31 de março de 2014

Valadier II - Natureza, Liberdade, Ciência



Podemos certamente discutir a teleologia da natureza, tal como foi concebida por Kant, e mesmo contestar a sua estética onde a beleza oferece uma «passagem» entre natureza e liberdade; daí resulta que aquele em que nos apoiamos muitas vezes para justificar o dualismo entre facto e valor não pode ser reconhecido sem reservas nesta paternidade. Seja como for, a posição kantiana chama a atenção para um ponto essencial: um dualismo radical torna impermeável à inteligência das coisa coisas, porque a liberdade está já em ação no próprio ato científico, ou ainda, o facto científico só é estabelecido, concebido, testado a partir de um valor do qual depende inteiramente, o valor atribuído ao conhecimento. Procurar desenvolver as ciências e contribuir para isso pressupõe que achemos preferível conhecer do que contemplar as coisas no seu estado. Tal foi a «decisão» que presidiu ao desenvolvimento moderno das ciências. Tanto o seu progresso como o desejo de objetividade científica implicam que os tenhamos posto mais alto do que qualquer desejo de conhecer e que estejamos dispostos a sacrificar-lhe muitos preconceitos e crenças. Nietzsche mostrou com lucidez que a ciência se apoia ainda numa «numa crença», a crença na verdade como valor supremo em nome do qual já nada tem preço e sobre o altar do qual «sacrificámos e degolámos uma crença após outra». A ciência não se desenvolveu sem pressuposição, de maneira neutra ou em nome da sua única utilidade, porque não é um cálculo que está na sua origem; baseia-se numa crença, na crença de «que Deus é a verdade, que a verdade é divina», ou seja, que não existe valor mais alto (ou mais divino) que a verdade.

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