28 de maio de 2013

.O drama de viver querendo ser outro.


Há quem não goste de ser quem é. Há quem não goste de ser como é.
São pessoas que não aceitam ser quem são nem como são. Vivem numa constante rejeição de si próprio. E esta rejeição impede uma vivência adequada dessa identidade contra a qual se enfrentam diariamente. Acordar supõe regressar à insatisfação irremediável com que deitaram na véspera. A chegada do anoitecer traz um alívio passageiro que será rasgado com os raios do novo sol. A vida torna-se um peso nada ligeiro que lhes pesa a cada passo. Não conseguem resignar-se a uma vida assim tão frustrada e continuamente a encaram, ainda que continuamente se sintam derrotados. São os constantemente vencidos, mas nunca completamente esmagados. Para além do seu azar de ser nesse ser nojento, recobram forças diariamente para lidar com o impossível que os acurrala. Amordaça-os a desconfiança numa vida menos cruel mas, mesmo assim, não se cansam de gritar uma esperança oca que rebate contra o espelho dos seus sonhos. Montes de pessoas prefeririam não ser quem são, mas não encontram remédios. Buscam alternativas, mas só se reencontram de novo consigo próprios. Confeccionam remendos para a suas vidas, mas volta-se-lhes a rasgar o espanto cada vez que recordam quem são. A insatisfação infecta a imagem, os sonhos contagiam-se de ilusões. Imagens desagradáveis e ilusões impossíveis danam a quotidianidade dos mais corajosos. Vivem homens que não querem ser esses homens. Vivem mulheres que não querem ser essas mulheres. Mas a vida obriga-os a ser assim. Homens e mulheres sequestrados pela sua condição de homens e mulheres assim. As imperfeições, tão intrinsecamente humanas, hiperbolizam-se à sua frente. Exageram-se traços negativos. O resto do bairro não ajuda a poupar sofrimento ao sofrimento deles. E pesa-lhes a vida de tal maneira que, em vez de a viver, arrastam-na às costas. Tanto, que morrer pode acabar por ser um alívio. Mas nem sequer esse alívio chega a tempo, e então só lhes resta viver… Viver um pouco mais, viver assim.
Mas fartam-se, e então observam modelos em redor. De repente, e de forma miraculosa, aparecem à volta dezenas de padrões que bem valeria a pena imitar. Seduz o diferente. O diferente convida-me, quase por hipnose, a ser como ele. Sonho com ser quem não sou. Não sou isso mas empenho-me em o ser. Obceco-me por sair dum corpo que me pertence para passar a agir como se habitasse noutro bem diferente. Visto roupas que pouco têm a ver com a minha personalidade, mas na personalidade daquele outro brilham de forma fascinante. Faço o que não quero só porque quero ser exactamente aquilo que não faço. Alimento a tendência de viver sendo quem não sou. É uma tendência apetecível. É uma apetência que atrai poderosamente. Mas este poder impotente está tingido de drama. É um drama viver querendo ser outro. Fica pela tentativa, pois nunca será consecução. Não se logra o que se deseja quando se trata de imitar o outro.
As imitações parecem fáceis, mas são aberrantes. E o pior é que dá a impressão de que se podem comprar. Vende-se felicidade a baixo preço. A insatisfação praticamente imediata salpica as montras. Os saldos incluem promessas agradáveis. Aluga-se reconciliação para com o nosso ser. Mas o nosso ser é ontologicamente pobre. Tanto, que nem sequer tem bolsos para guardar os cêntimos com que ia arranjar-te uma vida diferente. Porque não
aceitar a nossa condição de ser humano assim, aqui e agora? O agora é o nosso tempo, o aqui é o nosso lugar, o assim é o nosso modo. Escapar a estar três constantes seria realizar um filme de ficção com algum sucesso em Hollywood, mas a nossa vida detesta pipocas. É preferível ser eu, ser tu, ser ele ou ela num banco qualquer, duma fila qualquer, dum cinema qualquer… Mas consciente, convencida e agradecidamente eu, tu, ele ou ela. Assim, sem enganos de cruel alteridade. 

26 de maio de 2013

Domingo da Santíssima Trindade | Invocação à Trindade, por P. Arrupe

http://noticias.universia.com.br/br/images/imagenes%20especiales/s/sa/san/santissima-trindade-andrei-rublev-al.jpg 

 Oh Trindade Santíssima! Mistério fontal, origem de todas as coisas. Quem te viu para que possa descrever-Te? Quem poderá engrandecer-Te tal como és? Sinto-Te tão sublime, tão longe de mim, mistério tão profundo! que me faz exclamar do fundo do meu coração, Santo, Santo, Santo. Quanto mais sinto a Tua grandeza inacessível, mais sinto a minha pequenez e o meu nada, mas ao aprofundar cada vez mais o abismo deste nada, encontro-Te no fundo mesmo do meu ser: intimior intimo meo, amando-me, criando-me para que não me reduza ao nada, trabalhando por mim, para mim, comigo numa comunhão misteriosa de amor. Posto diante de Ti, atrevo-me a elevar a minha súplica, a pedir a Tua sabedoria, apesar de saber que o cume do conhecimento de Ti por parte do homem é saber que não sabe nada de Ti. Mas também sei que essa obscuridade está repleta da luz do mistério, que ignoro. Dá-me essa «Sabedoria misteriosa, escondida, que, antes dos séculos, foi destinada por Deus para nossa glória».

Como filho de Inácio e tendo de cumprir com a mesma vocação, para a qual Tu me escolheste, peço-Te algo daquela luz «insólita», «extraordinára», «exímia» da intimidade Trinitária, para poder compreender o carisma de Inácio, para o poder aceitar e viver como se deve neste momento histórico da tua Companhia.

Dá-me, Senhor, que eu comece a ver com outros olhos todas as coisas, a discernir e a provar os espíritos que me permitam ler os sinais dos tempos, a saborear as Tuas coisas e a saber comunicá-las aos outros. Dá-me aquela claridade de entendimento que deste a Inácio.

Desejo, Senhor, que comeces a fazer comigo de Mestre como com um menino, pois estou disposto a seguir ainda que seja a um cachorrinho, para que me indique o caminho.

Que a Tua iluminação seja para mim, como foi a sarça ardente para Moisés ou a luz de Damasco para Paulo, ou o Cardoner e La Storta para Inácio. Ou seja, o chamamento para calcorrear um caminho que será obscuro, mas que se irá abrindo diante de nós, como sucedeu a Inácio, conforme o ia percorrendo.

Concede-me essa luz trinitária, que levou Inácio a compreender tao profundamente os Teus mistérios que chegou a poder escrever: «Não havia mais que saber nesta matéria da Santíssima Trindade». Por isso, quero sentir como ele que tudo termina em Ti.
Peço-Te também que me ensines a compreender agora o que significa para mim e para a Companhia aquilo que manifestaste a Inácio. Permite que vamos descobrindo os tesouros do Teu mistério, que nos ajudará a avançar sem errar pelo caminho da Companhia, dessa via nostra ad Te. Convence-nos de que a fonte da nossa vocaçao está em Ti e que conseguiremos muito mais tratando de penetrar os Teus mistérios na contemplação e de viver a vida divina «abundatius», que procurando apenas os meios e actividades humanas. Sabemos que a nossa oração nos conduz à ação e que «na Companhia, ninguém é ajudado por Ti só para si».

Como Inácio , dobro os meus joelhos para Te dar graças  por esta vocação trinitária tão sublime da Companhia, como também S. Paulo dobrava os joelhos diante do Pai, suplicando-Te que concedas a toda a Companhia que arreigada e fundada no amor possa compreender com todos os Santos qual seja a largura, o cumprimento, a altura e a profundidade... e me vá enchendo até à total plenitude de Ti, Trindade Santíssima. Dá-me o teu Espírito, o Qual tudo penetra, até as profundezas de Deus.

Para conseguir esta plenitude, sigo o conselho de Nadal: Ponho a preferência da minha oração na contemplação da Trindade, no amor e união de caridade que abrange também os próximos pelos ministérios da nossa vocação.

Termino com a oração de Inácio: Pai Eterno, confirma-me; Filho Eterno confirma-me; Espírito Santo, confirma-me; Santa Trindade, confirma-me; um só Deus meu, confirma-me.

Pedro Arrupe

24 de maio de 2013

Nossa Senhora da Estrada





A Companhia de Jesus celebra hoje “Nossa Senhora da Estrada”. Na espiritualidade de Inácio – e em consequência, na espiritualidade inaciana -, que é inegavelmente cristocêntrica e trinitária, a marca mariana será também e sempre uma constante. Assim como o foi para Inácio, nossa Senhora será para todo o cristão que segue o caminho de Inácio um testemunho fiel, uma amorosa intercessora, uma Mulher que conduz ao Filho, que por sua vez nos abre caminho até ao Pai.
No mês em que a Igreja celebra de forma especial a mãe do Filho de Deus, peçamos como Inácio a Nossa Senhora que nos “coloque com o seu Filho”.

Uma explicação da imagem aqui apresentada foi dada neste mesmo blog em 2011.

23 de maio de 2013



Um leitor não crente leu com atenção a obra Educação, Ciência e Religião, que publiquei na Gradiva juntamente com o Prof. João Paiva, e fez alguns comentários pertinentes. Partilho com os leitores deste blogue alguns desses comentários a passagens do livro, aqui indicadas, bem como os meus esclarecimentos.


Texto: 
 “À religião importa ajudar a Humanidade a saber viver, enquanto à ciência importa saber explicar os fenómenos da natureza.”

Comentário do leitor- A afirmação é redutora; ambos procuram dar respostas a questões filosóficas profundas. A ciência procura, e deve procurar, muito mais do que explicar os fenómenos; pretende também ajudar a Humanidade a saber viver bem.

Esclarecimento de autor Um médico poderá curar uma pessoa com SIDA, mas deverá, enquanto médico, dizer-lhe por que valores deverá orientar a sua vida?

            O que poderá um neurocientista dizer a alguém a quem foi diagnosticado um tumor cerebral condenando-o a alguns meses de vida? Poderá certamente, enquanto cientista, explicar-lhe, em todo o pormenor, como se forma um tumor no cérebro, como se pode tentar extirpá-lo, por que razão em alguns casos se salva o doente e em outros não. Será isto que procura alguém a quem foi diagnosticado um tal tumor e que pergunta pelo sentido da sua situação? O neurocientista procurará ajudar os doentes a viver melhor a sua vida física, mas será essa toda a ajuda que as pessoas procuram e precisam? Poderá dar-lhes alguma ajuda quando não é possível prolongar-lhes a vida?

            A religião, por seu lado, nada tem a dizer sobre como acontecem os fenómenos naturais, seja a formação de um tumor, de uma galáxia ou do próprio universo. Não entra em concorrência com a ciência. A religião tem apenas como objectivo ajudar as pessoas a encontrar o sentido do universo e da vida e a viver num horizonte de sentido muito mais amplo que o da ciência, uma vez que se coloca especificamente no domínio da ética e refere os valores éticos não apenas à vida que termina com a morte mas também à existência que se prolonga para além da morte.

Como muito bem afirmou o filósofo Ludwig Wittgenstein, 
“Sentimos que, mesmo depois de serem respondidas todas as questões científicas possíveis, os problemas da vida permanecem completamente intactos.” (Tractatus)

22 de maio de 2013

Das cartas



Hoje faz doze dias que me prenderam. Dou muitas graças a Nosso Senhor, pois me tem dado uma quietação tão grande que não há coisa que mais deseje que o estado em que estou, preso por amor de Deus. Da hora em que me prenderam me não lembra senão ver-me em uma cruz ou debaixo da catana. Bendito seja o Senhor, que assim consola aqueles que por seu amor padecem.

Nunca entendi a eficácia das palavras da Escritura e a força espiritual que dão, senão depois de me ver neste estado. E assim toda a força do Império do Mundo me parece menor que a do mínimo bicho da terra. Bem entendo que nisto não entro nada; tudo é de Nosso Senhor, e por Ele e com Ele hei-de pelejar até ao fim, e assim me pesará não poder ter ocasião de padecer muito por seu amor.

Haverá quarenta dias me trata muito mal uma dor e, por este lugar ser um sapal, me tem carregado tanto que nem de dia nem de noite tenho repouso algum. Tenho-a a grande mercê de Deus Nosso Senhor, pois já que me não dá tormentos, receberei estes, que se chegam muito aos da morte, de sua divina mão. Razão é que padeça alguma coisa, pois é tempo e lugar de alcançar algum merecimento.

Nosso Senhor tem os intentos que nós não alcançamos. Pois a causa é sua. Ele disporá as coisas de modo que aquilo que for melhor, assim para nossas almas como para a cristandade, se faça. Pelo que, estou muito contente com minha sorte e Lhe dou muitas graças por Se lembrar de mim, dando-me, por sua grande bondade, um ânimo, que todos os trabalhos e tormentos do mundo parecem poucos.

João Baptista Machado nasceu em 1581 nos Açores. Entrou na Companhia de Jesus em 1597 e chegou ao Japão em 1609. Viveu na clandestinidade de 1614 a 1617.

21 de maio de 2013

.À medida da relação.


O ser humano é em relação. Só em relação é humana a pessoa. Porém, esta vocação de relação mal desenvolvida pode dar cabo da pessoa. Aliás, desajustes relacionais de todo o género são causadores de densas insatisfações na biografia de muitas pessoas. Não se trata aqui apenas duma questão de traumas infantis ou de carências afectivas durante a adolescência, mas também de desatenções na idade adulta ou abandonos até durante a Terceira Idade.  Ser em relação não é fácil, mas é que só em relação somos. Por isso, quem fugir a esta condição humana, tão diária como necessária, é logo considerado de louco, de anti-social ou, no melhor dos casos, de “bicho do mato”. Deixemos de lado o isolamento patológico dos autistas, por ser esta um tipo de doença psiquiátrica bastante mais complexa.
Mas regressemos à “normalidade”pressuposta em qualquer individuo em sociedade. Não há quem não conheça muita gente (e aqui, cada um tem plena liberdade para limitar o alargar a lista de nomes tanto como quiser, pudendo preencher para tal efeito tantas folhas como precisar). Muita gente compõe o círculo –espiral, mais bem- de conhecidos de cada um. Entram amigos e familiares, mas também simples conhecidos ou “contactos”. Os inimigos também, caso os houver. É um facto universalmente constatado que nem todas as relações são iguais. Mas é que não o têm que ser. Existem as simpatias espontâneas, mas também as antipatias imediatas. O intrincado mundo das projecções afectivas consente a amizade num só minuto e condena a inimizade durante uma vida inteira. Há entendimentos não improvisados e ódios automáticos. Como é rico e variado o fenómeno da relacionabilidade dum só homem ou mulher para com outras tantas centenas de homens e mulheres (milhares, tal vez) com quem entrará em contacto directo ao menos uma vez na sua vida! Mas como relacionarmo-nos com essa relação? Uma determinada relação presta-se à relacionabilidade também por parte dos sujeitos. Um “eu” qualquer conhece um determinado “tu” e, entre eles, estabelece-se logo uma relação, seja cinzenta ou às cores, não interessa. Defendo aqui que cada relação humana estabelece três vínculos: um entre o “eu” e o “tu”, outra entre o “eu” e a relação estabelecida entre esse “eu” e esse “tu”, e outra entre o “tu” e a relação estabelecida entre esse “tu” e esse “eu”. Desta maneira, o facto de o “eu” e o “tu” estarem atentos à qualidade dessa relação só pode conferir qualidade à relação entre eles. Não a torna instantaneamente boa, mas não a permite ser má.

É disto de que falamos quando, instintivamente, propomos cuidar uma relação. As relações necessitam cuidado. Cuidar duma relação é um investimento maravilhoso. Dar atenção e cuidado a uma relação é diferente –e possivelmente muito mais (complicado e sensível)- do que atender e cuidar uma pessoa. Requer-se muita sensibilidade interna, dessa que se vai treinando e adquirindo aos poucos graças à paciência insistente do sujeito, para elaborar relações duradoiras e férteis. A modo de dica posso dizer que um bom sintoma de maturidade relacional é aprender a medir (a pesar, a considerar…) a qualidade duma relação para a não estragar (de mais) se for tensa, ou para obter dela o máximo rendimento se for saudável.
Não se trata de dividir o mundo entre amigos e inimigos, mas de ganhar essa sabedoria relacional que permita ser próximo de todos, com prudência, com sensatez e sem desistir. A castidade compreende perfeitamente o valor desta inteligência relacional. Contudo, quem buscar a igualdade no mundo das relações choca de frente com a cruel realidade, mas quem descobrir a necessidade desta aprendizagem ir-se-á tornando mais e mais coerente, mais livre, mais apostólico e, em consequência, mais feliz. Pretendo apenas resumir esta ideia no convite de “nos fazermos do tamanho de certa relação para assim a fazer crescer em qualidade”. Esta é a fundamental importância (e nem sempre evidente) da relação estabelecida com a relação. Se não a temos em conta, emerge e morde a vulnerabilidade do sujeito lançado em relação.

18 de maio de 2013

Vinde Espírito Santo!


Vinde Espírito Santo!

Enchei os corações de vossos fiéis 
e acendei neles o fogo do Vosso amor! 

Enviai Senhor o Vosso Espírito, e tudo será criado... 
e renovareis a face da terra!