6 de fevereiro de 2014

'De Rerum Natura' de Lucrécio



O poeta conseguiu, na obra tratada, o equilíbrio entre uma doutrina física e uma filosofia moral. De facto, apesar do pano de fundo epicurista, o poema é, essencialmente atomista, com uma tentativa de explicação mecânica dos fenómenos da natureza. A associação da estrutura material do mundo e das problemáticas metafísicas da alma e da morte à existência de átomos é arrojada e sobretudo com intuições de uma actualidade tremenda, como por exemplo a negação de uma causa final das coisas, não podendo haver senão causas eficientes o que está em consonância com a ciência moderna que aponta sobretudo a estas últimas causas. Para conseguir associar a esta doutrina que se apoia absolutamente no físico, a filosofia Epicurista, Lucrécio descreve magistralmente o conceito de clinamen que se tornará uma das pontes mais importantes entre os dois sistemas. De facto, a possibilidade de um átomo num momento da sua trajectória, poder desviar-se, indicia a existência de uma potencialidade de liberdade, ou seja, o homem pode tomar decisões porque existe a declinação atómica. Com isto, toca num dos outros temas centrais que ressoa em toda obra: o temor dos deuses. Lucrécio explica desde o aparecimento dos seres até aos fenómenos meteorológicos, incluindo os fenómenos sensitivos associados aos sentidos e os transcendentes ligados à morte e à alma, sempre recorrendo ao modelo atómico, provando que, os fenómenos são puramente naturais e como tal, não dependem dos deuses. Assim, a existência de Leis Naturais e a natureza exclusivamente física dos fenómenos, associada ao clinamen como fonte de liberdade de escolha do homem transmitem, segundo o autor, a segurança de que os deuses não têm qualquer influência na vida humana e que portanto se pode viver serenamente, aproveitando em paz todos os prazeres da vida e aceitando tranquilamente todos os fenómenos, inclusivamente a morte.  

            Esta doutrina, aos olhos do relativismo e individualismo actuais, seria potencialmente apetecível, sobretudo com o racionalismo crescente suportado pelo avanço da ciência e ainda com o hedonismo furioso que tomou conta das mentes herdeiras da década de 1960, contudo, é de notar que este prazer e tranquilidade que Lucrécio prega não é selvagem, mas ascética, e que a observação serena dos fenómenos naturais é mais contemplativa que ativa. 

            No entanto, esta carga filosófica e moral, e o livro em si, não teriam ganho um lugar na posteridade se não fossem suportados pela excelência de um texto literário que se coloca, no meu entendimento, no panteão de uma das mais belas obras da antiguidade.

         Para Lucrécio os fenómenos naturais têm explicação física, através dos átomos, e não divina e que portanto o homem não deve temer a fúria dos deuses. Este deverá viver segundo a doutrina epicurista, tranquilamente, na contemplação da Natureza, aproveitando os prazeres da vida e não receando a morte nem a retaliação dos deuses, já que não há vida post mortem.

Por Francisco Cortês Ferreira

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