24 de março de 2014

Valadier I - o enorme abismo



É tempo de nos interrogarmos se «o enorme abismo» que, segundo Kant, separa o mundo da natureza do da liberdade, e que portanto legitima a distinção do facto (objetivo) da do valor (subjetivo), é tal que nenhuma passagem entre os mundos seja possível. Interrogar uma distinção que é muitas vezes compreendida como um dualismo irredutível a qualquer unidade não significa que se minimizem os efeitos culturais que acabamos de analisar: pelo contrário, é porque somos sensíveis não só às suas consequências duráveis, mas também aos impasses para os quais elas conduzem, que é necessário interrogarmo-nos sobre as evidências que, não interrogadas, se transformam em novos tabus.



Se olharmos de novo para Kant, que pareceu acreditar na ideia de «um enorme abismo» entre a natureza e a liberdade, apercebemo-nos que na realidade o filósofo pressupõe uma transposição do abismo e não uma separação total dos domínios. Assim, nos próprios textos que acabámos de citar, ele indica claramente que, «embora exista um enorme abismo (…) deve existir contudo um fundamento de “unidade” do supra-sensível, que reside no fundamento da natureza, com aquilo que o conceito de liberdade contém de forma prática, fundamento cujo conceito, mesmo que não consiga nem teórica nem praticamente dar conhecimento disso e mesmo que não tenha um domínio próprio, torna no entanto possível a passagem do modo de pensar segundo os princípios de um para o modo de pensar segundo os princípios do outro»; o mundo da liberdade “deve” ter uma influência sobre o mundo do determinismo; «com efeito, o conceito de liberdade tem o dever de tornar efetivo no mundo sensível o fim imposto pelas suas leis», ou então a lei moral permaneceria ideal, sem influência e sem eficácia na fenomenalidade, por isso vã. É certo que o sensível não pode determinar o supra-sensível, mas «o inverso é no entanto possível (…) e está já contido no conceito de uma causalidade pela liberdade, cujo efeito deve ter lugar no mundo e em conformidade com as suas leis formais». Uma tal influência não é uma causa e não fornece nenhum «conhecimento» ao sentido científico do termo, mas a faculdade de julgar oferece a «mediação» necessária ou «a passagem do domínio do conceito da natureza para o do conceito da liberdade».

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