23 de junho de 2014

Comentar Richard Rorty - Intérpretes, mais do que antenas



O grande chamariz deste capítulo encontra-se no seu final, quando adia para a parte III a resolução do conflito – ou mal-entendido – de competências entre ciência e ética na determinação das entidades que são pessoas. Contudo, é pela experiência mental sugerida por Rorty concernente aos antípodas que começamos: estes explicavam a diferença entre pessoas e não-pessoas como a diferença entre «nós» e tudo o resto [§1]. Parece-me manifestamente insuficiente: que as respostas tradicionais, que implicariam sempre recorrer à conceção de mente, consciência, espírito, filiação divina entre outros conceitos esconsos se provam inábeis perante as transições que vamos vivendo parece-me evidente; contudo, quedar-nos por um traço tão ténue que, no limite, se contenta em identificar-nos como espécie distinta das outras espécies, não satisfaz a necessidade de esclarecimento: é um ficar à porta, é uma resignação.
É possível que esta minha insatisfação se funda na dependência de uma tradição metafísica em que fui introduzido. Como é que eu aprenderia a falar antípoda? E, ainda que eu aprenda a falar antípoda, e reconheça a inadequação das imagens que abracei anteriormente – e desta feita as dispense – como serei capaz de identificar cada uma das atividades neurais, distinguindo-as umas das outras, isto é, quantas concorrem em cada uma das minhas operações e como as identifico? O antípoda de Rorty certamente responder-me-ia: ‘também hoje não te preocupas em saber se estás a ter uma ideia ou uma dor, simplesmente distingues’. E quando o outro me dói? Vivo a dor do outro?
Rorty e os seus antípodas querem referir-se exclusivamente aos sentimentos crus, aos pensamentos transitórios e imagens mentais; exclui coisas como as convicções, disposições de espírito e semelhantes, que não fazem parte da nossa vida interior que se descreve de uma maneira incorrigível e, por esse motivo, não encorajam o género de distinção cartesiana entre dois domínios ontológicos [§13]. Contudo, a minha curiosidade subsiste: que linguagem usariam os antípodas para falar das orquídeas? Que letra ou código para falar da beleza ou da fraternidade? Da moral? A de segundo grau? Ele dá a entender que sim, pelo elenco dos temas essenciais à filosofia deles – natureza do Ser; a existência de um Ser Omnipotente e benévolo; problemas surgidos no discurso sobre objetos não existentes; dilemas éticos – mas, usando-a, não se tornaria ainda mais enigmática tendo em conta a primazia da neurologia sobre a sua linguagem?
A tese rortiana de que a filosofia causa géneros característicos de escrita provocados pela construção de imagens que levarão a que se envidem esforços a sustentar ou a contestar essa mesma imagem surge-me como apurada. A sua sugestão do princípio (P) que implica a detecção de uma propriedade particular num objeto que nos habilita a descrevê-lo expõe a debilidade do eco cartesiano. Estou persuadido de que, mais que captar, interpretamos: somos intérpretes, mais do que antenas.
Haverá um mistério maior da pessoa que nos habilite a conhecer? Existirão incorrigíveis? Ainda que eu viva alicerçado numa série de certezas a que aderi – ou que fui persuadido, com maior ou menor ânimo, a abraçar – não consigo afirmar que retenha alguma informação – ou certeza sobre algo – que não possa ser revisível no futuro.
Reconheço também valor à afirmação rortiana de que a introspecção não implica necessariamente o enxergar um domínio ontológico. Ainda que teísta, porque devo aceitar a herança de uma imagem do universo dividida em dois grandes domínios ontológicos – o natural e o sobrenatural? Não haverá necessidade de uma outra imagem que reduza distâncias? Há a presença misteriosa de Deus no Universo: é uma crença a que aderi porque a experiencio. Reconheço que quando tentei palmilhar o caminho da inferência lógica para a existência de Deus não me pareceu necessária nem evidente a sua existência. Mas pela sua experiência, pela relação, pelo mistério a que me sinto inexplicavelmente impelido e convidado – o que é distinto de irracionalmente – não posso, em consciência, negar a sua existência. Implica esta crença a divisão entre dois domínios ontológicos? O fosso natural-sobrenatural não me parece evidente, ainda que não consiga enxergar resolução.
O próprio fenómeno da sobrexistência à morte própria é facilitada pelo uso da imagem de um além. Contudo, não entraria tanto na perspectiva de que falaríamos de um lugar como de um estado. Mas assim, o que poderá superar o corpo em duração? Nem mente, nem alma, nem espírito, todos estes poderão ser produto de uma poderosa imagem que temos vindo a alimentar. Assim, estatuo que será algo completamente diferente de nós, mas ainda nós. E mais não posso dizer, guardo silêncio: há alturas em que temos de resistir ao nosso impulso metafísico natural e não responder [§62].

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