Reconciliados com a contingência
Partilhamos um gosto pelo seguro, pela certeza, e a distância da
incerteza a esta certeza é medida em quantidades de conhecimento relevante
acumulado. Buscamos amealhar conhecimento para suprir a fragilidade básica da
insegurança, procurando conforto na compreensão. Este afã curioso de milénios,
sistematizado e cada vez mais minucioso, leva-nos a saltos e a realidades onde
nem a imaginação de outrora suponha entrar, onde a ficção foi timorata.
Será possível um estado
de conhecimento completo que nos guie à total previsibilidade e compreensibilidade
dos fenómenos? Encontraremos um termo para todo este indagar? Laplace supôs que
a uma tal inteligência nada seria obscuro, em nada seria falha de compreensão:
tudo medido em causalidade, o determinismo mecânico deste autor – como o de
Newton – permite especular sobre a mente infalível.
Inclinamo-nos a dizer
que acaso é fruto de falta de informação-compreensão, mas que não é somente uma
lacuna. Conseguimos encontrar o acaso, o incompreensível-improvável no ligame
causal, justificado pela carência de conhecimento: as teorias
objetiva-subjetiva encontram-se e complementam-se, restando sempre incerteza.
Existirá um espaço da certeza sem qualquer vestígio de incerteza, ou todo
o conhecimento exige na sua base, agora e sempre, uma opção determinada, uma
convicção da mente, um ato de fé, uma crença? É assaz curioso que vivamos de
tão perto com a nossa própria contingência e com os limites conhecidos da
existência e, ainda assim, persistimos perante o que nos surpreende a
agitar-nos freneticamente: convencemo-nos da magna previsibilidade da vida, do
hipotético aviso de entrada no porto com antecedência de três dias a cada nova
situação-embarcação. Persuadimo-nos sem razões aparentes, nem experiências que
o confirmem, da perspicácia das nossas projeções, e de tal forma nos arreigamos
às expectativas que não nos conseguimos desprender da ideia de que estas não
são a única hipótese passível de concretização, de que expectativa é conceito
distinto de verdade. O acaso é um convite a reconciliar-nos com a nossa própria
contingência.
Bibliografia
BARTHOLOMEW,
D. God Chance and Purpose. Cambridge:
University Press, 2008.
BERGSON,
H. Creative evolution. London:
MacMillan and Co, Limited, 1922.
REALE, G.; ANTISERI, D. Historia del Pensamiento Filosófico y
Científico. Barcelona: Editorial Herder, 1988.
SOUSA ALVES, V. Acaso. In LOGOS – Enciclopédia Luso-Brasileira de
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