2 de janeiro de 2014

Acaso ou a reconciliação com a contingência I



Probabilidade e ilusão
            Para olhares inquiridores, o espanto é algo que não cessa. Aristóteles cedo estatui que é pelo espanto que começa a filosofia; é através daquele indecifrável movimento interior que se despertam os sentidos e nos dispomos a indagar a causa das coisas. A meio caminho entre o segundo e o terceiro milénio do perscrutar filosófico, permanecemos ignorantes de muitas razões, enquanto certezas categóricas de agora são dispersadas ainda antes do anúncio do momento seguinte, em voraz sucessão de acontecimentos.
Fomos adquirindo sabedoria e vertemo-la em métodos, que paciente e diligentemente nos vão aproximando das razões de ser e das razões do ser. E ainda assim, a experiência do espanto permanece desarmante. Factos ou eventos raros ocorrem, e ainda que esmiuçados até onde conseguimos apreender, aos olhos e ao intelecto assemelham-se de origem bastante improvável. Por vezes chamamos-lhes acidentes, outras vezes imprevistos, e uma boa parte das vezes acaso.
No viver quotidiano, várias vezes vamos invocando o mero acaso, puro acaso ou pura sorte. Geralmente trata-se de jargão aplicado em situações fora do escopo do que pretendemos avaliar aqui: não pretendemos abordar os casos de mera incerteza ou de aleatoriedade gerados por uma determinação do sujeito a agir, pois neste caso foi de livre vontade que aquele encetou um jogo de cartas ou uma aposta. O acaso que nos propomos a abordar neste breve texto aplica-se ao resultado inesperado e radicalmente improvável.
Outra perspetiva de acaso que gostaríamos de evitar seria a comum visão - que até pode encontrar fundamento na etimologia - de entender acaso como algo desprovido de causa, isto é, desprovido de uma fonte de onde derive ou da qual dependa para que seja, um evento ao qual a ideia de origem é, de todo em todo, estranha. É outro o acaso a que nos pretendemos dedicar, até porque fenómenos incausados, isto é, sem causa, não se conhecem; ao fazer o percurso dos efeitos, ainda que encontremos coincidências improváveis e uma independência da previsibilidade que nos lança na mais profunda incerteza, encontraremos sempre causas, sendo este, aliás, o método preconizado por Tomás de Aquino para alcançar o que era anterior: exatamente a partir do posterior. O que parece escapar à nossa compreensão é a concorrência destas causas: perante a fraude do expectável, quedamos em insólita estupefação.

Dos efeitos às causas
Dediquemos um pouco da nossa atenção às causas antes de penetrarmos mais fundo no tema: convém distinguir causa per se de causa per accidens. Causa per se caracteriza-se por ter um fim específico em vista, enquanto na causa per accidens o efeito não tem ligame com a intenção inicial. Esta destrinça, de tão categórica, dá uma ideia de estanquidade total, o que não está de acordo com a realidade, acabando por ser uma destrinça mais útil que exata: a causa per accidens forma-se do choque de causas per se. É pela concorrência inexplicável e improvável de causas per se, pela sua confluência, que nos encontramos perante um resultado surpreendentemente viável e fecundo.
            Convém entrar na querela entre as teorias objetiva e subjetiva concernentes ao acaso. A linha de força da teoria subjetiva reside na conceção do acaso como a necessidade de uma construção mental justificativa do entrelaçamento complexo e injustificável de causas: o indivíduo engendra um agente etéreo que sossega o espírito, lançando uma capa sobre o limite do seu conhecimento. O acaso é, desta forma, reduzido a uma máscara reconfortante perante a insuficiência de informação, como ilusão mecanicista da nossa inteligência que filma o devir[1].
            Na teoria objetiva, assume-se o acaso como algo real para além da coincidência, por ser causa e por ter repercussões no campo do real. Desta forma, o acaso caracteriza-se por tudo o que acontece fora de uma série de causas e efeitos estatuídos: uma anomalia. Dentro desta linha, reconhecendo-se o acaso como objeto de estudo – ainda que fugidio – e intrigados pela surpreendente imprevisibilidade, recorremos à luz da estatística de forma a procurar padrões: é a nossa reação ao temor de estarmos vulneráveis ao fortuito e, como tal, imperscrutável.


[1] BERGSON, H. Creative evolution. London: MacMillan and Co, Limited, 1922, p. 274.

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