31 de março de 2014

Valadier II - Natureza, Liberdade, Ciência



Podemos certamente discutir a teleologia da natureza, tal como foi concebida por Kant, e mesmo contestar a sua estética onde a beleza oferece uma «passagem» entre natureza e liberdade; daí resulta que aquele em que nos apoiamos muitas vezes para justificar o dualismo entre facto e valor não pode ser reconhecido sem reservas nesta paternidade. Seja como for, a posição kantiana chama a atenção para um ponto essencial: um dualismo radical torna impermeável à inteligência das coisa coisas, porque a liberdade está já em ação no próprio ato científico, ou ainda, o facto científico só é estabelecido, concebido, testado a partir de um valor do qual depende inteiramente, o valor atribuído ao conhecimento. Procurar desenvolver as ciências e contribuir para isso pressupõe que achemos preferível conhecer do que contemplar as coisas no seu estado. Tal foi a «decisão» que presidiu ao desenvolvimento moderno das ciências. Tanto o seu progresso como o desejo de objetividade científica implicam que os tenhamos posto mais alto do que qualquer desejo de conhecer e que estejamos dispostos a sacrificar-lhe muitos preconceitos e crenças. Nietzsche mostrou com lucidez que a ciência se apoia ainda numa «numa crença», a crença na verdade como valor supremo em nome do qual já nada tem preço e sobre o altar do qual «sacrificámos e degolámos uma crença após outra». A ciência não se desenvolveu sem pressuposição, de maneira neutra ou em nome da sua única utilidade, porque não é um cálculo que está na sua origem; baseia-se numa crença, na crença de «que Deus é a verdade, que a verdade é divina», ou seja, que não existe valor mais alto (ou mais divino) que a verdade.

26 de março de 2014

Elogio dos Sentidos - Fé e Arte III


A arte e a fé fecundam-se mutuamente numa dialética que eleva o Homem, consagrando-o ao inefável que o seduz, provocando-o a, como afirma Bento XVI, “não limitar os horizontes da existência unicamente à materialidade”. A beleza, que desponta da inquietação artística, é ela própria uma porta para o Mistério, dado que ecoa a necessidade de plenitude que o artista experimenta e que traduz na contingência das suas próprias mãos.

A arte é a expressão das grandes interrogações do Homem, que o movem e bloqueiam, que o excitam e que o deprimem. Neste ponto, a fé atravessa-se de modo irreprimível, catapultada pela transcendência que de modo subtil se torna tangível aos sentidos. E estes, como portas abertas para o Mundo, são como canais evolutivos, tornando o Homem um paradoxo, simultaneamente distinto e encarnado num Comos cuja Beleza é desafio constante e último à própria razão Humana. Perante a Beleza a Razão curva-se e a esperança renasce porque o intangível se torna tangível ao Homem, Corpo e Espirito.


O evento Fé e Arte III - Elogio dos sentidos: Do corpo e do Espirito, que se realiza no próximo dia 5 de Abril, no auditório da Faculdade de Filosofia de Braga, será um espaço de diálogo onde se cruzarão diversas sensibilidades com o objetivo de discutir estas duas instâncias tão misteriosas – a fé e a arte, mas ainda assim tão fundantes do espaço humano. Cada perspetiva, cada orador, proveniente de quadrantes tão diversos como a música e a poesia, passando pela arquitetura e a reflexão teológica, tem o desejo de expressão, da sua expressão, cuja vitalidade brota da sede de completude, da sede de sentido.

Mais informações e inscrição on-line em  http://www.fe-e-arte2014.com/

24 de março de 2014

Valadier I - o enorme abismo



É tempo de nos interrogarmos se «o enorme abismo» que, segundo Kant, separa o mundo da natureza do da liberdade, e que portanto legitima a distinção do facto (objetivo) da do valor (subjetivo), é tal que nenhuma passagem entre os mundos seja possível. Interrogar uma distinção que é muitas vezes compreendida como um dualismo irredutível a qualquer unidade não significa que se minimizem os efeitos culturais que acabamos de analisar: pelo contrário, é porque somos sensíveis não só às suas consequências duráveis, mas também aos impasses para os quais elas conduzem, que é necessário interrogarmo-nos sobre as evidências que, não interrogadas, se transformam em novos tabus.



Se olharmos de novo para Kant, que pareceu acreditar na ideia de «um enorme abismo» entre a natureza e a liberdade, apercebemo-nos que na realidade o filósofo pressupõe uma transposição do abismo e não uma separação total dos domínios. Assim, nos próprios textos que acabámos de citar, ele indica claramente que, «embora exista um enorme abismo (…) deve existir contudo um fundamento de “unidade” do supra-sensível, que reside no fundamento da natureza, com aquilo que o conceito de liberdade contém de forma prática, fundamento cujo conceito, mesmo que não consiga nem teórica nem praticamente dar conhecimento disso e mesmo que não tenha um domínio próprio, torna no entanto possível a passagem do modo de pensar segundo os princípios de um para o modo de pensar segundo os princípios do outro»; o mundo da liberdade “deve” ter uma influência sobre o mundo do determinismo; «com efeito, o conceito de liberdade tem o dever de tornar efetivo no mundo sensível o fim imposto pelas suas leis», ou então a lei moral permaneceria ideal, sem influência e sem eficácia na fenomenalidade, por isso vã. É certo que o sensível não pode determinar o supra-sensível, mas «o inverso é no entanto possível (…) e está já contido no conceito de uma causalidade pela liberdade, cujo efeito deve ter lugar no mundo e em conformidade com as suas leis formais». Uma tal influência não é uma causa e não fornece nenhum «conhecimento» ao sentido científico do termo, mas a faculdade de julgar oferece a «mediação» necessária ou «a passagem do domínio do conceito da natureza para o do conceito da liberdade».

17 de março de 2014

Variações Éticas III - Silveira de Brito



O homem como ser moral, e não como ser natural, surge com a Modernidade, época histórica em que a pessoa já não aparece como subordinada a uma lei moral dita natural. Com o pluralismo, a moral natural dá lugar a uma moral fundada na autonomia. Como ser autónomo e livre, a pessoa dá a si a sua lei, frente à natureza que lhe aparece como subordinada. O «conquistai» a terra do Génesis adquire o seu pleno sentido na Modernidade na qual o homem não é encarado como ser natural e submetido à lei natural, mas como ser moral, pertencente ao reino da liberdade. Na Modernidade, o homem deixa de andar à volta da natureza e é esta que passa a andar à volta do homem; é este, o homem, que prescreve as leis da natureza. Costuma dizer-se que com a Modernidade se passa de uma moral heterónoma para uma moral autónoma, isto é que com a Modernidade o homem passa de súbdito a soberano, senhor de si, que passou da menoridade à adultez. Com a Modernidade passa-se dum jusnaturalismo da lei natural para um jusnaturalismo dos Direitos Humanos, dando-se a laicização do conceito de pessoa que tende a descristianizar este conceito e a fazer a transição de uma conceção segundo a qual a vida da pessoa é sagrada para a afirmação da autonomia da pessoa.

Apesar do surgimento do pluralismo moral, a verdade é que uma das principais inspirações das normas da moral pluralista continuou a ser a religião, muitas normas morais se assemelham às apresentadas pelas religiões. O que muda radicalmente é o modo de fundamentar as normas morais. Pode dizer-se que a Modernidade traz como problema fundamental da ética a sua justificação. Até à Modernidade a moral era uma moral religiosa, neste sentido: as normas eram de inspiração religiosa e a justificação última para lhe obedecer estava na sua origem religiosa. Com o fim da unidade religiosa e o movimento da Ilustração surgiu a necessidade de encontrar uma fundamentação da moral de outra natureza que não a religiosa, uma vez que esta tinha deixado de ser aceite universalmente. Surge assim uma diversidade grande de fundamentações da moral, todas elas centradas no homem, uma vez que o lançar mão de uma realidade transcendente para fundamentar a moral se tornou impossível no espaço público.

«O rosto do outro é presença do terceiro, é presença da humanidade inteira»; no rosto do outro olham-me os olhos de todos os outros, diz Lévinas em «Totalité et Infini». Em «Autrement qu’être», Lévinas afirma que a entrada do terceiro perturba a clareza da relação/responsabilidade eu-outro. O aparecimento do terceiro é o aparecimento de um outro outro, de um outro radicalmente outro perante quem tenho uma responsabilidade tão infinita como infinita é a responsabilidade perante o primeiro outro, e outro do outro exigindo a ele também, e por sua vez, uma responsabilidade infinita. É aqui que a articulação se dá porque, quando o “duo” passa a “trio”, surge a necessidade da medida, da comparação, de saber quem passa à frente; surge a necessidade de corrigir a assimetria. Torna-se necessário o aparecimento da regra que rege o nosso comportamento o moral perante os outros. Mas aquilo que reputamos fundamental aqui, em Lévinas, é que a regra, sendo regra universal, não tem em si o critério de bondade. A correção da assimetria não é a última palavra. Essa correção é exigida pela relação eu-outro, a justiça tem a sua justificação na responsabilidade constitutiva da relação eu-outro e não torna essa relação neutra.

Podemos dizer que o código moral que rege o agir é a cristalização cultural da vivência da relação eu-outro e eu-outros. A vivência da responsabilidade eu-outro, vivida em comunidade, levou a uma prática socialmente reconhecida por todos como sendo a concretização da relação eu-outro, quer se tenha chegado às regras desse código por tradições religiosas, quer por normas que resultam de um consenso implícito ou explícito. Mas, para usar uma formulação claramente levinasiana, o “Dizer” traduzido no “Dito” que esse código é, sofre sempre uma alienação que deve ser desfeita porque há sempre desadequação do dito relativamente ao Dizer. Na hora da justificação da norma, do código, o critério é procurar se aí se consubstancia a responsabilidade que o eu é pelo outro.
Por outro lado, esta justificação do código aponta claramente para a necessidade de uma visão crítica desse código e justifica a sua evolução. É porque tudo parte da relação responsável eu-outro que a moral é utópica, nunca está realizada.