16 de janeiro de 2014

Uma perspectiva global da religião como construtora social



A Sociedade Ocidental vive um abandono generalizado da religião, uma sortie de la religion, utilizando a expressão de Marcel Gauchet, que se reflecte precisamente a partir da perspectiva da religião como factor estruturante da sociedade, em cuja relação e submissão ao transcendente é precisamente um factor de vinculo social. Fruto do individualismo crescente, postado num sistema relativista onde a máxima de Protágoras "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são" assenta perfeitamente, a própria religiosidade passou para o domínio privado e a institucionalização das entidades religiosas como fomento social, cai num subjectivismo de carácter intimista. Se no tempo do Homem Primitivo o Poder transcendental se imiscui no socioeconómico, precisamente por este depender do primeiro, agora, isso é condenável e imoral, como se verifica na constante laicização dos regimes ocidentais.
          
       A função da religio, como religare, tende a desaparecer e o mundo heterogéneo tão bem definido por Mircea Eliade na obra O Sagrado e o Profano torna-se agora, no princípio do Século XXI, num espaço indiviso sem noção de sagrado, por cada Ser Humano responder por si próprio ao seu deus pessoal, o que destrói a concepção primitiva da conaturalidade entre religião e sociedade. Será daqui que advém a tão constante afirmação da falta de sentido que se sente no Mundo actual? 

De Cosmos ordenado e heterogéneo avançamos para o actual Caos homogéneo onde cada um é sacerdote de si próprio e cada um se afasta da sociedade por não responder com todos socialmente perante o transcendente. O Homem Contemporâneo sente um vazio interior por se ter separado da intuição dos seus antepassados primitivos, que não distinguiam a vida quotidiana da vontade transcendental, e que portanto, viviam a própria vida como se de um sacramento se tratasse. Atualmente é incapaz disso, como é incapaz de ritualizar a própria vida num constante recomeço às origens, sendo que, ainda que o calendário civil aponte para um recomeço a cada ano, esta festa de reveillon não é mais que uma sombra do eterno retorno primitivo. Não é um regresso às origens, um retorno à sacralidade original, mas uma pobre imitação individual do que foi em tempos um marco na estrutura social do Ser Humano. Este, a cada ano que passa, perspectiva uma projeção para o futuro e não uma nova Cosmogonia, uma nova Criação, para o retorno ao Arquétipo inicial, precisamente porque esse centro há muito foi esquecido. E esta ausência de memória dos arquétipos extingue os momentos congregadores cíclicos da comunidade, que não podem ser substituídos pelos actuais Jogos Olímpicos ou Campeonatos Mundiais de Futebol porque não são absolutamente ab origine e portanto são ausentes de identidade. 

            A mimesis, que para Girard constitui a base de toda a cultura humana e portanto também o fundamento religioso, tem vindo a ser recusada na atualidade, onde um novo paradigma de originalidade sufocante tem vindo aparentemente a tolher o que aparenta ser tão natural no Homem. A busca do que é novo e incomparável, sempre no alcance do inesperado, tem contrariado esta capacidade mimética defendida pelo filósofo francês. Contudo, o que se passa realmente é que no seu íntimo o Homem permanece um ser mimético disfarçado, sendo a própria busca pela originalidade, um princípio mimético onde a transformação da mimesis de aquisição na antagónica não se verifica, pois a primeira permanece subjacente à actividade humana. A lei do individualismo potencia esta luta todos contra todos, e ainda que o Ser Humano se reúna pontualmente para atacar uma vítima, no fundo, no seu íntimo, pretende sobressair sobre todos os demais aguardando o momento certo neste jogo de aparências para garantir o seu proveito pessoal. O Sagrado originado na vítima colectiva não é real e portanto sofre uma quebra, fruto desta torrente interminável de individualismo.

            Parece-me que a recuperação do sentido do Homem como ser Social passa pela reassimilação do Cosmos como espaço Sagrado, pelo temor como respeito por uma entidade superior reguladora do Universo. A secularização que mina a sociedade leva à perda da relevância dos símbolos sócio-religiosos e consequentemente ao desvanecer do mistério que constitui o encantamento da vida do Homem primitivo. É preciso regressar à perspectiva de Weber na qual a religião é uma fonte de sentido para o Homem ocidental interpretar as condições da sua existência, a sua identidade e vicissitudes sócio-históricas, por isso, este tem que se virar para as suas raízes, reaprender com a religiosidade primitiva e assumir-se como igual perante o Supremo transcendente. O Homem Ocidental tem que assumir a sua tradição judaico-cristã que integra este mesmo pensamento, ao pregar a igualdade perante Deus, pela universalidade da filiação divina. É necessário redescobrir as palavras de Cristo da última ceia: “Fazei isto em memória de Mim” como o retorno a um momento fundador da Sociedade Ocidental. A própria Igreja deve assumir-se como uma comunidade, ou sociedade, assumir-se como corpo místico de Cristo, ser ela própria uma hierofania, uma manifestação do sagrado que tem como totem simbólico a Cruz, tantas vezes representada e tantas vezes esquecida, pela sua carga simbólica e associação à divindade que se deve adorar, e partindo deste ponto, recuperar os totens comunitários, já que as próprias bandeiras faliram como emblema congregador precisamente por não possuírem em si a carga do que representam, como os totens das tribos australianas assumiam em si o espírito divino ordenador que supervisionava a sua vida. 

            Enquanto a Sociedade Ocidental não recuperar a conaturalidade que possui com a religião, vai-se desfragmentando até à implosão final. Não é uma constituição comum a um grupo de estados que irá criar uma sociedade, o que se na ausência de esperança entre os estados membros da União Europeia. Pelo contrário, do outro lado do Atlântico os Estados Unidos mantêm-se mais ou menos congregados harmoniosamente, precisamente porque há resquícios de uma dependência do divino como nas sociedades primitivas. Não é por acaso que o lema nacional norte-americano é In God We Trust e que o presidente quando toma posse jura com a mão sobre a Bíblia. Apesar de ténues os símbolos existem e isso ajuda à manutenção e a coesão do grupo de estados. Há um sentido imanente a tudo isso, mesmo que o Homem primitivo entendeu no passado. A Religião brota da Sociedade, é um fenómeno colectivo e não individual, porque é um fenómeno teleológico, algo que o Homem Moderno e Pós-Moderno ainda não entendeu: ninguém se salva sozinho, e enquanto não recuperar a Sociedade Mística, não viverá harmoniosamente em comum.


O Homem Primitivo vivia intuitivamente na dependência do poder transcendente, e era este facto que dominava a sua vida como Ser Social. A perspetiva com que enquadravam o Cosmos era mística, sentindo e assumindo o Poder Religioso em todas as dimensões importantes da sua Vida, inclusivamente o modo como compreendia o espaço e o tempo. A própria vida em sociedade e sobretudo o modo como se associavam comunitariamente era dependente do divino, como se a sua vida fosse uma grande liturgia, com os seus símbolos, os seus totens, e onde todos participavam como comunidade. A Religião interligava os membros da comunidade e eles identificavam-se perante ela, e por isso viviam socialmente dependentes dela. Por outro lado, foi do Seio da Comunidade que brotou a interrogação e a organização que possibilitou ao Homem tomar consciência da entidade que entendiam ser superiora a si. 

            Na aurora da Humanidade, o Homem revelou a faceta mais distintiva da sua própria natureza, assumiu-se como um Ser Crente e por isso associou-se em Adoração, num Cosmos que nunca mais seria o mesmo, pois o Homem como Homem já não vive só, mas organiza-se socialmente perante algo Superior a ele.


Francisco Cortês Ferreira

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