28 de abril de 2014

Valadier VI - Universo de sentido



Um universo de sentido abre-se quando o espaço das diferenças é reconhecido como tal e quando a liberdade pode de certa forma «circular» e situar-se neste conjunto. A modernidade científica, que como vismo está no princípio das distinções dualistas de que somos parte, acentuou estas diferenciações já presentes sem dúvida tacitamente em qualquer sociedade humana. Assim, se escaparmos à tentação de tomar como modelo de inteligibilidade única o modelo das ciências duras, podemos satisfazer uma pluralidade de racionalidades que estruturam esferas de existências elas próprias diversas. A economia ou a política são domínios não redutíveis um ao outro, porque obedecem ambos a tipos de racionalistas não idênticas e rigorosas na sua ordem: querer administrar um Estado ou uma comunidade como se gere uma empresa, ou acreditar que a administração das coisas pode substituir o governo dos homens, conduz a erros tecnocráticos bem conhecidos. Devido à falta de respeito pelos valores imanentes às realidades a que dizem respeito. Não se trata de uma «guerra dos deuses, mas do reconhecimento, tipicamente moderno, de que o real é plural, complexo, diversificado e que a sua abordagem pressupõe modalidades finas e elas próprias diversificadas de inteligibilidade. Deste ponto de vista, seria tão erróneo acreditar que cada domínio obedece aos mesmos valores, transponíveis de um para o outro e homogéneos entre eles, como dar valor a oposições intransponíveis e irreconciliáveis. Um benefício essencial da modernidade consiste justamente nestas dissociações, sempre inaceitáveis nos pensamentos comunitaristas que sonham reencontrar a homogeneidade (real ou sonhada ou reconstruída) da cidade aristotélica, bem como nos fundamentalistas que afirmam que só um sistema de valor único e dado de uma vez por todas pode assumir a totalidade da vida social. Ora estas diversificações obrigam a pensar de maneira leve, afundando-se na complexidade dos domínios em causa.

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