30 de janeiro de 2014

Girard – A Teoria do Bode Expiatório como Origem Social do Religioso



Segundo Girard, é algo tão primitivo como a violência e a atitude mimética que produz algo tão extraordinário como a crença no sobrenatural ou numa entidade particular transcendente e a consequente relação com o sagrado, individualmente e como sociedade. De facto, para o filósofo francês, é o sacrifício de vítimas expiatórias que origina o fundo religioso subjacente às comunidades humanas.

No Homem Primitivo, a mimesis é a força originária do comportamento humano, como raiz indicativa da vertente animalesca do Homem, sobretudo pela evolução natural dos símios, e é donde brota o que mais instintivo e irracional há no Ser Humano – a violência pela posse, isto é, pelo poder. Ora, paradoxalmente, embora este tipo de atitude leve aparentemente à desagregação da comunidade, consequência de cada indivíduo proteger o que lhe é próprio, ao contrário da divisão esperada, há a convergência da violência para um único individuo, isto é, há “a passagem da mimesis de aquisição (suscitando a violência interna de todos contra todos) à mimesis de antagonismo (agressão de todos contra um) ”. 

O que no início é a escolha arbitrária e pontual de uma vítima para perseguir, expulsar e matar, no sentido de expurgar “males” de dentro da comunidade, torna-se numa situação repetida, que consequentemente levará à questionação do homem, sobretudo perante o cadáver, resultado da sua ação como comunidade. Esta crise de violência e a sua resolução produzem mais efeitos representativos na medida em que levam a uma deturpada representação de uma vítima por parte do grupo, para a crença na sua culpa e posteriormente para um incrível reconhecimento de paz consequente ao assassínio coletivo. Deste ponto, parte a tendência primordial do Homem para a transcendência, e da influência direta desta na sociedade e na ação humana, pois perante a vítima morta, a violência cessa e no espírito do Homem surge a relação entre a morte de um homem e os benefícios associados a essa mesma morte, conduzindo a uma vida post mortem, à imortalidade, à possibilidade da existência de algo não mecânico, não imanente, mas uma entidade superior. Surgem uma série de crenças e atitudes que dizem respeito à responsabilidade da vítima e aos poderes sobrenaturais (como causa e cura da crise) e daqui resulta a fundação do sagrado e consequentemente também a fundação da ordem social correta

A sociedade primitiva tenderá a repetir temporalmente esta associação criminosa, sendo a expressão mais clara desta violência original, adaptada ao mecanismo religioso, o sacrifício, concebido como um ritual social. “ Se a maior parte dos ritos conduzem a um sacrifício ou imolação é porque eles procuram repetir ou imitar um homicídio coletivo originário” e assim “ a lógica sacrificial converte-se aqui num mecanismo de auto-regulação social com a finalidade de preservar o equilíbrio e a finalidade do sistema, o seu total fechamento. Poderíamos, sem exagero, considerar as sociedades dominadas pelo sagrado como ‘sociedades contra a história’. A defesa da face da mimesis nos rituais, levada ao extremo na sua dimensão social-histórica converte-se em repetição, em tentativa de anulação violenta do tempo como criação”. Neste sentido, a violência actua como factor de coesão social e partindo desta coesão social projectada na vítima, o Homem chega ao transcendente, ao sagrado.

Por Francisco Cortês Ferreira

23 de janeiro de 2014

Totemismo – A religião como Experiência Social na perspectiva Durkheimiana



 Para Durkheim, a religião, é antes de mais um “fenómeno social”. Esta intuição nasce com base na observação de tribos Australianas, que para o sociólogo francês são as que melhor apresentam as características típicas do totemismo (embora este tenha sido descoberto em primeiro lugar nas tribos Índias da América do Norte) e as que apresentam maior segurança nos dados científicos: são completamente homogéneas e embora apresentem variáveis entre si, estas tribos têm uma estrutura social comum.Por outro lado, o autor defende que esta é a mais primitiva forma de religião que se pode encontrar, contendo nesta, elementos comuns a todo o fenómeno religioso.

            A maior parte destas Tribos Australianas apresentam-se sustentadas por uma estrutura base: o clã. Os indivíduos que compõem este grupo não se consideram próximos por terem algum tipo de parentesco, por serem pais, filhos, primos, etc., uns dos outros, mas por possuírem o mesmo nome, no sentido em que o grupo a que pertencem está ligado indelevelmente como uma família por responder igualmente perante a mesma palavra que os define, o totem, com o qual têm uma relação visceral.

Apoiando-se na obra Native Tribes de Howitt, Durkheim revela que são descritos mais de 500 totem    entre as Tribos do Sudoeste Australiano, sendo que entre estes só aproximadamente 40 não são nomes de plantas ou animais e, curiosamente, destes muito poucos são corpos celestes.

Seja como for a forma totémica, Durkheim, defende que a sua escolha depende mais da organização do clã propriamente dita do que da religião em si, ou seja, a escolha desta entidade é sociológica, e consequentemente, o que dita a penetração do homem no transcendente é a sua rede social/ relacional. Por isso o totem não é somente um nome, mas um emblema distintivo, como um brasão ou um escudo. Ora, este emblema não é simplesmente um elemento decorativo ou um objecto profano de identificação e apreciação, como parecem aparentar certas pinturas no corpo, ou mutilações e outras marcas que servem para aproximar o membro ao seu totem, mas, pelo contrário assumem uma inclinação sagrada, como por exemplo a utilização de certas pinturas corporais, tatuagens, e outras, que são usadas em certas cerimónias religiosas sendo uma parte integrante da liturgia. Deste modo, para além de criar um laço colectivo, o totem é acima de tudo a referência do sagrado para o clã, pois a diferença entre este e o profano a ele remetem: o totem é em si, o arquétipo do sagrado. 

 Toda a representação do totem é, mais que uma simples imagem relativa, um ser real, que desperta no Homem o sentimento religioso. Estas representações são normalmente animais ou plantas que por serem elementos sagrados não são passíveis de entrar na alimentação do clã, excepto em certas ocasiões, nomeadamente rituais sagrados. O sacrilégio de profanar estes seres sacralizados é punível com a morte instantânea. Os únicos que não são abrangidos por estas restrições são em certos casos os anciãos da tribo ou outros com cargo religioso. (Repare-se que o autor aponta aqui elementos comuns a todas as religiões, a diferença entre o sagrado e o profano, as leis morais que começam a surgir sob formas de proibições).

Como referido anteriormente, o totemismo é dominado pela noção de um princípio quase Divino imanente a certos elementos animais, vegetais ou outros. Ora, como conceberia o Homem primitivo qualquer ser transcendente a partir destes seres tão familiares ao quotidiano? Como é que se produz na consciência deste mesmo Homem o sagrado associado a estes objetos? De facto, alguns destes seres, não despertam o espanto ou o terror de certos fenómenos atmosféricos como o trovão ou a chuva, pois, aparentemente, são perfeitamente banais. Durkheim defende que não é a coisa em si que é a causa do culto que se gera no totemismo, caso contrário seria esse mesmo objeto o Ser Sagrado por excelência, mas é aquilo que é representado por ele, ou seja, é a quem ele remete o que possui o valor máximo e não os objetos reais que não são senão um reflexo da coisa em si. Daqui de conclui que o totem não é mais que um símbolo, a expressão material, por um lado, de um princípio divino totémico e por outro da sociedade determinada que é o clã, a marca distintiva em relação a outras comunidades. Deste modo, o divino associado ao totem pode ser considerado como a marca identitária do próprio clã em si, o símbolo simultaneamente divino e social. De facto, a sociedade tem tudo para despertar nos espíritos humanos a crença no sobrenatural ou no transcendente, na noção de algo que é superior a si – um principio Sagrado – que dita a forma de vida e está em contacto com o Homem crente e perante o qual este assume um sentido de dependência que o projecta no Sagrado, o qual serve através de diversos ritos, muitas vezes sacrificiais, e outras acções muitas vezes contrárias à sua própria natureza humana. A própria sociedade, sendo divinizada, atua como uma autoridade moral, que força o comportamento do Homem numa determinada direção, individualmente e colectivamente através de cerimónias religiosas e rituais.

São estas mesmas cerimónias rituais que provocam a separação da vida das sociedades australianas em duas fases distintas: uma em que o clã se encontra separado, ocupado nas tarefas quotidianas implicadas sobretudo na obtenção de alimentos, uma fase devotada à economia, sombria, ausente de manifestações de efusividade e paixão e uma outra fase em que os elementos da comunidade se congregam num determinado espaço por um determinado período, onde se realizam determinadas cerimónias religiosas, provocando no individuo um excitamento descontrolado, entrando o Homem numa espécie de transe animalesco e muitas vezes violento. Este tipo de acontecimentos, estes ritos que representam as mais primitivas formas de manifestação religiosa, como o demonstra a descrição de uma festa que os Warramunga costumam celebrar em honra da serpente Wolunqua, são de grande importância no contexto social ao dividir o mundo e o tempo entre o sagrado e o profano. É, segundo Durkheim, nestes ambientes que terá surgido o sentimento religioso.

Ora, como o clã terá despertado nos seus membros a ideia do religioso tem que ver com o facto de o totem ser um emblema. De facto, a ideia de um determinado objeto e o seu significado, imprimem no Ser Humano um determinado sentimento como se ambos estivessem sempre indelevelmente ligados. A coisa representada é sempre mais abstracta para o espírito, por isso o símbolo que a representa, mais simples, torna-se mais facilmente entendível e por isso mais próximo do indivíduo. O totem é exactamente este símbolo da comunidade que congrega em si toda a teia complexa de relações dentro do clã, tornando este último uma unidade concreta, superior a qualquer um dos indivíduos e que se projeta num objeto que de facto está presente à sua volta. Neste objeto, comum a todo o grupo, porque próximo de todos os elementos do grupo, estão congregados todos os sentimentos da comunidade, tornando-se deste modo, ponto de convergência e fundamento sócio-identitário da mesma, permanente geração sobre geração, sendo claro que só dele podem emanar as forças misteriosas que emocionam os elementos do grupo e que será objecto de culto consoante seja necessário aplacar ou provocar as estranhas energias que parecem emanar de si.

Como o princípio totémico é o próprio clã, pois a entidade transcendente que aparece como externa ao Homem, este só se pode realizar através dele, que se torna imanente ao próprio clã. É isto que sacraliza o próprio Homem e a sociedade em que vive, o que necessariamente transforma a religião num fenómeno social. O totem não é outra coisa senão o clã representado materialmente

O Sociólogo Francês postula portanto, que não há sociedade sem religião e que no fundo esta última potencia a sociedade. De facto, no Homem primitivo, a moral social e a religião sobrepõe-se, pois as pessoas encontram-se vinculadas por padrões de comportamento e atitudes, sobretudo rituais, que através dos símbolos a eles associados, indicam claramente a força mobilizadora da religião que confere sentido à vida humana como ser social. Assim a religião é algo conatural à formação e manutenção das comunidades primitivas.  

Francisco Cortês Ferreira

16 de janeiro de 2014

Uma perspectiva global da religião como construtora social



A Sociedade Ocidental vive um abandono generalizado da religião, uma sortie de la religion, utilizando a expressão de Marcel Gauchet, que se reflecte precisamente a partir da perspectiva da religião como factor estruturante da sociedade, em cuja relação e submissão ao transcendente é precisamente um factor de vinculo social. Fruto do individualismo crescente, postado num sistema relativista onde a máxima de Protágoras "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são" assenta perfeitamente, a própria religiosidade passou para o domínio privado e a institucionalização das entidades religiosas como fomento social, cai num subjectivismo de carácter intimista. Se no tempo do Homem Primitivo o Poder transcendental se imiscui no socioeconómico, precisamente por este depender do primeiro, agora, isso é condenável e imoral, como se verifica na constante laicização dos regimes ocidentais.
          
       A função da religio, como religare, tende a desaparecer e o mundo heterogéneo tão bem definido por Mircea Eliade na obra O Sagrado e o Profano torna-se agora, no princípio do Século XXI, num espaço indiviso sem noção de sagrado, por cada Ser Humano responder por si próprio ao seu deus pessoal, o que destrói a concepção primitiva da conaturalidade entre religião e sociedade. Será daqui que advém a tão constante afirmação da falta de sentido que se sente no Mundo actual? 

De Cosmos ordenado e heterogéneo avançamos para o actual Caos homogéneo onde cada um é sacerdote de si próprio e cada um se afasta da sociedade por não responder com todos socialmente perante o transcendente. O Homem Contemporâneo sente um vazio interior por se ter separado da intuição dos seus antepassados primitivos, que não distinguiam a vida quotidiana da vontade transcendental, e que portanto, viviam a própria vida como se de um sacramento se tratasse. Atualmente é incapaz disso, como é incapaz de ritualizar a própria vida num constante recomeço às origens, sendo que, ainda que o calendário civil aponte para um recomeço a cada ano, esta festa de reveillon não é mais que uma sombra do eterno retorno primitivo. Não é um regresso às origens, um retorno à sacralidade original, mas uma pobre imitação individual do que foi em tempos um marco na estrutura social do Ser Humano. Este, a cada ano que passa, perspectiva uma projeção para o futuro e não uma nova Cosmogonia, uma nova Criação, para o retorno ao Arquétipo inicial, precisamente porque esse centro há muito foi esquecido. E esta ausência de memória dos arquétipos extingue os momentos congregadores cíclicos da comunidade, que não podem ser substituídos pelos actuais Jogos Olímpicos ou Campeonatos Mundiais de Futebol porque não são absolutamente ab origine e portanto são ausentes de identidade. 

            A mimesis, que para Girard constitui a base de toda a cultura humana e portanto também o fundamento religioso, tem vindo a ser recusada na atualidade, onde um novo paradigma de originalidade sufocante tem vindo aparentemente a tolher o que aparenta ser tão natural no Homem. A busca do que é novo e incomparável, sempre no alcance do inesperado, tem contrariado esta capacidade mimética defendida pelo filósofo francês. Contudo, o que se passa realmente é que no seu íntimo o Homem permanece um ser mimético disfarçado, sendo a própria busca pela originalidade, um princípio mimético onde a transformação da mimesis de aquisição na antagónica não se verifica, pois a primeira permanece subjacente à actividade humana. A lei do individualismo potencia esta luta todos contra todos, e ainda que o Ser Humano se reúna pontualmente para atacar uma vítima, no fundo, no seu íntimo, pretende sobressair sobre todos os demais aguardando o momento certo neste jogo de aparências para garantir o seu proveito pessoal. O Sagrado originado na vítima colectiva não é real e portanto sofre uma quebra, fruto desta torrente interminável de individualismo.

            Parece-me que a recuperação do sentido do Homem como ser Social passa pela reassimilação do Cosmos como espaço Sagrado, pelo temor como respeito por uma entidade superior reguladora do Universo. A secularização que mina a sociedade leva à perda da relevância dos símbolos sócio-religiosos e consequentemente ao desvanecer do mistério que constitui o encantamento da vida do Homem primitivo. É preciso regressar à perspectiva de Weber na qual a religião é uma fonte de sentido para o Homem ocidental interpretar as condições da sua existência, a sua identidade e vicissitudes sócio-históricas, por isso, este tem que se virar para as suas raízes, reaprender com a religiosidade primitiva e assumir-se como igual perante o Supremo transcendente. O Homem Ocidental tem que assumir a sua tradição judaico-cristã que integra este mesmo pensamento, ao pregar a igualdade perante Deus, pela universalidade da filiação divina. É necessário redescobrir as palavras de Cristo da última ceia: “Fazei isto em memória de Mim” como o retorno a um momento fundador da Sociedade Ocidental. A própria Igreja deve assumir-se como uma comunidade, ou sociedade, assumir-se como corpo místico de Cristo, ser ela própria uma hierofania, uma manifestação do sagrado que tem como totem simbólico a Cruz, tantas vezes representada e tantas vezes esquecida, pela sua carga simbólica e associação à divindade que se deve adorar, e partindo deste ponto, recuperar os totens comunitários, já que as próprias bandeiras faliram como emblema congregador precisamente por não possuírem em si a carga do que representam, como os totens das tribos australianas assumiam em si o espírito divino ordenador que supervisionava a sua vida. 

            Enquanto a Sociedade Ocidental não recuperar a conaturalidade que possui com a religião, vai-se desfragmentando até à implosão final. Não é uma constituição comum a um grupo de estados que irá criar uma sociedade, o que se na ausência de esperança entre os estados membros da União Europeia. Pelo contrário, do outro lado do Atlântico os Estados Unidos mantêm-se mais ou menos congregados harmoniosamente, precisamente porque há resquícios de uma dependência do divino como nas sociedades primitivas. Não é por acaso que o lema nacional norte-americano é In God We Trust e que o presidente quando toma posse jura com a mão sobre a Bíblia. Apesar de ténues os símbolos existem e isso ajuda à manutenção e a coesão do grupo de estados. Há um sentido imanente a tudo isso, mesmo que o Homem primitivo entendeu no passado. A Religião brota da Sociedade, é um fenómeno colectivo e não individual, porque é um fenómeno teleológico, algo que o Homem Moderno e Pós-Moderno ainda não entendeu: ninguém se salva sozinho, e enquanto não recuperar a Sociedade Mística, não viverá harmoniosamente em comum.


O Homem Primitivo vivia intuitivamente na dependência do poder transcendente, e era este facto que dominava a sua vida como Ser Social. A perspetiva com que enquadravam o Cosmos era mística, sentindo e assumindo o Poder Religioso em todas as dimensões importantes da sua Vida, inclusivamente o modo como compreendia o espaço e o tempo. A própria vida em sociedade e sobretudo o modo como se associavam comunitariamente era dependente do divino, como se a sua vida fosse uma grande liturgia, com os seus símbolos, os seus totens, e onde todos participavam como comunidade. A Religião interligava os membros da comunidade e eles identificavam-se perante ela, e por isso viviam socialmente dependentes dela. Por outro lado, foi do Seio da Comunidade que brotou a interrogação e a organização que possibilitou ao Homem tomar consciência da entidade que entendiam ser superiora a si. 

            Na aurora da Humanidade, o Homem revelou a faceta mais distintiva da sua própria natureza, assumiu-se como um Ser Crente e por isso associou-se em Adoração, num Cosmos que nunca mais seria o mesmo, pois o Homem como Homem já não vive só, mas organiza-se socialmente perante algo Superior a ele.


Francisco Cortês Ferreira