6 de janeiro de 2014

Acaso ou a reconciliação com a contingência III



Reconciliados com a contingência
Partilhamos um gosto pelo seguro, pela certeza, e a distância da incerteza a esta certeza é medida em quantidades de conhecimento relevante acumulado. Buscamos amealhar conhecimento para suprir a fragilidade básica da insegurança, procurando conforto na compreensão. Este afã curioso de milénios, sistematizado e cada vez mais minucioso, leva-nos a saltos e a realidades onde nem a imaginação de outrora suponha entrar, onde a ficção foi timorata.
            Será possível um estado de conhecimento completo que nos guie à total previsibilidade e compreensibilidade dos fenómenos? Encontraremos um termo para todo este indagar? Laplace supôs que a uma tal inteligência nada seria obscuro, em nada seria falha de compreensão: tudo medido em causalidade, o determinismo mecânico deste autor – como o de Newton – permite especular sobre a mente infalível.
            Inclinamo-nos a dizer que acaso é fruto de falta de informação-compreensão, mas que não é somente uma lacuna. Conseguimos encontrar o acaso, o incompreensível-improvável no ligame causal, justificado pela carência de conhecimento: as teorias objetiva-subjetiva encontram-se e complementam-se, restando sempre incerteza.
Existirá um espaço da certeza sem qualquer vestígio de incerteza, ou todo o conhecimento exige na sua base, agora e sempre, uma opção determinada, uma convicção da mente, um ato de fé, uma crença? É assaz curioso que vivamos de tão perto com a nossa própria contingência e com os limites conhecidos da existência e, ainda assim, persistimos perante o que nos surpreende a agitar-nos freneticamente: convencemo-nos da magna previsibilidade da vida, do hipotético aviso de entrada no porto com antecedência de três dias a cada nova situação-embarcação. Persuadimo-nos sem razões aparentes, nem experiências que o confirmem, da perspicácia das nossas projeções, e de tal forma nos arreigamos às expectativas que não nos conseguimos desprender da ideia de que estas não são a única hipótese passível de concretização, de que expectativa é conceito distinto de verdade. O acaso é um convite a reconciliar-nos com a nossa própria contingência.

Bibliografia
BARTHOLOMEW, D.  God Chance and Purpose. Cambridge: University Press, 2008.
BERGSON, H. Creative evolution. London: MacMillan and Co, Limited, 1922.
REALE, G.; ANTISERI, D. Historia del Pensamiento Filosófico y Científico. Barcelona: Editorial Herder, 1988.
SOUSA ALVES, V. Acaso. In LOGOS – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia – Primeiro Volume. Lisboa: Editorial Verbo, 1989.

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