23 de setembro de 2013


É com grande tristeza, mas em profunda acção de graças pela sua vida, que venho
comunicar-vos que o P. Alfredo Dinis deixou de estar entre nós, desde ontem,
Domingo, pouco antes da meia-noite.

O modo confiado como viveu a sua doença, desde Novembro do ano passado,
marcou-nos a todos os que pudemos acompanhá-lo neste percurso. Há dias,
depois de se ter confessado e de ter comungado, assegurou-me que estava em
paz, preparado para que o Senhor o chamasse. Pude agradecer-lhe o quanto me
deu e à Comunidade Pedro Arrupe, sobretudo no modo como viveu a sua entrega
na doença. No final, pudemos dar um abraço, com grande consolação para
ambos. Nossa Senhora, por quem sempre mostrou tanto afecto, esteve,
seguramente, com ele no sofrimento dos últimos dias.

Desde já, quero agradecer a todos a proximidade e a oração. Agradecida
ficará, também, toda a Companhia aos muitos amigos e profissionais da saúde
que, de modo tão dedicado, acompanharam o P. Alfredo ao longo destes longos
meses.

P. José Frazão, sj

O seu funeral realiza-se amanhã, 24 de setembro:

               - Missa às 10h, na Igreja de São Vicente, em Braga;

               - Funeral às 17h, na Igreja Paroquial do Tramagal, Abrantes.

14 de setembro de 2013

esta parábola da misericórdia

Setembro 14, 2013

1. Este Domingo XXIV do Tempo Comum oferece-nos a proclamação e audição integral, assim vivamente o espero, da grande parábola de Lucas 15. A página lucana tem lugar garantido em qualquer antologia dos mais belos textos de todos os tempos.

 2. É a história dos pecadores e dos publicanos, dos escribas e dos fariseus. De uns e de outros, todos temos um pouco. Todos se aproximam de Jesus: os primeiros para o escutar com alegria; os segundos para o recriminar com azedume pelo facto de ele receber os primeiros e comer com eles. Há, portanto, aqui um comportamento novo, misericordioso, inclusivo e acolhedor por parte de Jesus. Os pecadores compreendem que Jesus traz um Evangelho, uma Notícia Boa. Os fariseus, porém, não consideram a Notícia suficientemente Boa. Por isso, dele se aproximam os pecadores, até então marginalizados e hostilizados pela tradição religiosa vigente; por isso, o recriminam os fariseus e os escribas, os garantes da velha tradição religiosa, rigorista, classista e exclusivista.

 3. A estes últimos conta Jesus uma parábola. Note-se bem: uma parábola, «esta parábola» (taútên parabolên) (v. 3), no singular, e não três parábolas, como é usual dizer-se. Note-se também que, para escutarmos correctamente «esta parábola» de Jesus, é do lado dos fariseus e dos escribas que nos devemos postar, dado que é para eles que Jesus conta a parábola. «Esta parábola» é, portanto, para eles e para o nosso lado orgulhoso, classista e exclusivista, para o nosso como eles. É notório que, dado o desenrolar da história contada por Jesus, gostemos mais de nos rever na ovelha perdida e encontrada do que nos noventa e nove fariseus cumpridores de ordens e que, por isso, se julgam piedosos e justos com direitos e créditos sobre Deus, como também nos revemos habitualmente naquele filho que sai de casa e que acaba por voltar, sendo recebido por um Pai carinhoso que o espera de braços abertos. Mas, para que a história nos caia em cima, como um relâmpago, é mesmo do outro lado de nós que nos devemos colocar.

 4. A eles e a nós mostra Jesus a premura do pastor que corre, ainda que seja a vida inteira, à procura da sua ovelha perdida. E mostra depois a alegria incontida que sente quando a encontra, e em que quer fazer participar os seus amigos e vizinhos. A mesma premura e alegria toma conta da mulher que procura e encontra a moedinha que perdeu no chão de terra e basalto negro da sua humilde casa.

 5. Mas já Jesus traz para a cena, sem deixar a audiência respirar, um Pai excepcionalmente maravilhoso e bom, em quem pulsa um imenso coração e vibram entranhas de misericórdia. Tem dois filhos, que nos representam a todos: um claramente pecador, que opta por sair de casa, depois de ter pedido ao pai a sua parte da herança. Note-se que todo o pai dá três coisas aos seus filhos: o pão, todos os dias; roupas novas, nos tempos festivos; a herança, uma única vez na vida, pouco antes de morrer. O pedido deste filho assume, portanto, um imenso dramatismo. Fazendo o pedido que faz, este filho como que mata o pai, ao mesmo tempo que morre como filho! Não quer mesmo mais ser filho nem depender de nenhum pai.

 6. Parte para longe, gasta tudo, torna-se um assalariado desamparado, guarda porcos, vive abaixo de porco (não lhe é sequer permitido comer com os porcos, como os porcos!). É o seu ponto mais baixo. Pensa então em voltar para casa, mas como assalariado, não como filho. Prestemos atenção ao discurso em três pontos que prepara: 1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou mais digno de ser chamado teu filho; 3) trata-me como um dos teus assalariados» (Lucas 15,18-19).

 7. Ei-lo, portanto, que regressa. Mas já o Pai está à espera dele com um imenso abraço de alma a alma. Mas o filho tinha preparado o seu discurso em três pontos, e ei-lo que começa a debitá-lo: 1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou mais digno de ser chamado teu filho» (Lucas 15,21). Como se compreende, o terceiro ponto deste discurso era fatal, e o filho já não o diz. Não porque não quisesse, mas porque o Pai o interrompe, dizendo aos criados: «Depressa…» (Lucas 15,22).

 8. É então que a surpresa enche outra vez a cena. Quando nós regressamos a casa, a Deus, nunca encontraremos um Pai distraído, ou que mudou de residência, ou que responde de forma brusca e fria. Está lá sempre à nossa espera, de braços abertos, precede-nos, recebe-nos, reabilita-nos como filhos fazendo-nos vestir «o primeiro vestido» (stolê tê prôtê) (Lucas 15,22), isto é, o que vestíamos antes e abandonámos, portanto, o de filhos, quando nós queremos é ser assalariados. Depois, faz uma festa, mata o vitelo gordo, prepara um banquete de arromba (euphraínô), vai mesmo até ao ponto de chamar uma orquestra (symphônía)! Alegria excessiva deste Pai pródigo de amor e misericórdia!

 9. É aqui que surge o outro filho, retratado como um bom cumpridor de ordens, um «justo» e zeloso fariseu, igualzinho aos fariseus «justos» e zelosos que tinham aparecido no início da história. Tal como estes, também este filho se acha com direitos e créditos sobre Deus. Em Deus não vê um Pai, mas um patrão que tem de lhe pagar, pois «nunca transgrediu uma ordem dele» (Lucas 15,29). Sempre igualzinho aos fariseus que no início da história recriminavam Jesus porque acolhia e comia com os pecadores, também este filho recrimina o seu pai por acolher e ter tudo preparado para comer com um pecador! O Pai implora-lhe que entre para o banquete da alegria. Mas a história termina sem nos dizer se este filho, que somos também nós, entra ou não entra. Final estratégico. Afinal a história de Jesus foi contada para os fariseus, e nós devemos ter compreendido que devemos tomar lugar ao lado deles, pois também nós temos uma boa parte de fariseus, para sermos atingidos em cheio pela história. A história termina sem nos dizer se aquele filho, fariseu, entrou ou não entrou na sala da alegria. História deixada propositadamente em aberto pelo narrador. Não nos esqueçamos que a história foi contada para nós. É então a nós que cabe tomar a decisão! Como vemos Deus? Como um Pai ou um patrão? E os nossos irmãos são para nos alegrarmos com eles ou para os insultarmos e denegrirmos?

 10. É também interessante notar que os dois filhos desta história falam ao Pai, ao seu Pai comum, como fazem os cristãos. Como fazemos nós. Mas em nenhum momento da história se falam um ao outro. Se calhar, também como nós. Só sabemos falar por trás, entre raivas acumuladas, insultos e desprezo. Parece que também neste aspecto a história de Jesus põe a nossa vida a descoberto!

 11. Por último, a história que ouvimos mostra-nos e adverte-nos que tanto nos podemos perder lá longe, no deserto, como a ovelha e o filho mais novo, como nos podemos perder em casa, como a moeda e o segundo filho. Atenção, portanto: podemos andar perdidos em casa, numa casa fria, sem Pai e sem irmãos, sem lareira, sem mesa e sem alegria! Só com patrão e assalariados! E, ainda por cima, podemos pensar que somos zelosos e até beatos (!), muito melhores do que os outros. Todos os cuidados, portanto!

António Couto

12 de setembro de 2013

Carta do Papa Francisco a Vladimir Putin

CARTA DO PAPA FRANCISCO
AO PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO RUSSA
VLADIMIR PUTIN, POR OCASIÃO
DA CÚPULA DO G20 EM SÃO PETERSBURGO


A Sua Excelência Senhor Vladimir PUTIN
Presidente da Federação Russa


No ano que está a decorrer, Vossa Excelência tem a honra e a responsabilidade de presidir ao Grupo das vinte maiores economias mundiais. Estou ciente de que a Federação Russa participou neste Grupo desde a sua criação e desempenhou sempre um papel positivo na promoção da governabilidade das finanças mundiais profundamente atingidas pela crise que teve início em 2008.

O contexto actual, altamente interdependente, exige uma moldura financeira mundial, com regras justas e claras próprias, para conseguir um mundo mais equitativo e solidário, no qual seja possível eliminar a fome, oferecer a todos um trabalho digno, uma habitação decorosa e a necessária assistência no campo da saúde. A sua presidência do G20 para o ano que está a decorrer assumiu o compromisso de consolidar a reforma das organizações financeiras internacionais e de chegar a um consenso sobre os stardards financeiros adequados às actuais circunstâncias. Contudo, a economia mundial poderá desenvolver-se realmente na medida em que for capaz de permitir uma vida digna a todos os seres humanos, desde os mais idosos até às crianças ainda no seio materno, não só aos cidadãos dos países membros do G20, mas a cada habitante da Terra, até a quantos se encontram nas situações sociais mais difíceis ou nos lugares mais longínquos.

Nesta óptica, torna-se claro que na vida dos povos os conflitos armados constituem sempre a deliberada negação de qualquer concórdia internacional possível, originando divisões profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem. As guerras constituem a rejeição prática de se comprometer para alcançar aquelas grandes metas económicas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu, tais como, por exemplo, oMillenium Development Goals. Infelizmente, os demasiados conflitos armados que ainda hoje afligem o mundo apresentam-nos, todos os dias, uma dramática imagem de miséria, fome, doenças e morte. Com efeito, sem paz não há qualquer tipo de desenvolvimento económico. A violência nunca leva à paz, condição necessária para este desenvolvimento.

O encontro dos Chefes de Estado e de Governo das vinte maiores economias, que representam dois terços da população e 90% do PIB mundial, não tem a segurança internacional como sua finalidade principal. Todavia, não poderá prescindir de reflectir sobre a situação no Médio Oriente e em particular na Síria. Infelizmente, é doloroso constatar que demasiados interesses particulares prevaleceram desde quando teve início o conflito sírio, impedindo que fosse encontrada uma solução que evitasse o inútil massacre ao qual estamos a assistir.

Os líderes dos Estados do G20 não permaneçam inertes face aos dramas que já vive há demasiado tempo a amada população síria e que correm o risco de causar novos sofrimentos a uma região tão provada e necessitada de paz. A todos eles, e a cada um deles, dirijo um sentido apelo para que ajudem a encontrar caminhos para superar as diversas contraposições e abandonem qualquer vã pretensão de uma solução militar. Haja, antes, um novo compromisso a perseguir, com coragem e determinação, uma solução pacífica através do diálogo e da negociação entre as partes em causa com o apoio concorde da comunidade internacional. Além disso, é um dever moral de todos os Governos do mundo favorecer qualquer iniciativa que vise a promoção da assistência humanitária a quantos sofrem por causa do conflito dentro e fora do país.

Senhor Presidente, na esperança que estas reflexões possam constituir uma válida contribuição espiritual para o vosso encontro, rezo por um êxito frutuoso dos trabalhos do G20. Invoco abundantes bênçãos sobre a Cimeira de São Petersbugo, sobre todos os participantes, sobre os cidadãos de todos os Estados membros e sobre todas as actividades e compromissos da Presidência Russa do G20 no ano de 2013.

Ao pedir-lhe que reze por mim, aproveito o ensejo para lhe expressar, Senhor Presidente, a minha mais sentida estima.

Do Vaticano, 4 de Setembro de 2013

FRANCISCO

10 de setembro de 2013

Pro-choice sim, mas no que me convém a mim



1. Acaba por ser tristemente divertido ver como muitos dos que hoje se consideram dos maiores campeões das liberdades individuais, da pro-choice, nas matérias mais recônditas da vida de família, da orientação sexual, da reprodução humana, da identidade de género, da vida e da morte, e por aí adiante, de repente apresentam-se furiosamente anti-choice em matéria de educação escolar. Uma mulher pode decidir se quer deixar viver e nascer o filho gerado, ou antes abortá-lo, em total liberdade individual, sem a menor interferência de ninguém, nem sequer do pai do nascituro. E o Estado apoia com dinheiro e férias a sua eventual decisão de abortar. Mas se por acaso ela decidir deixar viver o filho, então, depois de nascido e chegado à idade escolar, o Estado só lhe paga a escolaridade obrigatória se a mãe aceitar a opção escolar do próprio Estado, e prescindir da sua pro-choice escolar. E, neste caso, aqueles mesmos que em geral são furiosos liberais e privados, por exemplo em matéria de aborto, tornam-se igualmente furiosos mas agora totalitários e públicos, em matéria escolar. 

2. Como é que o Estado poderá, nuns casos, ser a favor das liberdades de escolha, e, noutros casos, ser contra as liberdades de escolha, sendo certo que também nestes casos as escolhas resultam do legítimo exercício das liberdades constitucionais individuais, como por exemplo das liberdades de aprender, de ensinar e de escola, consagradas, as três, no n.º 1 do art. 43.º da Constituição? Artigo que ainda por cima acrescenta, no seu n.º 2, o seguinte: "O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas". Com uma limitação educativa "pública" tão drástica, com um Estado que sofre constitucionalmente de uma tal capitis diminutio educativa, como é que até pedagogos encartados defendem sem mais o monopólio da escola estatal?

3. Haveria uma explicação, mas é muito feia: é que os incoerentes defensores das liberdades, nuns casos identificam-se com aqueles que pretendem gozar as liberdades; mas, noutros casos, quando são contra as liberdades, identificam-se com os que se consideram prejudicados por essas liberdades. Só pode. Pro-choice sim, no que me convém a mim.

Mário Pinto, Ex-primeiro presidente do Conselho Nacional de Educação
Jornal Público, 4 de Setembro, p. 38

8 de setembro de 2013

A essência do Tractatus I

Dimensão terapêutica

O livro trata dos problemas da Filosofia e mostra – creio eu – que a posição de onde se interroga estes problemas repousa numa má compreensão da lógica da nossa linguagem. Todo o sentido do livro podia ser resumido nas seguintes palavras: o que é de todo exprimível, é exprimível claramente; e aquilo de que não se pode falar, guarda-se em silêncio.
O livro também desenhará a linha de fronteira do pensamento ou melhor ainda – não do pensamento mas da expressão do pensamento, uma vez que para desenhar a linha da fronteira do pensamento deveríamos ser capazes de pensar ambos os lados desta linha (deveríamos ser capazes de pensar aquilo que não se deixa ser pensado).


Para Wittgenstein, a filosofia tradicional, com a sua intenção de captar, justificar e expor racionalmente o sentido da existência do homem ou do mundo, carece de sentido. Consequentemente, os problemas filosóficos tradicionais não se resolvem através da criação de teorias ou sínteses, enquanto tentativas reais para responder a questões que não são genuínas ou a resolver problemas que são espúrios.
Contrariando esta perspetiva, a filosofia patente no Tractatus inova, afirmando-se como uma atividade, um fazer, que tende para a clarificação total, através do estabelecimento de proposições com sentido, sendo o resultado não um aumento de conhecimento, mas uma remoção da confusão.
                A filosofia assim definida pode ser entendida como uma terapia da enfermidade filosófica, cheia de perplexidades ou dificuldades que surgem da não compreensão apropriada da linguagem. Neste sentido, o Tractatus também desenhará a linha de fronteira do pensamento ou melhor ainda – da expressão do pensamento.
Esta terapia, sendo crítica, assenta sobretudo no filósofo e na sua forma de olhar a Linguagem e o Mundo. A filosofia torna-se um meio para a clareza. Seguindo esta terapia clarificadora, o autor austríaco conclui que sendo a maior parte dos problemas filosóficos tradicionais sem-sentido (Cfr. TLP 4.003), é a clarificação destes pensamentos confusos que leva à visão certa do mundo (Cfr. TLP 6.54), à visão sadia do mundo.
A enfermidade só se cura a partir de dentro, ou seja, da própria filosofia, por isso o Tractatus enquanto crítico do sem-sentido da filosofia tradicional, é uma obra irreverente e radical. Wittgenstein afirma mesmo, no prefácio, ter resolvido todos os problemas da filosofia e, deste modo, chegado à sua plenitude, que se chega, não pela contemplação mas pela ação, pela praxis de índole terapêutica. 
Para realizar esta empresa tem que se limitar o campo do sentido a partir de dentro, estabelecendo claramente o que se pode dizer e, deste modo, concomitantemente o que não se pode dizer (Cfr. TLP 4115). Por conseguinte, traçam-se também os limites do que pode ser pensado e consequentemente do que não pode ser pensado (Cfr. TLP 4.114), já que, sendo o pensamento a proposição com sentido (Cfr. TLP 4), a fronteira entre o pensável e o não-pensável é a fronteira entre a linguagem com sentido e com não-sentido.
Esta intuição confirma a concepção Tractatiana de que toda a filosofia é crítica da linguagem (TLP 4.0031).
Esta, funda-se basicamente numa análise lógica da linguagem. Isto é, a crítica que Wittgenstein faz à linguagem solicitando a diferenciação do sentido em relação ao não-sentido (nonsense), demarcando os limites do sentido, relaciona a proposição expressa com a realidade e mostra como as coisas se passam se esta for verdadeira (Cfr. TLP 4.022), como refere nos Notebook

The proposition says something, is identical with: It has a particular relation to the reality, whatever this may be. And if this reality is given and also that relation, then the sense of the proposition is known (NB 25.12.14)

As Proposições servem de modelo (Cfr. TLP 4.01) e constroem a realidade (Cfr. TLP 4.023) e este carácter representacional é baseado nas regras da sintaxe lógica (Cfr. TLP 4.011).
Uma proposição é uma figura da realidade que representa o estado de coisas que descreve (Cfr. TLP 4.023). É central para a teoria pictórica do sentido que se a proposição for verdade ela representa um estado de coisas que existe, uma vez que os seus elementos estão correlacionados com os objetos. Portanto, inferimos o valor de verdade de uma proposição a partir da sua comparação com a realidade (Cfr. TLP 2.223). Se uma proposição é verdade, representa um estado de coisas que existe, pelo contrário, uma proposição falsa representa um estado de coisas que não existe.
Cada proposição é uma combinação vero-funcional de proposições elementares e, assim, através da estrutura de proposições elementares a teoria pictórica do sentido pode explicar a base da representação proposicional. O sentido de uma proposição depende da possibilidade da sua representação, sempre assente em substrato lógico.

A proposição constrói um mundo com a ajuda de um andaime lógico, e por isso se pode também ver na proposição, como tudo se relaciona logicamente, se ela é verdadeira (TLP 4.023)

A filosofia como crítica transcendental do pensamento ou da linguagem com sentido constitui-se como clarificação lógica, partindo sobretudo de elucidações (Cfr. TLP 4.112).
Esta metodologia filosófica da análise lógica elimina a perplexidade filosófica, mostrando que as teorias filosóficas, como as de teor metafisico, são caracteristicamente sem-sentido (nonsense) por terem violado as regras da sintaxe lógica. Só se pode falar dos factos e este nível é coberto pelas ciências empíricas. A metafísica, pelo contrário, pretendeu desde sempre e falsamente, estabelecer um saber supraempírico, uma linguagem que supere o plano fático.
                O âmbito da linguagem com sentido reduz-se, portanto, ao plano do empírico. Assim, a totalidade das proposições verdadeiras é idêntica à totalidade das ciências naturais (Cfr. TLP 4.11). Wittgenstein não pensava que a filosofia fosse um tipo de ciência que tivesse por objetivo desenvolver teorias e descobrir novos fatos. Ele estabelece que a palavra filosofia deve significar algo que se situa acima ou abaixo, mas nunca no mesmo patamar que as ciências naturais (Cfr. TLP 4.111) e que essa filosofia limita a esfera controversa das ciências naturais. (Cfr. TLP 4.113)
Assim, o método filosófico ideal seria: só dizer o que pode ser dito, ou seja, as proposições das ciências naturais – e portanto sem nada que ver com a filosofia tradicional – e depois, quando alguém quisesse dizer algo de metafisico afirmar o sem sentido de certos signos e das suas proposições (Cfr. TLP 6.53).
Contudo, Wittgenstein não é um acérrimo defensor do Positivismo Lógico e discorda de filósofos como Russell que concebem a filosofia como a mais geral das ciências. Para o filósofo inglês, o método científico permitiria à filosofia descartar os sistemas metafísicos e copiar a ciência propondo hipóteses que iriam gradualmente aproximando-se da verdade.
A filosofia do Tractatus pretende apenas a clarificação lógica dos pensamentos. Deve tornar claros e delimitar rigorosamente os pensamentos, que doutro modo são turvos e vagos (Cfr. TLP 4.112). O começo do filosofar é precisamente a suspeita ante a linguagem. O fato de se pretender dizer o que não se pode dizer é o que provoca confusão e perplexidade no pensamento e na linguagem, e este é precisamente o começo da filosofia clássica.
Afirma Wittgenstein subentendendo a sua visão

Eis o que caracteriza a minha filosofia.
As coisas estão mesmo à frente dos nossos olhos, nenhum véu as cobre. (CV, 1930)

O objetivo da filosofia é atingir um ponto de vista logicamente correto (Cfr. TLP 4.1213) e isto envolve o entendimento daquilo que pode ser dito e os seus limites. Deste modo atinge-se a clareza perfeita (Cfr. IF 133).
Wittgenstein pensa que a tarefa da filosofia pode ser completa e que ele atingiu este objetivo com o Tractatus. Ao delimitar o que é pensável, ao esclarecer as proposições científicas, descobre o que elas mostram: a forma lógica da realidade (Cfr. TLP 4.121).









Nascimento de Nossa Senhora

Rainha celestial,
Reparo das nossas dores,
Grandes são os teus louvores.
 
Senhora, como nasceste,
Tua virtude foi tanta
Que aquela embaixada santa
Com grande fé mereceste.
Tão continente viveste
Que não bastam oradores
Recontar os teus louvores.
 

A mercê que alcançaste
Nossa vida reparou,
Pois com teus peitos criaste
Aquele que te criou.
Foste causa que mudou
O grão senhor dos senhores
Em prazer as nossas dores.
 
Ó fonte de piedade
E mãe de misericórdia,
Quem de ti não faz memória
Vai mui longe da verdade.
És cheia de caridade
E de tamanhos primores
Que são grandes teus louvores.
 
Mitiga nossos tormentos
Que com tantos males crescem,
Pois nossos merecimentos
Sem os teus nada merecem.
Socorro dos que padecem
Que sejamos pecadores,
Faze-nos merecedores

sentar-se, pensar, decidir

Liturgia Dominical 8 Setembro 7, 2013


1. Desde Lucas 9,51 que Jesus está decididamente A CAMINHO de Jerusalém. E assim continuará até 19,28. Com este belo recurso à tipologia do CAMINHO (hodós) e do verbo CAMINHAR (poreúomai), Lucas exemplifica e clarifica o modo cristão de viver. Porque todo o CAMINHO abre o mundo ao meio, ao mesmo tempo que vai desenhando e actualizando a nossa vida em duas partes: «para a frente» e «para trás». Note-se que Lucas é, de longe, o Autor do Novo Testamento que mais vezes usa estes vocábulos, sensivelmente 40 em 100 vezes (hodós) e 88 em 150 vezes (poreúomai). Num mundo plano como o nosso, o Evangelho de Lucas rasga CAMINHOS e procede a verdadeiras operações de CORAÇÃO aberto. CAMINHO que abre CAMINHOS novos, novas maneiras de viver, com Jesus, que é o CAMINHO, sabe o CAMINHO, mostra o CAMINHO e faz o CAMINHO, a enxertar a plenitude nesta nossa imensa e chata planitude.

 2. E aí está o Evangelho deste Domingo XXIII do Tempo Comum (Lucas 14,25-33) a abrir com a indicação de que «CAMINHAVAM com Ele multidões numerosas» (Lucas 14,25). E Jesus, sempre com tempo, a voltar-se para nos dizer palavras cortantes como bisturis: «Se alguém vem ter comigo e não odeia (miséô) o próprio pai e a mãe e a mulher e os filhos e os irmãos e as irmãs, e até a própria vida, não pode ser meu discípulo» (Lucas 14,26-27). O que se diz aqui da família mais directa e da própria vida, dir-se-á um pouco mais à frente dos «próprios bens» (Lucas 14,33).

3. Compreenda-se, antes de mais, o sentido daquele «odiar» (miséô). É óbvio que não se trata de ódio em sentido próprio. Colidiria, por exemplo, com Lucas 18,20, em que Jesus, citando os mandamentos ao homem rico, refere a «honra devida ao pai e à mãe». O «odiar» acima referido é, na verdade, a tradução do modo de dizer aramaico, hebraico e semítico em geral, línguas que não têm outro verbo para dizer «preferir». Vê-se melhor com exemplos: em Génesis 29,31, lê-se literalmente: «O Senhor viu que Lia era odiada», e em Génesis 29,33, após ter concebido Simeão, lê-se literalmente: «O Senhor viu que eu era odiada». Em Deuteronómio 21,15-17, lê-se literalmente: «Se forem para um homem duas mulheres, e ele amar uma e odiar a outra, e gerarem para ele filhos a que é amada e a que é odiada, e se for o filho primogénito da odiada…». Nos dois textos do Génesis, a locução era odiada aparece sempre traduzida por não era amada. No texto do Deuteronómio, que apresenta o contraponto entre a mulher amada e a mulher odiada, a mulher odiada é a não amada ou de que não gosta. Portanto, é facilmente compreensível que o sentido do texto acima não passa por «odiar» a família ou a própria vida, mas por alguém «preferir» ou «pôr antes» do seguimento de Jesus a família, a própria vida ou os bens.

 4. Posto isto, entenda-se bem que o CAMINHO de Jesus é um CAMINHO de decisões fortes. Sendo que «decisão» deriva de «decidere», cuja etimologia remete para «cortar». Aí estamos outra vez então no domínio do bisturi e da operação de CORAÇÃO aberto que tem de fazer todo o discípulo de Jesus.

 5. Sendo um CAMINHO de decisões fortes, de cortes, é também um CAMINHO de ponderação e deliberação atenta e serena. Por isso, por duas vezes, o dizer de Jesus convida a «sentar-se primeiro» (Lucas 14,28 e 31).

 6. A Assembleia Dominical é um tempo extraordinariamente denso e intenso, em que os discípulos de Jesus e as multidões se sentam para ouvir a Palavra de Deus, e para tomar as decisões consentâneas com a força da Palavra que escutamos. Decisões são cortes. Todos os discípulos de Jesus se devem sujeitar urgentemente a esta operação de CORAÇÃO aberto.

 7. Não é necessário «odiar» ninguém. Mas é preciso, é decisivo, «amar mais», para sermos e termos «mais» irmãos. Ainda há muitos «Onésimos» à espera de um amor novo que os liberte, que nos liberte.

D. António Couto in Mesa de Palavras

7 de setembro de 2013

Vigília pela paz na Praça S. Pedro


Uma vigília de quatro horas presidida pelo Papa Francisco e à qual se unirão milhões de pessoas de todo o mundo, de outras religiões e até mesmo não crentes, com um mesmo objetivo: pedir pela paz. A praça de São Pedro será hoje o cenário deste histórico momento.

Desde às 15h45 da tarde estarão disponíveis 50 confessionários dentro do braço de Constantinopla e sob a colunata da praça. Foi o mesmo Santo Padre que quis que fosse colocado, considerando que a verdadeira paz nasce do coração do homem reconciliado com Deus e com os irmãos. Às 18h30 se fará a leitura do chamamento que o santo padre fez no Angelus no domingo passado, para introduzir os presentes no significado da vigília.

Às 19h começará com a saudação litúrgica do Papa. Em seguida o canto do “Veni Creator”, “para que o Espírito do Senhor Ressuscitado anime e guie nossa oração”.

A vigília estará dividida em dois momentos, primeiro um momento mariano e depois um momento eucarístico. A primeira parte começará com a Intronização da imagem da Virgem, “Salus Populi Romani”, patrona de Roma, que sairá do obelisco. Quatro guardas suíços serão os encarregados de carregar o ícone mariano e duas moças acompanharão a procissão com uma oferenda floral à Nossa Senhora.

Depois se dará início à oração do santo rosário. No começo de cada mistério, depois da leitura bíblica, acrescentou-se um texto de uma poesia de Santa Teresinha do Menino Jesus. Além do mais, no final de cada mistério se acrescentou também a invocação “Rainha da paz, rogai por nós”. Para concluir esta primeira parte, o santo padre fará uma meditação.

Depois de um breve silêncio, após as as palavras de Francisco, se preparará o altar para a exposição do Santíssimo Sacramento e começar dessa forma o momento eucarístico da vigília. Cada um dos cinco tempos de adoração guiada prevê: leitura da Bíblia sobre o tema da paz, oração de um Papa sobre o tema da paz, invocação responsorial para pedir a paz, canto, a oferta de incenso e silêncio para a adoração pessoal. E no final de cada um dos cinco momentos de adoração, cinco casais (representando Síria, Egito, Terra Santa, EUA e Rússia) vão fazer a oferta do incenso.

Uma vez concluída a adoração guiada, depois de um breve silêncio, começa o ofício das Leituras na forma mais larga prevista para uma celebração deste tipo. A passagem do evangelho elegida é João 20, 19-29. Ao finalizar as leituras, aproximadamente às 22h15, um comentário introduz um tempo de silêncio que durará até às 22h40.

Para concluir a vigília, o Santo Padre dará a bênção eucarística. A tonalidade da cerimónia será penitencial .

                                                                               Agência Zenit