3 de março de 2014

Variações Éticas I - Michel Renaud



É no ato pelo qual o ser humano confere valor ao valor (e, portanto, no ato pelo qual o agente humano parece dominar o valor pelo facto de este se encontrar na sua dependência) que o próprio ser humano se compreende como intrinsecamente “descentrado” por ele. Do ponto de vista da sua análise “teórica”, o valor implica uma mudança no conceito de dependência: pondo-se ao serviço do valor, o ato humano supera-se nele, isto é, reconhece uma autêntica precedência do valor relativamente à ação. Sem o agir, contudo, que lhe dá existência, o valor não poderia ser apreendido como tendo uma prioridade “teórica” e “existencial” sobre o agir. Em função desta prioridade teórica e existencial, o valor pode ser analisado pela razão teórica, entrar numa comparação com outros valores, num debate entre valores não compatíveis, e dar origem a uma proposta de solução teórica em caso de conflito de valores.

Considerar que tudo o que se realizou na colonização e que foi avaliado, antes das guerras coloniais ou de independência, como um fenómeno politicamente «bom», isto é, como um valor, se tornou de repente, quase de um dia para outro, «mau», é resultado de uma atitude simplista, que ignora como surgem e se modificam os valores. Deveríamos mais corretamente dizer que, quando se modificaram os critérios de seriação, de preferência e de hierarquização dos valores, a «continuação» daquilo que tinha sido percebido como valor político por parte do país colonizador, nomeadamente a colonização, ter-se-ia transformado num mal, num anti-valor, na medida em que tal continuação teria impedido a realização de um valor historicamente «novo» e «superior» (mesmo se este não foi aplicado pela primeira vez no fim da segunda guerra mundial com a Índia!), quer dizer, a autonomia dos povos e a liberdade de dispor de si próprios. Na hierarquização dos valores políticos, o critério da independência dos povos foi posto em primeiro lugar; tal foi a novidade. O aparecimento historicamente situado deste critério alterou a escala da hierarquização dos valores, no caso presente, dos valores políticos, mas não permite impor retrospetivamente ao passado a nova hierarquia dos valores, como se o novo valor já tivesse existido anteriormente à consciência da necessidade da descolonização; se o fizéssemos, cairíamos num anacronismo e cometeríamos o erro, bem conhecido em história, de «Hineininterpretierung», de projeção no passado dos nossos critérios de interpretação e, neste caso, de valor; o nosso juízo histórico ter-se-ia absolutizado, em desrespeito total da nossa dimensão de historicidade.

Hoje em dia sente-se a falta de uma ética da sexualidade, bem como de uma moral da sexualidade. Vários fatores podem ser discernidos na base das mudanças de comportamento; as condições sociais, profissionais, económicas e culturais necessárias para o início de uma vida conjugal estável para os jovens contribuiu para alterar os hábitos sexuais; a possibilidade da contraceção ajudou a baixar a idade do princípio da vida sexual ativa dos jovens; o trabalho da mulher deu a esta uma independência de vida maior que no passado, tornando possíveis ruturas que, no passado, não teriam sido pensáveis por razões de subsistência puramente económica. Os hábitos mudaram, de tal modo que se pode reconhecer como autêntico exemplo de dialética concreta a passagem de uma sexualidade bastante recalcada no princípio deste século para o desaparecimento de todos os tabus sexuais no fim do mesmo século. O que é motivo de escândalo aos olhos das gerações mais idosas ( «os jovens de hoje têm pouca vergonha», dirão… ou pensarão!) não parece levantar problemas nos próprios jovens. Será que a moral mudou? É verdade que é ou foi um hábito das gerações anteriores dar aos comportamentos sexuais quase o monopólio da determinação dos critérios do bem moral. Mas se tentarmos não cair nestes defeitos do passado, qual será o juízo se tentarmos não cair nestes defeitos do passado, qual será o juízo moral que poderemos emitir quanto ao «bem ético» e ao «bem moral» de vivência sexual? Impõe verificar que raros são as propostas saudáveis nesta matéria, isto é, as tentativas que, sem desconhecer a profundidade das mudanças sociais, culturais e comportamentais, não se limitam nem a reproduzir os discursos anacrónicos do passado, nem a legitimar, na total ausência de preocupação ética, as práticas do presente. A este nível, uma investigação de fundo faz ainda falta e não pode ser substituída pelo pseudo brilho de conversas televisivas bastante ocas.

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