9 de junho de 2014

Comentar Richard Rorty - Da Epistemologia à Hermenêutica



A aproximação pragmática ao conhecimento por parte de Rorty e o seu behaviorismo epistemológico potenciam a divisão dos discursos que podem entrar em conversação por um lugar no conhecimento: O discurso normal, que de algum modo se encontra dentro das convenções aceites e que conta com argumentos relevantes e reconhecidos dentro de um diálogo de uma determinada comunidade, e o discurso anormal, que não está de acordo com as convenções inerentes a uma comunidade. Por outras palavras, é o discurso de alguém que entra dentro de um determinado jogo de linguagem usando as regras de outro jogo de linguagem.
Ora, a hermenêutica não é mais que “o estudo de um discurso anormal do ponto de vista do discurso normal – a tentativa de produzir algum sentido a partir daquilo que se passa, num estádio em que nos encontramos ainda demasiado incertos acerca dele para o descrevermos e, portanto, para iniciarmos a sua descrição epistemológica”[1]. É assim a forma de lidar com um novo discurso que aparece.
Ora, curiosamente, Rorty oscila entre dois pontos de vista sobre o discurso anormal[2]: O primeiro é o acima referido e que é a simples negação do discurso normal da ciência, que é o discurso no qual os interlocutores partilham o mesmo sentido do que conta como problema ou questão, como hipótese séria bem formulada, apresentando uma boa razão ou argumento. Este tipo de discurso anormal envolve uma pluralidade de diferentes e incomensuráveis vozes que se relacionam entre si de algum modo desordenado - a conceção polilógica. O segundo ponto de vista apresenta uma outra conceção do discurso anormal - a conceção monológica. Esta perspetiva aponta para o facto do discurso anormal ser apanágio dos poetas fortes e dos ironistas teóricos. É um discurso que corresponde a uma “voz solitária chorando na noite contra um fundo totalmente indiferenciado”[3]. Tipicamente o discurso anormal polilógico é associado à política e ao lado pragmático de Rorty e o monológico à poesia e ao lado Romântico de Rorty.
À partida isto faz sentido, e ambas as perspetivas se coadunam, mas por outro lado, há algo de assustador nelas. A conceção individualista e narcisista apresentada por Rorty no discurso monológico e que o autor neopragmatista associa aos seres alienados, individuais e independentes das necessidades da sociedade é tipicamente apolítica, o que complica a homogenia cultural que a filosofia tradicional resolvia recorrendo ao espaço neutro, já que haverá sempre confronto entre egos individuais que destabilizarão sempre a sociedade. Claro que Rorty tenta ao seu modo, homogenizar o espaço social assumindo que não há uma separação social capaz de gerar conflitos de solidariedade e oposições entre os vários “nós”, sendo que assume que a política se realiza pela participação de todos na resolução de um conjunto de problemas comuns.
No entanto, pelo contrário, todos aqueles que no entendimento de Rorty praticam um discurso apolítico, os tais “seres raros” são efetivamente afastados da conversação. O discurso político torna-se assim restrito àqueles que falam um determinado tipo de linguagem burguesa e liberal, o que de repente ecoa como algo deslocado da solidariedade. Por outras palavras, os que têm acesso ao liberalismo burguês são os que têm o monopólio da conversação sobre as necessidades e os problemas da comunidade. Os que não falam este idioma estão à partida excluídos deste diálogo. Os discursos radicados na solidariedade e orientados para as preocupações sociais estão assim restritos aos falantes do discurso liberal. Paradoxalmente os discursos anormais que Rorty de certo modo defende, facilitam a exclusão social, já que, do meu ponto de vista, não há espaço na estrutura política rortiana para a invenção/ aceitação de novos idiomas e subsequentemente não há espaço para sujeitos coletivos que pratiquem discursos não-liberais nem espaço para uma interpretação não-liberal das preocupações e necessidades de uma sociedade, o que é paradoxal para alguém que defende a conversação acessível a todos no espaço público.
O elitismo político de Rorty assente na sua estrutura democrática utópica é de facto algo fundado precisamente no contrário daquilo que pretende realçar: a importância da solidariedade.

por Francisco Cortês Ferreira


[1] Filosofia e o Espelho da Natureza.
[2] Esta perspectiva foi recolhida a partir da crítica de Nancy Fraser no seu texto “Solidarity or Singularity”.
[3]Nancy Fraser - “Solidarity or Singularity” in Reading Rorty. Ed. Alan Malachowski. Oxford: Basil Blackwell, 1990  P 313. Tradução minha.

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