5 de maio de 2014

Valadier VII - O mal



Job pode remeter o seu pranto e a sua revolta para Deus, mas a quem pedirá contas a multidão dos condenados aos campos da morte ou as inumeráveis vítimas de violências cegas? A questão já não é: por que razão existe mal no mundo? Como se explica que a liberdade queira o mal e o faça? Porque é que a liberdade, que só pode ser percebida como razoável, cai no seu oposto, a violência e o mal, por isso no próprio contra-senso? Qual é pois a perversão interna à vontade livre para que esta manifeste uma tal desordem? De que mal sofre ela a nível da sua raiz (o mal radical de Kant)?
(…)
O mal é inextirpável, sempre possível, situado no centro das liberdades e das suas relações complexas. É desde logo inútil querer a sua erradicação, a menos que se provoquem ainda mais males, como a instituição dos regimes «virtuosos», tendo no seu programa o aparecimento do homem novo, o mostrou amplamente. É preciso, quando muito, limitar os efeitos desse mal, repelir as consequências, empreender uma tarefa de vigilância de todos os instantes, mobilizar-se contra os desvios possíveis, mas não voltar a sonhar com uma história que não seria habitada por estas possibilidades trágicas.



A presença do mal e a ambivalência dos meios tomados pela ação comandam a paciência na história; não a passividade, nem a resignação perante o mal, nem a indiferença quanto aos meios utilizados; é exatamente o contrário. Uma vontade moral «esclarecida» já não crê numa adequação simples entre boa vontade, consciência dos valores, sinceridade da conversão, fidelidade aos magistérios morais e conduta intrinsecamente boa, reta, ordenada. Porque ela já não crê e não deve acreditar nisso, uma tal vontade sabe que deve ficar vigilante por causa das ciladas da convicção e dos idealismos que, julgando-se adequados ao bem, engendram em primeiro lugar os piores males nos próprios adeptos que descobrem, não sem crises graves, a armadilha em que estão fechados, depois nas sociedades onde, sob a capa do bem mais elevado, se justificam os constrangimentos e as mais pesadas opressões.
 

Sem comentários: