10 de março de 2014

Variações Éticas II - Alfredo Dinis



Reduzir a norma ética a «o que é o facto» empírico, objeto de estudo das ciências naturais não deixa qualquer lugar para um discurso sobre «o que deve ser o facto», o domínio específico da ética. (…) Todavia, o extraordinário desenvolvimento da perspetiva evolucionista e das ciências cognitivas tem conduzido a uma visão mais realista da ética. Embora não se possa dizer que são os factos empíricos que determinam em absoluto os valores éticos em cada estádio da evolução biológica em geral, e da evolução do sistema cognitivo humano em particular, não é possível ignorar por completo a forma como a dimensão corpórea da existência humana condiciona, talvez mais do que tenhamos considerado até agora, a forma como pensamos e agimos eticamente.

Fazendo um balanço da situação atual, deve afirmar-se que a polémica que continua a opor naturalistas e antinaturalistas não se poderá resolver simplesmente pela vitória de uma das partes. Por um lado, os antinaturalistas não poderão ignorar as dramáticas repercussões que os atuais desenvolvimentos quer da teoria evolucionista, quer das ciências cognitivas, estão a ter na conceção do que é ser humano. Mas por outro lado, os naturalistas que investigam nestas áreas deverão manter um espírito suficientemente acrítico de forma a não serem vítimas de um empirismo ingénuo e simplista. Por isso mesmo, mais do que uma declaração de vitória por um das partes em confronto, torna-se necessário desenhar criativamente um novo paradigma do que é ser humano, e que represente verdadeiramente um passo em frente no conhecimento da totalidade da realidade do que somos nós mesmo.

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