20 de fevereiro de 2014

Espinosa - Ateu ou Panteísta



                A questão central em toda esta problemática é o quê/quem é “Deus” para Espinosa. De facto, este Deus não é o da tradição judaico-cristã, no sentido em que não é transcendente, ou ontologicamente distinto do mundo criado, mas imanente, o Deus sive Natura, o Deus-Natureza. Neste sentido, Espinosa rejeita o Deus Antropomórfico, Omnipotente, Omnisciente, Juiz da acção e vida humana que recompensa ou destrói, consoante o comportamento humano. 
 
Na parte I da Ética, o Filósofo Holandês afirma que Deus-Natureza é um todo substancial indivisível, incausado, sendo que fora dele nada existe e tudo o que existe é parte dele, e que tudo é trazido para o Ser necessariamente, através das leis da Natureza. 

Ora, este entendimento de Deus, que cria necessariamente e pré-deterministicamente, não por bel-prazer, mas pelo seu poder absoluto, leva Espinosa a afirmar que não há uma teleologia ou finalidade na Natureza, e nada existe por nenhuma razão especial, ou seja, usando linguagem aristotélica, não existe nenhuma “causa final” na Natureza, tudo existe somente através da “causa eficiente”. O Deus-Natureza não age com um determinado objectivo, a ordem das coisas apenas seguem a necessidade da criação. Afirma Espinosa: “Todos os prejuízos que me cumpre indicar dependem de um só, a saber: os homens supõem comummente que todas as coisas da Natureza agem, como eles mesmos, em consideração de um fim, e até chegam a ter por certo que o próprio Deus dirige todas as coisas para um determinado fim, pois dizem que Deus fez todas as coisas em consideração do homem, e que criou o homem para que este lhe prestasse culto”. Ataca deste modo as religiões organizadas, associando-as a superstições enganosas. Continua Espinosa: “ [como as pessoas] encontram em si e fora [de si] bastantes coisas que são meios que contribuem não pouco para que alcancem o que lhes é útil, como, por exemplo, olhos para ver, dentes para mastigar, vegetais e animais para alimentação, sol para iluminar, mar para sustento de peixes, são levados as considerar todas as coisas da natureza como meios para a sua utilidade pessoal. E porque sabem que tais meios foram por eles achados e não dispostos, daqui tiraram proveito para acreditar na existência de outrem que os dispôs para que os utilizassem”.

Com efeito, depois de haverem considerado as coisas como meios, não podiam acreditar que elas se criassem a si mesmas, e dos meios que costumam dispor para seu uso próprio foram levados a tirar a conclusão de que houve alguém ou alguns regentes da Natureza, dotados como os homens de liberdade e que cuidaram em tudo que lhes dissesse respeito e para sua utilidade fizeram todas as coisas. Prossegue Espinosa afirmando, num fio condutor: “Quanto à compleição destes seres, como nunca ouviram nada a tal respeito, também foram levados a julgá-la pela [pela compleição] que em si notaram. Daqui, haverem estabelecido que os deuses ordenaram tudo o que existe para uso humano, a fim de os homens lhes ficarem cativos e de serem tidos em suma honra; donde o facto de haverem excogitado, conforme a própria compleição, diversas maneiras de se rende culto a Deus, para que Deus os estime acima dos outros e dirija a Natureza inteira em proveito da sua cega apetição e insaciável avareza. Assim, este prejuízo tornou-se superstição e lançou profundas raízes nas mentes.”
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Numa carta a Hugo Boxel, Espinosa enfatiza o seu desacordo em relação à imagem de Deus como um “homem perfeito” quando afirma que “Quando você diz que não compreende que tipo de Deus eu concebo, quando eu Lhe nego as acções de ver, ouvir, assistir, da própria vontade, etc., e que Ele possui essas faculdades num grau perfeito, eu suspeito que você acredita que não existe perfeição maior do que a que pode ser explicada pelos supracitados atributos. Eu não fico surpreendido, que Eu acredito que um triângulo, pode, na mesma linha, afirmar que Deus é um triângulo perfeito, e um circulo afirmar que Deus é um círculo perfeito”

Para além da rejeição da perspectiva antropomórfica de Deus, tão vigente no seu tempo, no escólio da proposição XV, Espinosa defende a possibilidade de Deus integrar a matéria, o que é incompatível com a transcendência divina: “ desconheço a razão pela qual a matéria seria indigna da natureza divina...”. Para Espinosa, aqueles, defensores da religião tradicional, que pregam a conduta moral como modo de evitar a ira de Deus, apenas levam os seus ouvintes à superstição e não à iluminação. Deste modo, também a crença em milagres e a projecção de propósitos divinos nos fenómenos da Natureza é precisamente ignorar as causas por detrás desses fenómenos. “ Como efeito, se, por exemplo, uma pedra cair de um telhado sobre a cabeça de alguém e o matar, demonstrarão da seguinte maneira que a pedra caiu para matar esse individuo: se não caísse com tal fim, por vontade de Deus, como é que tantas circunstâncias (pois na verdade é frequente concorrerem muitas simultaneamente) poderiam dar-se encontro naquela queda? Responder-se-á, talvez, que o acontecimento ocorreu porque o vento soprou forte na ocasião e o indivíduo tinha de fazer caminho por esse sítio. Insistirão, porem: porque soprou o vento na ocasião e porque é que o indivíduo tinha de passar por esse sítio nessa ocasião? Se se retorquir que o vento se levantou na ocasião porque no dia precedente, com tempo até então calmo, o mar começara a agitar-se, e o individuo havia sido convidado por um amigo, replicarão de novo, dado não haver fim ao perguntar, porque é que o mar se agitou e o individuo fora convidado para tal ocasião, não cessando de perguntar as causas das causas até que o interlocutor se refugie na vontade de Deus, isto é no asilo da ignorância”.Neste sentido, Espinosa defende a absoluta autonomia e independência de Deus, sem uma implicação da Sua vontade no decurso dos fenómenos Naturais.  

            Espinosa rejeita, portanto, como vimos, por completo a visão antropomórfica de Deus com as suas características morais e psicológicas, segundo ele, muito afastadas do verdadeiro Deus. Afirma, categoricamente: “Além disso, esta concepção deita [por terra] a perfeição de Deus”.

            Ora, toda esta descrição anterior implica que Espinosa seja ateu ou apenas que a concepção de Deus de Espinosa se afasta da tradicional judaico-cristã? 

Espinosa possuía uma concepção racionalista e impessoal de Deus, que possui certas funções metafísicas causais, sem quaisquer características psicológicas ou morais. Ora, não deveríamos imputar semelhante “acusação” de ateísmo a Descartes, cujo Deus possui um papel metafísico e epistemológico muito importante na sua filosofia? Não será o Deus de Descartes filosófico?  

A dificuldade maior na concepção espinosiana de Deus, o que traz a problemática do teísmo é a identificação de Deus com a natureza e a eliminação da transcendência de Deus, o que é distintivo sobre as várias formas de panteísmo. O termo “panteísmo” pode ser entendido em dois sentidos: Primeiro, como a assumpção de que Deus é ontologicamente distinto do mundo e seu conteúdo, mas, no entanto genericamente imanente ou contido dentro dele, talvez no sentido em que a água está contida numa esponja ensopada ou o sumo está contido num fruto. Este é chamado o “panteísmo imanentista”. Em segundo lugar, panteísmo pode ser entendido como a afirmação que Deus é de facto, idêntico a tudo o que existe. “Deus é tudo e tudo é Deus”. Neste sentido, Deus é o mundo e tudo que ele contém e nada distinto dele. Este é o “panteísmo redutivo”.Apesar do facto de Espinosa afirmar que Deus é imanente à Natureza, não o é no sentido imanentista do primeiro termo.

A expressão Deus sive Natura pretende afirmar uma identidade estritamente numérica entre Deus e a Natureza e não o conteúdo da relação. Deus não está na Natureza no sentido em que a Natureza o contém como um distinto conteúdo divino e sobrenatural. Não há nenhum espírito ou chama divina entre as coisas naturais ou sob a Natureza como um todo. Pelo contrário, Espinosa é panteísta no sentido redutivo. Se o panteísmo é a visão de que Deus é tudo, então Espinosa só é panteísta se identificar Deus com toda a Natureza, isto é, se ele adoptar a interpretação inerente à relação entre substancia e os modos na sua metafísica. 

            Mesmo que Espinosa identifique Deus com toda a Natureza, não significa que seja panteísta. O problema real não é a leitura correcta da concepção metafísica de Deus em Espinosa. Outra possível interpretação é que Espinosa se move num campo reductivo e naturalista. Deus é idêntico com, quer parte, quer toda a Natureza. Por esta razão partilha algo com o panteísmo, mas até o ateísmo pode, sem grande dificuldade, admitir que Deus não é outra coisa senão a natureza. Panteísmo Redutivo e ateísmo são, em termos ontológicos, extencionalmente equivalentes, já que nenhum admite nada que seja para além do que é natural – sobrenatural.

Mais, a questão do panteísmo de Espinosa é respondido no lado psicológico das coisas, entendendo a verdadeira atitude tomada mediante a expressão Deus sive Natura. O que distingue realmente o panteísmo do ateísmo é que o panteísmo não rejeita as atitudes psicológicas religiosas requeridas pelo teísmo. O panteísmo simplesmente afirma que Deus, um ser diante do qual se toma uma atitude de louvor, é ou estende-se através da Natureza. Nada pode ser mais para além do espírito da filosofia Espinosiana. Como vimos, Espinosa, não crê que essa atitude de adoração é correcta diante Deus ou a Natureza. Não há nada sagrado acerca da Natureza. Não é o objecto de uma experiencia religiosa e não há espaço, no sistema de Espinosa para o mistério diante da Natureza. Em vez disso, deve-se lutar para entender Deus-Natureza, com um distinto conhecimento intelectual que revele as verdades mais importantes da natureza e mostre como tudo depende essencialmente e existencialmente de causas naturais mais elevadas.

Por Francisco Cortês Ferreira

2 comentários:

Roni Kurono disse...

Adorei o texto. Essa semana tive um debate com um pessoal que dizia que Spinoza não era Panteísta, gostaria da opinião de vcs sobre esse ponto de vista.

Anónimo disse...

Já agora, poderia ser recordado que Espinosa,judeu, apesar de ter nascido na Holanda, era filho de judeus portugueses (pai e mãe) nascidos em Portugal.