4 de janeiro de 2014

Acaso ou a reconciliação com a contingência II



O mundo ao acaso
            Tal como hoje somos intrigados pelo acaso, assim também o têm sido os pensadores de todos os tempos. O acaso tem marcado os trilhos do pensamento praticamente desde os inícios da filosofia e conseguimos encontrar entre os primeiros quem lhe tenha dado um papel primordial. Recordemos os atomistas Leucipo e Demócrito que consideravam o acaso origem do movimento dos átomos:

Los atomistas han passado a la historia como aquellos que afirman un mundo al azar. Esto no quiere decir que no asignen causas al surgimento del mundo, sino que no le asignan una causa inteligente, una causa final. El orden es el resultado de un encuentro mecânico entre los átomos y no algo proyectado o producido por una inteligência. La inteligência misma sigue, y no precede, al compuesto atómico. Lo cual no impede, empero, que los atomistas hayan considerado que determinados átomos, en cierto sentido privilegiados, puros, esferiformes, de naturaleza ígnea, son los elementos constitutivos del alma y de la inteligência. Según testimonios específicos, Demócrito habría considerado que tales átomos, además, eran lo divino.[1]

            Aristóteles discordava desta leitura preconizando que o papel do acaso é posterior à natureza e à inteligência. Agostinho e Tomás de Aquino – assim como a maioria dos escolásticos medievais – apregoavam as coisas contingentes e materiais como os únicos objetos do acaso[2], não tendo este interferência numa conceção anterior ao que existe. Os filósofos citados, ainda que partindo de cosmologias distintas (a primeira estacionária; a segunda criacionista) só admitiam a hipótese de um acaso relativo e nunca absoluto.
            Durante tempos a física conseguiu viver sobre o pressuposto do determinismo: condições estáveis permitem observar e catalogar comportamentos uniformes e regulares. Mas o aleatório conseguiu entrar pela frincha, e a constatação da física moderna de que a causalidade não se verifica ao nível do fenómeno atómico e subatómico lança a física clássica num dilema existencial. Se a causalidade não rege este campo, é através da probabilidade, do cálculo estatístico, que poderemos chegar ao e verificar o conhecimento. No paradigma de hoje, vivemos conciliando o determinismo e o indeterminismo.
À nossa imagem e contingência
            No recorrente debate entre criacionistas e evolucionistas, acaso veste-se de antónimo de necessidade, e desta feita estandarte, do qual um campo se pretende valer como equivalente a sem propósito ou não-intencional. A necessidade, supostamente cheia de previsibilidade, é a negação dos frutos do acaso, dos improváveis resultados gerados por causas insuspeitas de concorrerem.
Estamos perante uma perversão do raciocínio: a necessidade é cheia de intencionalidade, mas não necessariamente previsibilidade. Deus é intencional no seu agir, mas a forma como age é tema controverso na teologia, estudo racional da fé; fazer depender a necessidade da verificação da previsibilidade do facto é aceitar deslizar nas encostas de uma visão empobrecida do problema, deste problema que pede empenho persecutório e não uma atitude acomodatícia. Este extremar dos campos é o resultado de um enviesar da discussão em busca do plano onde se pretende que a teoria que cada contendente preconiza atinja a categoria de palavra última e definitiva. Será o acaso-ausência de propósito a negação da teologia-plena de propósito?
            É curial inteirar-nos da efetiva ausência de propósito, isto é, chegar a esse conhecimento para além da aparência de não-propósito; é conveniente confirmar a condição do acaso absoluto; e, não menos importante, verificar a incompatibilidade de acaso com Deus, desafio maior, já que tal implicava saber se, em Deus, algo é acaso. Será, aquilo que é acaso aos meus olhos, ter a forma de acaso aos olhos de Deus? Existirá Deus à nossa imagem e contingência?
            Há que distinguir a intencionalidade da criação da negação do acaso enquanto fenómeno. Defender uma não implica rejeitar a outra, não estamos perante uma disjunção exclusiva, não há necessariamente incompatibilidade entre os termos.
Em Deus não pode existir acaso, já que a Causa Primeira, criador do todo-existente, tem o todo-tudo patente. Está fora do tempo, é seu criador, e por isso inabarcável pela distinção passado-presente-futuro: Deus conhece de uma forma distinta da nossa. A suma inteligência de Laplace que pela compilação de todos os dados do Universo fica acima de toda a surpresa não chega a ser tão sublime quanto o conceito de Deus que como fonte nutridora, para além de todo-conhecedor, é providente e previdente.
            Há quem opte por defender o acaso como a própria providência divina, o que é categoricamente rebatido por Einstein com o seu célebre Deus não joga aos dados. A providência implica uma finalidade e a concorrência para um fim. Entramos aqui num campo de impossibilidade humana, pois é do campo específico e próprio do conhecer de Deus que poderíamos ajuizar como o acaso é recurso divino. A quem tem uma existência definida pelos dois a priori kantianos (espaço e tempo) é-lhe particularmente impressionante o acaso, mas a nossa contingência não limita o necessário.


[1] REALE, G.; ANTISERI, D. Historia del Pensamiento Filosófico y Científico. Barcelona: Editorial Herder, 1988, p. 70.
[2] Cf. SOUSA ALVES, V. Acaso. In LOGOS – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia – Primeiro Volume. Lisboa: Editorial Verbo, 1989, p. 50.

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