tempo. Nunca existiu quem conhecesse duas épocas diferentes à volta do mesmo espaço concreto. Bastem os dois seguintes exemplos, embora relativamente caricatos: “Nenhum homem tomou chã no mesmo minuto na Estónia e no Bangladesh”. “Nenhuma mulher napolitana viveu no Império Romano e na Itália de Berlusconi no mesmo instante”. Tempo e espaço governam-nos. Nascemos numa época e numa região determinada. É o nosso contexto vital, as nossas coordenadas humanas. E, ainda que possamos alterá-las consoante às circunstâncias, não podemos fugir a elas. Sentimo-nos forçosamente sujeitos a um tempo e a um espaço. Porém, hoje mais do que nunca, o ser humano está convidado a experimentar o universal no local. Mas, como participar activamente dum sentimento de universalidade sem poder prescindir da passividade do local concreto? “O universal no local” e “o local para o universal” procuram a sua concretização real na vida real de cada indivíduo. Mas encontrar um equilibrado termo médio, que satisfaça a ambos os extremos, nem sempre é tarefa fácil. Isto acontece, em parte, porque a inabarcabilidade do Universo -com maiúscula- remete, empurrando-nos, para os múltiplos universos particulares (casa, faculdade, trabalho, escola, rua…) Mundos diminutos, ambientes restritos, espaços limitados, contextos definidos… Locais tendencialmente fechados que se usufruem avidamente com cariz marcadamente pessoal. Fora desse entorno, no qual (por regra geral) preferimos instalar-nos, existe um autêntico universo de possibilidades, uma fonte insaciável de ocasiões, uma sedução perante o desconhecido difícil de ser plenamente saciada…
A Vida do Universo, representada nesta sugestiva noção de universalidade, promete sabor e saber a todo aquele que se atrever a sair da sua porção espacial e temporal, do seu “local”. Contudo, sobram romanticismos vazios e ilusões de grandiosidade, pois é nesse local, ou nesse outro mais ali (ou naquele outro do teu vizinho), que cada um é convidado –e necessitado- de desenvolver as suas capacidades vitais. O reduzido mundo do local, o local de cada um, merece a nossa atenção e dedicação constante e fiel, nem que seja por um profundíssimo sentimento de responsabilidade e de coerência. Não respiraria este mundo com mais alívio se todos os seus habitantes se empenharam com tais responsabilidade e coerência no pedaço de terra e de anos que lhes é oferecido viver? Mas, não seria convívio planetário de maior e melhor qualidade e agrado se todos ganhassem e praticassem um pouco de aquele espírito de universalidade já referido? Treinar a universalidade não é tanto uma concretização exterior, mas uma disponibilidade interior. Está demonstrado que não basta mudar de país para ser universal, é preciso começar a ser universal sem sair sequer do bairro. Esta escolha, consciente e constante, começa por alargar o universo das relações, dos gostos, dos conhecimentos… sem cair em regionalismos, absolutismos ou desprezos fáceis e baratos.
Lembro-me (“agora” e “aqui”) de Ulisses e Colombo (ambos viveram no seu “então” e “ali”). Percorreram o mundo, sim, mas não foram universais senão a partir do seu relato ou descoberta posterior. Teresinha de Lisieux ou o santo Afonso Rodrigues, jesuíta, foram porém universais, tremendamente universais, mesmo sem apenas ter saído do seu convento ou portaria.
O universal treina-se no local, pois o local é mestre da pertença universal.