9 de janeiro de 2014

Comentário a "Nome de Guerra" por Francisco Cortês Ferreira



O estilo
Esta narrativa é um traço, um desenho simples, que vai descrevendo e contornando personagens, espaços e lugares. “…havia também uma beleza de linhas e de formas à qual não era estranha a sua beleza feminina…inclinando o corpo de lado pela cintura, eram exactos e cheios de graça.”, Tinha um pescoço horrível, sem ligação da nuca com as costas. Uma cova em triângulo entre as omoplatas e a falha do pescoço. E aqui a cor era ordinária. Porém, a nuca perfeita de redondeza, nem saliente, nem retraída. O tronco era uma verdadeira maravilha”. Escreve Vitorino Nemésio acerca deste romance: “a mesma linearidade prodigiosa, talvez ainda mais elementar que a do seu desenho”. O autor utiliza a sua caneta sem repassar os traços feitos, suportados por três grandes círculos que envolvem a história e se envolvem a si. São círculos independentes, e imiscuídos uns nos outros, e também espelhos uns dos outros. São os três nascimentos, cada um aproveitando o traço do anterior, mas regressando sempre à origem, à essência, à arché, sem contudo serem o mesmo. Assim as personagens vão sendo desfiadas e entrelaçadas, com os espaços, com as ideias, com as formas que nos vão surgindo na imaginação. Sim, porque o autor vai desenhando mais do que na folha de papel, na nossa cabeça, traços singulares, desenhando nomes de guerra, desenhando judites, diferentes para cada hora do dia, Antunes diferentes conforme o estado espiritual, e Marias tremendamente tristes. A moralidade e a espiritualidade transpiram do papel desenhado, com traços bem definidos, cada um ocupando o seu lugar, pois caso se cruzem podem reflectir a moral do romance: “ Não te metas na vida alheia se não queres lá ficar”. Como na nossa vida, os traços sobrepostos baralham o desenho.


A palavra