27 de fevereiro de 2014

Comentário Pessoal sobre o Deus de Espinosa à Luz da Espiritualidade Inaciana




            Poder-se-ia estabelecer um paralelo entre o Deus sive Natura espinosiano e a expressão inaciana “procura em todas as coisas a Deus Nosso Senhor”, o que colocaria também em cheque, parece-me a Companhia de Jesus. De facto, poderá ecoar como panteísta, aos ouvidos mais desatentos, esta expressão da busca de Deus em tudo, como se Ele estivesse em tudo, ou Ele fosse tudo. E Santo Inácio, fundador da Companhia de Jesus, muitas vezes repete esta sentença como algo de virtude, como objectivo a atingir, experimentado pelo próprio. No entanto, parece-me, a um olhar atento é impossível confundir estas duas perspectivas. O encontrar e buscar a Deus em todas as coisas é realizado segundo um Deus transcendente, que se revela pelo poder do Espírito nas coisas do mundo, e nas quais o homem, pela sua devoção e atitude orante perante a vida pode encontrar a presença de Deus. Esta possibilidade de encontrar Deus em todas as coisas realiza-se pela capacidade mística do Homem e não pela real identificação de Deus com a Natureza à maneira de Espinosa. Não há confusão possível, embora a beatitude e conduta de vida que Espinosa propõe na Ética, seja também aprovada pela leitura Inaciana, mas neste caso, como resultado da graça de um Deus Transcendente.  

O Deus Inaciano é o Deus Cristão, o Deus que Espinosa rejeita, como antropomórfico. O Deus de Espinosa cria necessariamente e pré-deterministicamente e, portanto, sem objectivo teleológico, apenas por necessidade da criação.

Pelo contrário, Santo Inácio propõe uma finalidade, aquela que Espinosa precisamente critica, de que o homem foi criado para “louvar, prestar reverência e servir a Deus Nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma”. A partir desta leitura, e tendo a perspectiva Inaciana como pano de fundo rejeitaríamos completamente a religiosidade de Espinosa. 

Mas, por outro lado, deveríamos rejeitar, também, o misticismo de Espinosa? 

Se considerarmos mística como “a experiência fruitiva de um absoluto”, parece-me que Espinosa é tendencialmente um místico, pelo menos na intuição do Amor intellectualis Dei que apresenta como caminho de realização e libertação e que abre, em última análise, para a dimensão amorosa de Deus. Mais ainda, para o filósofo Holandês, o Absoluto é o Deus sive Natura enquanto infinito, e perante ele deve o homem comportar-se com reverência e neste sentido, diria que, ontologicamente, Espinosa encontra no seu sistema um caminho de realização pessoal próximo do misticismo. Assim, tenho alguma dificuldade em considerar Espinosa Ateu, visto um não crente não remeter a sua existência para um infinito e, portanto, não fruir dessa experiência de infinito. 

Uma última questão permanece em relação a esta temática, à mística é essencial uma transcendência? É necessária esta marca de afastamento do Homem que em Espinosa não se realiza? Ou é uma questão de intenção e intuição?  

Do meu ponto de vista, em última análise, parece-me que devemos julgar Espinosa não pelas suas crenças, mas pelo fruto proveniente das mesmas. Se é facto que é muitas vezes acusado de panteísmo e até ateísmo, Espinosa acaba por se tornar alguém cuja vida é exemplo de sensatez, austeridade e recato, entre outras virtudes consideradas cristãs, o que reflecte um coração centrado naquilo que considera mais importante, porventura, até sagrado. Neste sentido, era sem dúvida um homem religioso.

Numa carta a Oldenburg, Espinosa desabafa que a “ opinião que o vulgo tem de mim, não cessando de me acusar de ateísmo, sou obrigado a contestá-la o mais possível”. De facto, Espinosa acreditava que a verdade da existência de Deus podia ver-se tão claramente como uma proposição de Euclides. 

A questão de Deus, para o filósofo holandês era óbvia, embora não ao jeito da tradição vigente. Rejeitou o Deus antropomórfico, transcendente, que criou o mundo por amor, na sua liberdade e proclamou Deus como causa imanente e a ausência de qualquer propósito teleológico na criação. Deus é identificado com a Natureza, Deus sive Natura e como tal podemos chamar ao Teísmo de Espinosa, um Panteísmo. 

Não poderíamos deixar de notar que quando Espinosa aponta o Amor intellectualis Dei como a forma mais elevada da actividade humana, demonstra a sensibilidade de alguém com ligação ao Absoluto como forma de felicidade humana, ou seja, por outras palavras, Espinosa era um homem que se relacionava com Deus de alguma maneira, não era um Ateu, como alguém que rejeitasse o Absoluto, pois nesse caso seria necessário classificar a sua doutrina de Pan-Ateísmo, o que seria manifestamente absurdo.

Por Francisco Cortês Ferreira

1 comentário:

Anónimo disse...

se Deus se manifesta na natureza e na nossa vida em todas as suas dimensoes, ha que perceber que apesar de Espinosa apresentar toda uma serie de topologias na sua concepcao do transcendente diferentes daquelas que sao por assim dizer, as premissas do cristianismo, e possivel efectivamente a partir dos canones de ordens contemplativas aceirar as teses de espinosa como validas a luz do cristianismo. afinal de contas, todos os caminhos vao dar ao mesmo lugar ou a lugares identicos.