2 de maio de 2014

"Ah, perante esta única realidade, que é o mistério"



Toda a realidade apresenta-se como um mistério, o mistério do ser que se desvela em todo ente, em tudo o que é. Mas o que é ser?

Se reduzirmos tudo aquilo que é à mais ínfima e indivisível parte não encontramos o ser, destruímos o que era e contudo continua a haver ser em cada parte.

Tudo é e contudo nada é igual. O que faz o ser, ser? Podemos nós abarcar esta realidade? Podemos nós compreender na sua totalidade o ser? O que é que em mim é igual à pedra? À minhoca? Ao macaco? A Deus? Pois todos somos mas eu não sou macaco, nem minhoca, nem pedra, nem Deus… Sou homem mas não sou o Pedro ou o João. Sou mas podia não ser…

Tão próximo que o experimentamos e no entanto tão distante e incompreensível este mistério do “haver ser”. O “ser”, o “poder ser”, o “haver ser”, apresenta-se assim como um abismo onde não se encontra a sua razão ou o seu fundamento. É neste assombro “terrível” que encontramos Álvaro de Campos, heterónimo de Fernando Pessoa, no espanto filosófico da radical questão ontológica: o que é ser? E da consequente: porque é que há o ser e não o nada?

No homem o ser desvela-se, apresenta-se como verdade, como unidade na multiplicidade. É aqui que o ser se apresenta como conceito original e fundamental para a apreensão de toda a realidade. Apresenta-se como uma necessidade metafísica que nos conduz ao fundamento último da existência. Porém o autor, na tentativa de encaixar o ser naquilo que se pode conhecer, como se tratasse de um produto da razão é “esmagado” pela sua incompreensibilidade e por isso fala do ser como algo “ultratranscendente”.

Na nossa própria contingência abre-se ao nosso entendimento a possibilidade e a necessidade do Ser-mesmo, que é em si a razão e o fundamento do ser. Pessoa é capaz de intuir “algo que está para além” de todos os entes e todavia em todos, fazendo de nós “gémeos”, mas não chega ao Ser absoluto – o Ser imanente (que se desvela na realidade e do qual toda ela participa) e transcendente (plenitude total e absoluta que ultrapassa tudo o que é). Um passo que parece ter faltado ao autor do poema, que se perde na angústia da contingência, marcada pela sua única certeza, a “morte”.

Na sua perspectiva, tanto o homem, como os “deuses” ou mesmo Deus, possuem de igual forma “aquilo que faz que haja ser”, não dá o salto para uma analogia do ser, para uma participação do ser no Ser-mesmo. O poeta é capaz de compreender e conceber o tudo mas é incapaz de conceber a totalidade; reconhece a alteridade, apreende a interioridade, mas não sabe ler dentro das coisas a inscrição que remete para o totalmente-outro em si mesmo.

Por isso, para Pessoa o “ser possível haver ser é maior que todos os Deuses”, por isso se perde no “abismo de a existência de tudo ser um abismo” não chegando à consciência do Ser que possibilita e sustenta o “haver ser”. 

Por Carlos Miranda

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