7 de julho de 2014

Comentar Richard Rorty - Moradas



Um equívoco em torno da nossa natureza identificado neste capítulo por Rorty é particularmente estilhaçante: encaremo-nos como seres ‘geradores de novas descrições’, mais do que seres capazes de descrições exatas (§25). Isto leva-nos a encarar diferentemente a questão da educação, que terá de ser mais do que introdução num discurso normal mas verdadeiramente tarefa iniciatória no pensamento e na capacidade de articular teorias e anomalias.
                Descartes e Kant, como venerandos antecessores, merecem lugar no álbum de família, mas as suas opiniões devem ter-se na mesma conta que um embriagado tem um candeeiro: vale mais pelo apoio do que pela luz. Devemos resistir à tentação da soberba de negligenciar os seus contributos fundantes de tradição e, ao mesmo tempo, reconhecer com audácia que nos levam desnecessariamente para fossos como o espírito-natureza – ou alma-corpo – que se podem provar desnecessários.
                A convicção de que poderemos chegar ao conhecimento claro e distinto deve ser colocada em causa, não porque não se possa atingir o conhecimento, mas porque não devemos negligenciar a nossa contingência: um ser contingente, com ações contingentes, vocabulário contingente e rodeado de instrumentos contingentes, será dificilmente capaz de chegar ao saber definitivo, à descrição última do que o rodeia. O nosso mundo vai-se alargando e a nossa compreensão e conhecimento com ele: continuemos a alargar e a compreender o que é necessário rever, não eliminando ou desprezando a herança, mas encontrando espaço para edificarmos continuamente. Se tivermos de alargar o bairro, que o façamos: quem determinou que todos moraríamos no mesmo edifício? A existência de várias moradas não nega um sentido partilhado.
                Deveremos encontrar lugar para aqueles que Rorty chama de filósofos periféricos, os que ‘destroem para o bem da sua geração’ (§15): assim mantém-se aberto o espaço para a admiração, para o espanto, para uma filosofia que seja conversação e não inquérito, atividade que permite rasgar horizonte e não medir impondo limite. O fulcral no discurso edificante é «quebrar a crusta da convenção» (Dewey), impedir que o homem se iluda a si mesmo com a noção de que se conhece a si próprio, ou a qualquer outra coisa, exceto sob descrições opcionais (§26). A conversação faz-nos livres.
                No final do capítulo, Rorty pergunta-se se estamos no final de uma era, respondendo que tal dependerá de Dewey, Wittgenstein e Heidegger serem ou não sentidos (§51). Esta pergunta fica: estaremos, mais de três décadas depois de esta obra ter sido publicada, capazes de responder se transitámos de era, ou estamos somente a experimentar a vertigem da aceleração e continuamos ‘modernos’?
                Quando Rorty, no último parágrafo, insiste na primazia da continuação da conversa sobre a busca do lugar para manter os problemas da filosofia moderna, vejo-o como uma opção deliberada de privilegiar o tempo sobre o espaço, não negligenciando o segundo, mas querendo destacar o primeiro. Faz-me querer ouvir obras sob a direção de Celibidache, que é um apelo constante a que valorizemos cada nota, o detalhe e o pormenor, no mesmo encadeamento de sempre, mas in gemächlicher bewergung, em movimento vagaroso. E a conversa, a filosofia, para que surja o acordo, exige esse abrandar do tempo.

1 comentário:

Carlos Soares disse...

Mais um texto interessante e inspirador. Entre outras perspetivas, suscitou-me uma reflexão sobre a relação entre conhecimento e consciÊncia. Por exemplo, um robot pode ser uma base dinâmica de dados mas, sem consciência do "valor" desses dados, parece óbvio que não é mais do que um automatismo. Também as pessoas que não processem, ou elaborem, ou aprofundem as informações e as perceções e as ideias e os sentimentos e as emoções, ou apenas as elaborem em parte, terão o âmbito do seu conhecimento limitado ao campo de consciência de que forem capazes. Não obstante, o nosso consciente é infinitamente mais circunscrito e reduzido, por um conjunto enorme de fatores, do que vastidão do subconsciente ou do que o imenso inconsciente. Na prática, o nosso consciente é como um postigo, ou uma seteira, ou uma gateira, muito menos do que uma janela ou do que uma porta, da grande casa que é a nossa mente. E cada um tenderá a olhar mais para fora ou mais para dentro, mas a olhar sempre de uma perspetiva que lhe é proporcionada pela natureza das coisas.