30 de junho de 2014

Comentar Richard Rorty - A ânsia íntima inscrita em cada ação



                Quando me defrontei com a pergunta que dá nome ao segundo apartado deste capítulo – ‘Sobre que Falavam os Nossos Antepassados?’ – de imediato compreendi que iria entrar numa área sobre a qual não me tinha ainda questionado. A aparência de «convergência», a entrada na hipotética labuta milenar da mesma tarefa, é disputada: não sou mais um a tentar resolver os problemas de sempre, esses problemas que – até poderíamos dizer – emprestavam/atribuíam identidade à nossa espécie. Mesmo a arrogância pequeno-burguesa de afirmar que hoje vemos bem o que outros viram mal nos é retirada. Habito o mesmo planeta que Aristóteles, Tomás e Bacon, mas não vivemos no mesmo mundo: houve distúrbios na conversação, introduzidos por inovações científicas, político-sociais, e narrativas (a interferência de indivíduos de génio como Heidegger e Wittgenstein, para a qual Rorty nos chama a atenção - §11).
                Consegui assim compreender como até esta necessidade de entrar num seleto grupo de companheiros era expressão da minha rejeição da contingência. É com a minha própria esperança de eternidade que tenho de lidar: por vezes, procuramo-la pela prole, outras vezes pela incontornabilidade histórica através de feitos, expressão da ânsia íntima inscrita em cada ação: ‘lembra-te de mim!’.
                E tal ajudou-me a entrever como o jogo da ciência não é o da Verdade, mas o da explicação. Procurar o mistério da vida é diferente de o expor. Aquele que seria o campo do que tradicionalmente chamamos de Verdade – a indagação do mistério da vida – relaciona-se mais com o sentido, prende-se com inquietações – ‘porque somos como somos?’; que rumo devemos tomar?’ – e não tanto com descobertas e faustosas apresentações de esquemas ou estruturas descritivas.
                Se entendermos que outros não foram ainda suficientes para no-lo mostrar, o século XX destaca-se por nos mostrar o quanto a nossa espécie pode fazer, simultaneamente abusando da tecnologia e recusando-se a vergar a esses interesses. Mostrou-nos como tendemos a colaborar quando sentimos algum sentido de bem ameaçado. Porque prezamos tanto a vida livre? É um mistério: se a sobrevivência e alguma normalidade nos é assegurada,  porque preferimos a instabilidade da liberdade?
Outrora responderíamos com a atratibilidade irrecusável do bem, e até com o monopólio da recompensa prazenteira por parte da ação virtuosa: nenhum gosto, nenhuma alegria, ultrapassa a do sentimento da boa ação. Esta visão encontra um eficaz e insuspeito denunciador em Dostoievski, que no seu conto ‘Memórias do Subterrâneo’ não tem qualquer pudor em falar da sensualidade prazerosa do mal.
                Contra as nossas expetativas, vamos num crescendo de diversidade e complexidade, e não de simplicidade-uniformidade.

Sem comentários: