26 de maio de 2014

Comentar Richard Rorty - Representações Privilegiadas



Neste capítulo central da obra Filosofia e o Espelho da Natureza Rorty avança com o conceito de behaviorismo epistemológico que quebra a ideia de uma diferença entre julgamentos que supostamente são seguros pela sua própria significação.
Ora, este insight rortiano teve uma grande contribuição de Quine principalmente a partir da sua obra Two Dogmas of Empiricism. De facto, este autor lança um ataque à distinção analítico/ sintético afirmando que a distinção entre proposições que são verdadeiras em virtude do significado e as que são verdadeiras em virtude da experiência, por outras palavras, a distinção entre o contingente (entre o que nos é dado) e o necessário (as estruturas que estão dentro da nossa mente) resulta mais da sua posição na teia de crenças de uma comunidade do que da sua relação com os significados de um conceito, ou seja, nenhuma crença tem o estatuto de representação privilegiada por ser analítica ou conceptualmente verdadeira. Os filósofos deixam de poder referir aquilo que é “puramente conceptual” como próprio e exclusivo da sua disciplina que tem a pretensão de ser a “rainha do conhecimento”.
Para sustentar ainda melhor a sua crítica à tradição filosófica assente no eixo Descartes-Locke-Kant, Rorty resgata ainda outra perspetiva relacionada com os dados sensíveis e a sua interpretação conceptual – a crítica de Sellars ao “Mito do Dado”, que postula uma inconsistência no facto de se extraírem factos epistémicos do tipo “Eu sei que X” de factos não epistémicos do tipo “eu vejo X”. De facto, neste famoso ataque, o autor coloca em questão a suposição empirista de que a nossa capacidade de usar conceitos, dominar uma linguagem e o nosso conhecimento do mundo deve estar solidamente assente em experiência sensoriais, sensações cruas que nos são dadas em consequência da nossa interação com o mundo. Poderia contrapor Sellars afirmando que temos de facto relações causais com o mundo, como sermos afetados por algo estragado que comemos, ou sermos cegos por alguma luz intensa, mas afirmaria Sellars, que daqui não se segue que a sensação desempenhe algum papel na fundamentação última do conhecimento, precisamente porque o conhecimento tem uma estrutura proposicional e o único modo de justificar uma proposição é através de outras proposições.
Rorty faz uma síntese entre estas duas posições, apresentando-as a ambas como formas de holismo, sustentando que compreendemos o conhecimento quando compreendemos como a justificação acontece por meio de práticas culturais, e assim não necessitamos tomar uma prática em detrimento das outras apenas porque a julgamos capaz de reter representações privilegiadas, mas porque a comunidade assim o determina. A comunidade torna-se assim na única autoridade epistémica.
O ataque Quine-Sellars às representações privilegiadas denota nuances behavioristas, ao apontar a racionalidade e a autoridade epistémica por referência à comunidade que Rorty sintetiza precisamente na expressão “behaviorismo epistemológico” já afirmado anteriormente. Ora, este tipo de Behaviorismo deve contentar-se com um pluralismo linguístico, no qual alguns tipos de discursos são usados para controlo e previsão de fenómenos e outros são usados para pensar novas formas de vida e propor novas metáforas. Ambos têm a sua função e portanto não há razão para que entrem em conflito. Assim, para Rorty é possível conjugar vários vocabulários alternativos, vários comportamentos que serão julgados por referência à comunidade.
Perante este cenário de dissolução da Epistemologia, resta refletir se não houve, por parte de Rorty uma certa confusão que parece existir entre o proclamado fim da Epistemologia e o fim do fundacionalismo clássico. O receio de Rorty em relação à Epistemologia é tão vincado que parece querer abandonar qualquer tipo de empreendimento epistémico. Contudo, quando Rorty defende o fim da Epistemologia não estará de certo modo a confundir género e espécie? Será que esta se identifica exclusivamente com o fundacionalismo? Será que não há vários tipos possíveis de epistemologias que não o fundacionalismo clássico?
De facto, Rorty dá uma explicação do conhecimento ao identificá-lo com a prática social e a descrição dos comportamentos, atribuindo uma autoridade epistémica à comunidade. Sugerindo o behaviorismo epistémico, Rorty sugere, do meu ponto de vista um tipo de epistemologia. Como tal, parece-me que a transição que Rorty deveria advogar, seria, de algum modo, a passagem da Epistemologia para uma epistemologia.

por Francisco Cortês Ferreira 

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