14 de julho de 2014

Comentar Richard Rorty - Redenção sem sentido



É complicado imaginar a minha vida sem a colocar como uma pergunta sobre verdade. O que é que é? Como é? Eu quero saber o que te leva a dizer isso. Quem é a tia? Por que se chama tia? Porque é a avó velha? Mesmo que as perguntas não sejam sobre a existência de uma verdade, esta procura de uma correspondência entre o que me ensinam e o que as coisas são é o horizonte que moldou a minha personalidade.
                Fui introduzido num discurso marcadamente institucional e hierárquico, em que se confiou na adequada preparação de interlocutores privilegiados que me habilitassem a dirigir ao e sobre o mundo com propriedade. Mesmo na rebeldia adolescente de assumir uma identidade que se destaque de um fundo de conformidade, fui irreverentemente conformista com a minha geração. Mesmo negando que exista uma verdade que de forma autoritária dita os preceitos sobre o mundo e sobre a axiologia, nunca rompi verdadeiramente aquilo que se pode chamar o paradigma de procura da verdade ‘lugar de descanso’.
Penso que fui encontrando ao longo da minha vida, naquilo que eu pensava que se chamava conhecimento – e hoje apenas consigo chamar de preconceito – um preconceito não desligado de uma adequação a uma realidade, um preconceito que é uma visão em conformidade com a imagem do mundo que fui formando com o meu acumular de experiências, com o que fui lendo, perseguindo um ideal bloomiano, procurando a redenção de algo mais do que uma criação humana, algo mais que a minha imaginação e capacidade de dar significado. A fabricação do absoluto.
                À medida que vou acumulando tempo, à medida que a minha ocupação de espaço vai adquirindo significado, assim também esta visão do inquérito como resolução de problemas se torna mais próxima daquilo que vou experienciando. E vou-me entregando, com muitas resistências, novéis e as de sempre, à inevitabilidade de continuar a lidar com dúvidas. O meu maior receio está perto daquele que Rorty acaba por desenhar como modelo: uma utopia onde privadamente cada um persegue os seus sonhos e onde publicamente conseguimos co-viver.
                Recordo-me, com nostalgia, do sentido de pertença no grupo dos primos quando era criança, das primeiras aventuras no recreio da escola e as primeiras incursões de bicicleta pelos montes que rodeavam a mancha urbana onde cresci. E de onde retiro maior valor não foi da capacidade de viver ao lado de todos os que estavam numa sala, cada um na sua carteira, quotidianamente chamados pelo nome para nos assegurarmos que cumpríamos com o dever de carregar o corpo até uma sala. O que induz a nostalgia que me faz feliz agora mesmo foi a capacidade de fazer vida com eles. Passei do público para o privado? O meu público era expressão do privado: a minha crença, o meu ideal perseguido em privado dirigia-se ao desejo público.
                A verdade redentora não é uma realidade escondida da aparência, uma descrição do que acontece: a verdade redentora seria aquela que nos liberta dos preconceitos permitindo-nos abraçar outras ideias, sem nos diluirmos indiferentemente na sociedade, mas que nos permita atribuir significado e sentido, procurando vivê-lo não só numa dimensão, mas em todos os campos. Há uma pretensão de absoluto. Uma redenção como a de Rorty, mediada por artefactos humanos, pela arte, sem o contacto, perde sentido. Evita todo o atrito, perde a sua riqueza. Sou talvez injusto, vendo a sua dualidade como mais um dualismo, mas a sua argumentação não me persuade do contrário: a utopia de Rorty é um pesadelo indefinido. Cooperamos para que não nos encontremos.

2 comentários:

Carlos Soares disse...

Antes de mais, parabéns por este excelente trabalho.
Nunca me tinha deparado com a expressão "verdade redentora", mas intuo-a como a verdade que procuramos quando perguntamos o que é a verdade. É árduo conceber que a contingência, por vezes trágica, da vida, é o único lugar/oportunidade que temos (ou nos é concedido)para pensarmos e encontrarmos "a pretensão do absoluto". Mas é mais espantoso, ainda assim, que não nos conformemos/contentemos com menos, nunca sendo sequer capazes de "dispor" do Eu, cuja "realidade", de qualquer modo, nos ultrapassa.

Wagner Gomes disse...

Parabéns por este blog,muito bom.

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