12 de maio de 2014

Comentar Richard Rorty - A Filosofia e o Futuro



Hegel e Darwin desempenharam um papel fundamental na mudança do modo como o Ser Humano se entende a si próprio, como ser temporal e contingente, fruto da história e de mecanismos puramente biológicos. Assim, a pergunta essencialista: O que é o Homem? transforma-se n a questão: como é que o homem se pode redescrever e autocriar a si próprio?
                A filosofia embarca também nesta perspectiva acompanhando o fluir dos tempos, e contribui também para a criação e aquisição de novas linguagens que entrem na teia da redescrição humana. Refere Rorty, curiosamente, que só uma sociedade sem política, não precisaria de filosofia. Nas sociedades livres, pelo contrário, a constante fluidez da cultura implica a constante aquisição e morte dos vocabulários, e como tal a filosofia ainda terá uma posição importante. Este papel da filosofia deve ser, e neste ponto concordo com Dewey, modesto, despretensioso, não-profissional, mas integrado da própria necessidade do ser humano se ir redescrevendo, cada vez mais consciente, à maneira de um ironista liberal, da contingência da sua linguagem. Este salto da filosofia como rainha das ciências, para mais um instrumento nas mãos do ser humano, no auxílio da construção de uma sociedade mais igualitária e livre é um ponto essencial parece-me, para o entendimento do futuro da filosofia. Esta será talvez a sua tábua de salvação, já que o que verdadeiro motor do mundo de hoje é o desejo do ser humano se autossatisfazer, e nesse sentido, trabalha na aquisição de novas capacidades e novos vocabulários abandonando os obsoletos. A marca hedonista e ao mesmo tempo niilista da sociedade faz com que a filosofia se despeça para um segundo plano, menos essencial, menos absoluto, mais contingente, mais pragmático perdendo a sua autonomia. Provavelmente, filósofos como Platão ou Kant, rejeitariam outro lugar para a filosofia que não fosse o de centro da cultura e da sociedade, mas a mim parece-me, por outro lado, que esta nova perspectiva mais “inessencial”, mais “modesta”, readquire para a própria filosofia uma nova liberdade. Só assim a filosofia será, como afirma Dewey ”uma mediadora entre gerações, entre a fluidez cultural e entre as tradições”. A filosofia chauvinista e auto-delimitada derruba-se a si própria. Claro que o modo de aplicação desta nova concepção de filosofia será lento e gradual, e talvez a sociedade utópica e elitista proposta por Rorty tenha demasiadas lacunas para se tornar realidade, contudo o facto é que a filosofia nunca mais poderá retroceder para o século XIX, não enquanto o mundo se mantiver volátil e mecanizado.
Se Rorty é ou não um “poeta forte” só com o tempo o saberemos, contudo, parece-me, teve o mérito de entender o mundo e a sua contingência e de alertar a filosofia para o seu lugar real como serva do Homem e não o contrário. Esta visão de Rorty é de facto atractiva, sobretudo para o homem contemporâneo, e a herança da filosofia deve assentar, sobretudo, na modéstia e na humildade, se quiser de facto ser integrada na sociedade, porque o Homem só se compadece de si próprio e da sua auto-satisfação. O que não contribuir para este objectivo será afastado.

por Francisco Cortês Ferreira

1 comentário:

Carlos Soares disse...

A filosofia como rainha das ciências

Chamou-me a atenção porque ainda ontem pensava eu que a Economia, como ciência das escolhas, agregava à sua volta todo o conhecimento. Uma expressão tão simples que aparece em qualquer definição de ciência económica a que não muitos prestam a atenção merecida. Sabemos que as escolhas não têm sido as melhores e que o nosso planeta (para não dizer a humanidade, que só tem interessado como meio, não como fim), sucumbe aos mesquinhos interesses dos fluxos de caixa...
Às vezes receio que nós cristãos estejamos para Deus como os empresários estão para a ciência das escolhas, engraçada e sonante, mas só isso.
Não é uma crítica ao artigo, muito interessante, é mais um aparte, que me sugerem as palavras que citei.