13 de fevereiro de 2014

O Deus de Espinosa



Deus e o conceito de Substância
 Como iniciação ao sistema que Espinosa propõe como explicação de Deus e do Mundo, é importante partir da noção apresentada no Axioma I: “Tudo o que existe, existe em si ou noutra coisa”. É dito noutra coisa (in alio) tudo o que não pode existir de outro modo que não seja como atributo de um sujeito, a título de qualidade ou quantidade, de maneira de ser em geral; é dito em si (in se) o que só pode ser sujeito, e jamais atributo, o que só pode ser propriamente um ser.

Na Ética, o Filósofo holandês define por substância aquilo “que existe em si e por si é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não carece do conceito de outra coisa do qual deva ser formado”. A substância é pois o que Espinosa chama de causa sui, pois explica-se por si mesma e não por referência a alguma causa externa. A definição implica pois, que a substância seja completamente dependente de si mesma, quer para a sua existência quer para os seus atributos e modificações. Dizer tal coisa é afirmar que a sua essência compreende a sua existência. “Por causa de si entendo aquilo cuja essência envolve a existência; ou por outras palavras, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente”.

Segundo Espinosa, a ideia que temos de substância implica compreender a noção de que a existência pertence à essência de substância. “Por conseguinte, se alguém disser que tem uma ideia clara e distinta, isto é, verdadeira, da substância e no entanto duvida da existência de tal substância, por certo que isso equivaleria a dizer que tinha uma ideia verdadeira mas duvidava se ela não seria porventura falsa”. Assim, o Filósofo toma por absurdo que aquele que implica a ideia de substância como verdadeira, não implique também a sua existência, o que se verifica apenas ao nível da substância, que é por si e por si se concebe. 

            Pela própria definição de substância admite-se que não há nenhum efeito que se possa repercutir sobre ela que tenha causa externa, ou seja, a substância explica-se a si própria e como tal terá que ser infinita, pois a finitude e a limitação implicam que sobre a substância se realize alguma acção causal, ou seja, esta estaria submetida a alguma causa externa, o que vai contra o seu próprio conceito. Ora, uma substância infinita tem que possuir infinitos atributos, pois “quanto mais realidade ou ser uma coisa tem, tanto mais atributos lhe são próprios”. A essa substância infinita com infinitos atributos, Espinosa chama: Deus. Daqui prossegue, afirmando, que esta substância infinita onde a essência e a existência são uma e a mesma coisa, é indivisível, única e eterna.

Apesar de esta descrição aparentar ter sido decalcada da definição tradicional de Deus, o Filósofo da Ética ao afirmar que “a extensão é um atributo de Deus; por outras palavras, Deus é uma coisa extensa” demarca-se da Escolástica e de Descartes, pois, se Deus fosse distinto da Natureza e houvesse outras substâncias que não fossem Deus, Este não seria infinito, pois o facto de ser infinito impede a existências de outras substâncias. “Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus nada pode existir nem ser concebido.”

Para Espinosa, os seres finitos são modificações ou modos de Deus, que possui uma infinidade de atributos, cada um dos quais infinito, sendo conhecido por nós como atributos, o pensamento e a extensão. As mentes finitas são modos de Deus sob o atributo do pensamento e os corpos finitos são modos de Deus sob o atributo da extensão. A natureza não é ontologicamente distinta de Deus pois Este como Ser infinito compreende necessariamente toda a realidade.

A Proposição XI e as Provas da Existência de Deus
“Deus, ou por outras palavras, a substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita, existe necessariamente”.

A primeira prova da existência de Deus é uma redução ao absurdo e parte da Sua própria definição. Assim, dizer que Ele não existe, é já não o conceber como uma substância, pois ao que é substância pertence o existir. Deus portanto, sendo substância, existe necessariamente. Nesse seguimento, o que existe necessariamente é, por isso mesmo, infinito, pois na existência necessária, absoluta, não pode haver limites. Deus é absolutamente infinito e sumamente perfeito. Ora, deste carácter infinito e perfeito de Deus deriva-se uma segunda prova da existência Deste.

 A necessidade da Sua existência aparece em definição como um efeito da sua natureza infinita. Deus existe, porque, sendo concebido como infinito, nada se pode opor à sua existência e impedi-lo de existir, tendo em si próprio um poder absolutamente infinito de existir, pois sendo causa sui “nem em Deus, nem fora de Deus, […] é dada causa ou razão alguma que lhe iniba a existência, pelo que Deus existe necessariamente”. Ora, ser concebido segundo uma essência que envolve a existência, ou seja, ser causa de si, implica, segundo Espinosa que tal essência implique também potência, entendida como algo que gera a capacidade de existir e agir. Neste sentido, “a potência de Deus é a sua própria essência”.

 Daqui parte a terceira prova, denominada a posteriori, pela qual se deduz do finito o infinito: sendo que existir é potência e não existir é impotência e se apenas existissem seres finitos, estes seriam superiores em potencialidade ao Ser infinito, o que seria absurdo. Portanto, ou nada existe ou um Ser absoluto terá que existir. Ora nós existimos, pelo que Deus terá que existir necessariamente. 

Por fim, Espinosa argumenta que, se o existir é potência, segue-se que quanto mais realidade possui uma substância, mais potencialidade ela tem para existir. Neste sentido Deus tem de existir absolutamente pois a sua essência é a potência. Esta será a quarta prova da existência de Deus.

Causalidade - De Deus como substância infinita aos modos finitos.
Na filosofia de Espinosa os seres da experiência são explicados causalmente com referência à substancia única a que o Filósofo chama “Deus ou Natureza” – Deus sive Natura. Espinosa assimilou a relação causal à relação de implicação lógica e descreveu as coisas finitas como procedendo necessariamente da substância infinita. De facto, o conhecimento de algo implica necessariamente o conhecimento da sua causa, assim quando Espinosa refere que “o conhecimento do efeito depende do conhecimento da Causa e envolve-o”, identifica o conceito de causa com o de fundamento lógico, e, deste modo, a da significação ontológica com a de relação lógica.

Segundo Espinosa, “da necessidade da natureza divina devem resultar coisas infinitas em número infinito de modos […]”, criadas “pela necessidade da natureza divina a existir e a agir de certo modo”. Ao contrário de Deus, “a essência das coisas produzidas por Deus não envolve a existência” porque senão estas seriam causa sui e nesse sentido são denominadas de contingentes.

Deus causa as coisas necessariamente, no sentido em que não poderia deixar de o fazer, nem poderia produzir coisas de outra ordem da que realmente produz. Contudo, paradoxalmente, Espinosa afirma que Deus é livre uma vez que se determina a si mesmo, porém, não é livre no sentido em que pudesse criar outra coisa distinta dos seres criados, pois “Deus não efectua coisa alguma por liberdade da vontade”.

Ao passar da consideração de Deus como substância infinita com atributos divinos à consideração dos modos de Deus, o intelecto passa da Natura naturans à Natura naturata ou seja, de Deus em si mesmo, à criação, sem considerar o mundo como distinto de Deus. Ora, o intelecto pode discernir certas propriedades imutáveis e eternas do universo quando considera estas debaixo dos atributos de extensão e pensamento. 

Considerando em primeiro a extensão. Observa o autor da Ética que estado logicamente anterior da substancia sob o atributo da extensão é o movimento e o repouso. Para Espinosa, ao contrário de Descartes, o movimento tem de ser uma característica própria da natureza, porque não há causa distinta da natureza que possa imprimir o movimento à natureza. O movimento e o repouso são a característica primária da natureza extensa e as proporções totais de movimento-repouso no Universo mantêm-se constantes, ainda que as proporções individuais de cada corpo variem. Ao conjunto movimento-repouso da natureza, Espinosa chama “ o modo imediato infinito e eterno” de Deus. 

            Segundo Espinosa, os corpos são compostos de partículas, podendo ganhá-las ou perdê-las e, nesse sentido, mudam. Contudo, na medida em que a mesma proporção de movimento-repouso se observa na estrutura complexa, assim se afirma que mantém a sua identidade. Concebendo corpos crescentemente mais complexos até ao infinito, chega-se à conclusão que se pode entender a natureza como sendo um indivíduo, cujas partes, constituídas pelos corpos variam de modos infinitos sem no entanto mudar o indivíduo como um todo. Este indivíduo/ natureza é o “modo mediato infinito e eterno” de Deus, ou a natureza sob o atributo da extensão. 

Para Espinosa, enquanto o movimento-repouso é o modo fundamental da extensão, o entendimento ou apreensão é o modo fundamental do pensamento, no qual entram o Amor e o Desejo.

            É fundamental notar, no sistema filosófico de Espinosa que “Deus é causa imanente de todas as coisas”, contrariando assim a Escolástica e Descartes.

Por Francisco Cortês Ferreira

3 comentários:

Anónimo disse...

“Por conseguinte, se alguém disser que tem uma ideia clara e distinta, isto é, verdadeira, da substância e no entanto duvida da existência de tal substância, por certo que isso equivaleria a dizer que tinha uma ideia verdadeira mas duvidava se ela não seria porventura falsa”.

Eu tenho uma ideia clara e distinta, isto é, verdadeira, de uma "substância", o fantasma das cuecas rotas que está debaixo da cama... e sim é verdade que tenho uma ideia verdadeira mas duvido se ela não será porventura falsa... assim como deus...

Anónimo disse...

Esse comentario ridiculo sobre a filosofia de spinoza, afirma o que o proprio disse, como'é dificil lidar com o homem das marcas, ou seja, da imaginação.





Lyon Kennedy disse...

Deus tenha misericordia da alma de todos os que duvidam de sua presença.