19 de maio de 2014

Comentar Richard Rorty - Um requiem pela filosofia



O pragmatista não quer discutir condições necessárias e suficientes para que uma proposição seja verdadeira, mas precisamente se a prática que espera encontrar uma maneira Filosófica de isolar a essência da Verdade tem, de facto, tido resultados. O modelo da verdade por correspondência está caduco e isto está ligado à ideia wittgensteiniana da linguagem. Esta é ubíqua e cobre todo o mundo, é um instrumento e não pode transcender o uso. Não se podem obter representações dos factos percetuais independentemente da sua conceptualização. Ora, mais ainda, se os enunciados verdadeiros correspondessem a qualquer coisa, só poderia ser ao mundo na sua totalidade, de modo que todos os enunciados verdadeiros corresponderiam à mesma coisa. Não há contacto, anterior à linguagem com o objeto em si mesmo, por oposição ao que ele é para as variadas descrições que dele fazemos.
Por um lado, percebo a preocupação de não querer criar entidades inúteis como a Verdade, Bem, etc, por outro, parece desonesto suprimir tais intuições. Do meu ponto de vista, os vocabulários são comensuráveis e a linguagem não é ubíqua. A linguagem não vai até ao fundo[1] – existe um tipo de consciência dos factos que não é exprimível na linguagem e que nenhuma discussão pode tornar óbvio e isto é tão claro ao senso comum que seria este o ponto que torna realmente a filosofia obsoleta. Por ser tão claro que não admite reflexão.
O único argumento para pensar que estas intuições e vocabulários deveriam ser erradicados é que a tradição intelectual a que pertencem não conseguiu resultados e isso altamente ambíguo, sobretudo considerando o conceito “resultados”. De facto deste o “milagre grego” à influência de Descartes sobre o modo como pensamos passando pelas sínteses tomistas, seria extremamente arrogante rejeitar a influência da Filosofia na sociedade Ocidental. O antiessencialismo pragmatista e a ausência de propostas sobre as questões fundamentais, parece-me, contrariam o próprio modo da pessoa comum se dispor perante o mundo e por isso levam ao descrédito desta própria posição. Por vezes fico perplexo perante a frieza destes pensadores. Personificam eles próprios a automatização que pretendem defender. Parece que não experimentam em si nem os sentimentos básicos que regulam a vida humana nem se interrogam sobre as questões últimas da morte, do sofrimento e do sentido da vida. É precisamente porque somos ensombrados pela contingência que estes pastores pessimistas como Rorty pregam, que a proposta pós-Filosófica nunca será substancial. Talvez não explicitamente, mas sub-repticiamente a tradição filosófica perdurará. Como diz Dewey embora as verdades não sejam uma região particular da filosofia, por outro lado a verdade é o que funciona, ou seja, existem coisas filosoficamente importantes e instrutivas a dizer sobre as atitudes e relações humanas que são em parte constitutivas do conceito de verdade.
O problema da Verdade absorve Rorty ainda que ele não o admita. É estranho que alguém que refere que nada mais há a dizer sobre a verdade, volte a ela recorrentemente.

por Francisco Cortês Ferreira


[1] Existe um estudo interessante publicado na Revista Nature sobre a capacidade cognitiva de Bebés em fase pré-linguistica que corrobora esta minha convicção da não ubiquidade da linguagem. Para mais informação cfr. J. Kiley Hamlin, Karen Wynn & Paul Bloom - Social evaluation by preverbal infants in Nature 450, 557-559 (22 November 2007) ou então http://www.youtube.com/watch?v=6MAmCZhSo6k.

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