O mundo ao acaso
Tal como hoje somos
intrigados pelo acaso, assim também o têm sido os pensadores de todos os
tempos. O acaso tem marcado os trilhos do pensamento praticamente desde os
inícios da filosofia e conseguimos encontrar entre os primeiros quem lhe tenha
dado um papel primordial. Recordemos os atomistas Leucipo e Demócrito que
consideravam o acaso origem do movimento dos átomos:
Los
atomistas han passado a la historia como aquellos que afirman un mundo al azar.
Esto no quiere decir que no asignen causas al surgimento del mundo, sino que no
le asignan una causa inteligente, una causa final. El orden es el resultado de
un encuentro mecânico entre los átomos y no algo proyectado o producido por una
inteligência. La inteligência misma sigue, y no precede, al compuesto atómico.
Lo cual no impede, empero, que los atomistas hayan considerado que determinados
átomos, en cierto sentido privilegiados, puros, esferiformes, de naturaleza
ígnea, son los elementos constitutivos del alma y de la inteligência. Según
testimonios específicos, Demócrito habría considerado que tales átomos, además,
eran lo divino.[1]
Aristóteles discordava desta leitura preconizando que o papel do acaso é
posterior à natureza e à inteligência. Agostinho e Tomás de Aquino – assim como
a maioria dos escolásticos medievais – apregoavam as coisas contingentes e
materiais como os únicos objetos do acaso[2],
não tendo este interferência numa conceção anterior ao que existe. Os filósofos
citados, ainda que partindo de cosmologias distintas (a primeira estacionária;
a segunda criacionista) só admitiam a hipótese de um acaso relativo e nunca
absoluto.
Durante tempos a física
conseguiu viver sobre o pressuposto do determinismo: condições estáveis
permitem observar e catalogar comportamentos uniformes e regulares. Mas o
aleatório conseguiu entrar pela frincha, e a constatação da física moderna de
que a causalidade não se verifica ao nível do fenómeno atómico e subatómico
lança a física clássica num dilema existencial. Se a causalidade não rege este
campo, é através da probabilidade, do cálculo estatístico, que poderemos chegar
ao e verificar o conhecimento. No paradigma de hoje, vivemos conciliando o
determinismo e o indeterminismo.
À nossa imagem e contingência
No recorrente debate
entre criacionistas e evolucionistas, acaso veste-se de antónimo de
necessidade, e desta feita estandarte, do qual um campo se pretende valer como
equivalente a sem propósito ou não-intencional. A necessidade,
supostamente cheia de previsibilidade, é a negação dos frutos do acaso, dos
improváveis resultados gerados por causas insuspeitas de concorrerem.
Estamos perante uma perversão do raciocínio: a necessidade é cheia de
intencionalidade, mas não necessariamente previsibilidade. Deus é intencional
no seu agir, mas a forma como age é tema controverso na teologia, estudo
racional da fé; fazer depender a necessidade da verificação da previsibilidade
do facto é aceitar deslizar nas encostas de uma visão empobrecida do problema,
deste problema que pede empenho persecutório e não uma atitude acomodatícia.
Este extremar dos campos é o resultado de um enviesar da discussão em busca do
plano onde se pretende que a teoria que cada contendente preconiza atinja a
categoria de palavra última e definitiva. Será o acaso-ausência de propósito a negação da teologia-plena de propósito?
É curial inteirar-nos da
efetiva ausência de propósito, isto é, chegar a esse conhecimento para além da
aparência de não-propósito; é conveniente confirmar a condição do acaso absoluto; e,
não menos importante, verificar a incompatibilidade de acaso com Deus, desafio
maior, já que tal implicava saber se, em Deus, algo é acaso. Será, aquilo que é
acaso aos meus olhos, ter a forma de acaso aos olhos de Deus? Existirá Deus à
nossa imagem e contingência?
Há que distinguir a
intencionalidade da criação da negação do acaso enquanto fenómeno. Defender uma
não implica rejeitar a outra, não estamos perante uma disjunção exclusiva, não
há necessariamente incompatibilidade entre os termos.
Em Deus não pode existir acaso, já que a Causa Primeira, criador do
todo-existente, tem o todo-tudo patente. Está fora do tempo, é seu criador, e
por isso inabarcável pela distinção passado-presente-futuro: Deus conhece de
uma forma distinta da nossa. A suma inteligência de Laplace que pela compilação
de todos os dados do Universo fica acima de toda a surpresa não chega a ser tão
sublime quanto o conceito de Deus que como fonte nutridora, para além de
todo-conhecedor, é providente e previdente.
Há quem opte por
defender o acaso como a própria providência divina, o que é categoricamente
rebatido por Einstein com o seu célebre Deus
não joga aos dados. A providência implica uma finalidade e a concorrência
para um fim. Entramos aqui num campo de impossibilidade humana, pois é do campo
específico e próprio do conhecer de Deus que poderíamos ajuizar como o acaso é
recurso divino. A quem tem uma existência definida pelos dois a priori kantianos (espaço e tempo)
é-lhe particularmente impressionante o acaso, mas a nossa contingência não
limita o necessário.
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