2 de junho de 2014

Comentar Richard Rorty - A contingência da linguagem



Com a Revolução Francesa, a ideia de que a verdade era feita e não descoberta começou a ser difundida pela Europa, e a questão da autocriação do artista preconizado pela poesia romântica geraram uma rutura no pensamento filosófico, pois uma parte dos filósofos aderiu a essa nova conceção, e uma outra parte manteve-se fiel ao Iluminismo, à racionalidade e objetividade da ciência.
Rorty recebe os ecos desta herança e coloca-se ao lado daqueles que defendem que a realidade é em grande medida indiferente às descrições que dela fazemos. A verdade desta asserção reside precisamente no facto das linguagens serem feitas e não descobertas e da verdade ser propriedade de entidades linguísticas, de frases o que nos remete para a ideia romântica de que a verdade é feita e não descoberta. Para o autor neopragmatista, a verdade é uma qualidade das nossas descrições, das nossas frases, portanto, é um elemento da linguagem humana, que por sua vez é uma criação humana. Ou seja, não há como falar de uma realidade da verdade que seja independente da existência humana, pois “a verdade não pode estar diante de nós – não pode existir independente da mente humana – porque as frases não podem existir dessa maneira ou estar diante de nós dessa maneira[1].
De facto, “o mundo não fala; só nós é que falamos”[2]. Só as frases podem ser verdadeiras e os seres humanos fazem verdades ao fazerem linguagens nas quais formulam frases.
Assim, linguagem é apresentada como contingente, e os vocabulários como incomensuráveis. De facto, não há nenhum referente neutro para a linguagem como desejavam os discípulos de Russell e Frege dependentes da lógica e da matemática.
Rorty entendeu que a Virada Linguística[3] não é mais do que o resultado falhado de prosseguir num tipo de Filosofia Transcendental, ou seja, seria uma repetição da tentação de procurar critérios que constitui uma classe dentro da tentação mais geral de pensar que o mundo ou o Ego do homem possuem uma natureza intrínseca, uma essência.
A teoria da contingência da linguagem rortiana é fortemente influenciada por Davidson que recusa a ideia da linguagem como um meio, como um tertium quid, que substituiria a ideia de um Ego central (uma mente) como um intermediário entre o Ego e o mundo, a realidade.
Para Davidson, o conceito de metáfora é bastante importante, já que o sentido metafórico diferencia-se do literal não por possuir um significado diferente, mas por ser um uso diferente dos ruídos e sinais. O uso literal seria o uso familiar dos nossos ruídos e sinais, ou seja, aquele que possui uma função fixa na linguagem. Já o uso metafórico seria um uso não familiar de nossos ruídos e sinais, não tendo um lugar fixo na linguagem. À partida daqui se depreende que o uso da metáfora é aparentemente inútil, no entanto, se tiver adesão e aceitação social poderá adquirir de alguma maneira algum tipo de utilidade e a possibilidade de desenvolver novos pensamentos e teorias, por meio de um uso não familiar de nossos vocabulários, em razão de ser uma linguagem nova. A linguagem, sob esse aspecto, passa a ser unicamente uma construção humana contingente, consequência das nossas necessidades de comunicar e aprimorarmos nossos modos de vida e nos tornarmos mais felizes. Assim, as linguagens tornam-se contingências da história e do acaso, não sendo mais tentativas de apreender a verdadeira forma do mundo, localizada numa perspetiva supra-histórica.
Contudo, será a linguagem tão volátil como Rorty apresenta? Não haverá uma gramática universal subjacente à linguagem como a que Chomsky apresentou na década de 60? As posições divergem e há críticas interessantes a esta tese[4], contudo, não sendo este o espaço ideal para as expor, o facto é que recentes estudos têm avançado com a real possibilidade da existência de uma linguagem inata[5] e que de certo modo sustentam a tese Chomskiana. De qualquer modo, parece-me haja ou não algum tipo de gramática ou linguagem inata, a contingência da linguagem apresentada por Rorty pode verdadeiramente ajudar o homem a reconhecer-se mais perfeitamente como Um Ser Cultural e Social Complexo e deste modo entender e interpretar melhor a sua própria história.

Por Francisco Cortês Ferreira


[1] Contingência, Ironia e Solidariedade,p.25.
[2] Ibidem, p.26.
[3] Linguistic Turn.
[4]  Uma dessas questões é a implausibilidade de que uma faculdade inata, que em princípio é resultado da evolução guiada pela seleção natural tenha o caracter de um sistema de competência e não de desempenho pois a seleção natural age sobre comportamentos que aumentem a adaptabilidade biológica dos organismos e suas oportunidades reprodutivas e não sobre uma competência encoberta apenas potencial.
[5] http://www.pnas.org/content/102/52/19249.full.pdf

1 comentário:

Carlos Soares disse...

Gosto destes temas e, na minha modesta opinião, as linguagens são como oceanos sobre os quais flutuamos, mas cujas profundidades continuam por explorar.
A nossa relação com o sensível desencadeia complexos sistemas de reconhecimento e mapeamento cerebral. Não o que nós queremos mas o que acontece e que, até certo ponto, se vai constatando.
Fazem parte do mundo sensível as próprias linguagens, e de tal modo que a nossa sensibilidade é, em muitos casos, indissociável da linguagem. A linguagem como significante e a linguagem como comunicação ou, simplesmente, como expressão, partilham do espaço de realidades que as excedem e, de certa forma, elas significam.
Estou em crer que a linguagem é um processo mental que nos permite reconhecer, analisar e distinguir. Neste processo, vão-se abrindo possibilidades de reconhecer, ou descobrir, o que for suscetível de ter significado. E tudo significa algo, pelo menos é assim que a mente funciona. Quando perguntamos “qual é o significado de…” normalmente a resposta é outro significante. É como se tivéssemos apenas a linguagem, os significantes, mesmo quando estamos a falar de coisas que estão perante os nossos sentidos, ou como se os significantes lhes tomassem a primazia, como se fossem mais reais do que aquilo que pretendem significar.
O que as nossas descrições têm a ver com aquilo que descrevemos é um problema que pode não ter cabal solução.
A nossa relação com as ideias e as formas tende a ser o problema da linguagem enquanto forma. Podemos falar das coisas sem coisas nenhumas, embora essas coisas sejam reconhecidas como existentes, ou tendo existido. Mas não me parece que alguma linguagem o seja se não for funcional, isto é, se não cumprir algum desiderato de comunicação.
Também me parece que o problema da verdade para a filosofia seja mais de linguagem e para a matemática, de correspondências e que, para a religião, seja essencialmente de virtude.
Por exemplo, a virtude desta linguagem não existe, a linguagem não é nem deixa de ser virtuosa à luz de critérios morais ou religiosos. Mas, em termos de lógica, ou de epistemologia, esta linguagem pode ter acrescentado apenas umas frases sem verdadeiro nexo ou cujo nexo não passa disso mesmo.