16 de junho de 2014

Comentar Richard Rorty - In media res



A relevância dos problemas trazidos à luz por eras de atividade filosófica é matéria contestada. E esse é um sinal saudável. Bem como a objecção realista à pretensão do pragmatismo de que a não-resolubilidade de problemas é sinónimo de irrelevância. Olhemos a posição pragmatista: é um chamariz interessante! Seremos capazes de viver o drama de que nada há de profundo que nos molde, apele ou defenda? É, em certo modo, uma evidência que os nossos valores são elegidos por nós, e que o que se nos apresenta como problemático assim o é porque deriva de uma opção tomada há alguns quilómetros atrás na nossa história: nós entramos em cena numa poderosa trama, in media res. Como ignorar que chego a um lugar não delineado ex novo para mim, ao invés, prosseguimento da atividade de outros?
Queremos ver tudo, das origens às implicações futuras. Mas teremos capacidade para tal? O pragmático irá dissuadir-me de procurar essa panvisão, irá incitar-me a procurar a visão mais adequada às necessidades que vou experienciando. Serão as razões – os motivos, os argumentos – a que vamos recorrendo para distinguir verdadeiro de falso, bom de mau, áreas de descanso temporário numa viagem muito maior do que as nossas intuições conseguem enxergar, dotadas somente de função utilitária? Enquanto nos habilitam a lidar com a realidade, são lugares de paragem; chegado o tempo em que deixam de cumprir a sua função, a altura chegou para voltarmos ao caminho: novas áreas de descanso nos esperam.
                Haverá algo de verdadeiro a ser capturado pela atividade humana? Há um resplandecer virtuoso pronto a ser recolhido? Não estarei a insistir numa efabulação quando insisto numa categoria transcendental de verdade, confundindo “não tenho razões para duvidar” com “há algo com o qual não tenho contato direto mas que presentemente vejo”? Admito que a definição de verdade de William James – “aquilo que se prova como bom, na forma de crença, e, simultaneamente bom, por razões exatas e atribuíveis” – é bastante atraente.
                Tal como a proposta de Rorty de instaurar uma nova tradição intelectual. Concordo com este quando afirma que a cultura universal é possível por um fazer, por um poetar, mais do que um encontrar. Demasiadas vezes jogamos num tabuleiro demissionário, procurando razões fora de nós, quando a verdadeira, derradeira, definitiva ação que poderá fazer com que alcancemos algo de parecido com que alguns sonharam de comunhão se prende com a decisão íntima – pessoal – pelo encontro.
                Acredito que estaremos tão mais próximos desta oportunidade quanto aproveitarmos a linguagem enquanto atividade humana de forma a lidar com o meio em que se vive. Usando vocabulários e culturas diversos, produzimos formas melhores de falar e agir, não melhores referenciando a um padrão anterior, mas no sentido de que parecem mais aptas do que as suas antecessoras. A linguagem é um instrumento não cindível da atividade humana, não tem vida ou existência fora do uso, não é reflexo, nem participação, nem descrição: são assomos úteis a que se possa viver e entender. Os obstáculos surgem quando insistimos no fixismo de um vocabulário caduco.
A tradição não precisa de guardiães, mas de zeladores-intérpretes. A tradição é melodia: não se repete, reinterpreta-se. Cada novo ato é ato novo, não é ação redundante. Aqui talvez se deva ter em conta a consideração pela herança da filosofia: votar ao esquecimento a nossa história é também perder a oportunidade de recordar o caminho, seus erros e progressos. Claro que, se pensarmos como Rorty, todo o caminho foi um mal entendido, mais do que falhar uma saída na estrada do pensamento: para Rorty, a filosofia está presa numa rotunda, dando voltas e voltas sobre o centro. Só porque o agente por vezes corre, por vezes tropeça, por vezes anda, por vezes salta, estamos convencidos de que efectivas diferenças existem, quando somente o estilo – o desempenho – tem ligeiras alterações.
                Devemos laborar sem a pretensão da intemporalidade: o agir humano deve ser consciente da sua contingência, da sua finitude. O teólogo Elmar Salmann insta-nos a que saibamos agradecer e abençoar o doloroso dom da contingência: será possível conciliar esta consciência com a expectativa de um eterno ordenador? A nossa sede por ordem prende-se com o inescapável sentimento de insegurança que pretendemos domesticar – como fizemos com animais – resguardando-nos em planos, sistemas e estruturas, como se o turbilhão do acontecer se subjugasse aos nossos padrões. Indubitavelmente, estamos num tempo de transição de imagens, porque as de ontem já não nos bastam.

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