4 de junho de 2011

Herdeiros de um repto de ascensão...


Uma presença evidente é negada aos olhos.

Uma ausência sensível penetra na interioridade.

A Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo nutre com credibilidade as contradições.

No momento em que se vai embora quem estará connosco todos os dias da nossa vida, o eterno torna-se particular.

Inaugura-se uma intimidade tão abrangente que se reduz ao limitado de um instante.

Um parágrafo, um abraço ou um gelado.

Uma mão, uma memória ou uma chamada.

A vida está povoada de diminutos mistérios,

mas o principal parece continuar a ser quando deixar de respirar.

Esta inquietação pelo posterior só distrai da nossa colaboração com o actual.

“… porque ficais aqui parados, olhando para o céu?”

Há tanto por fazer cá na Terra…!

(… que todo o pouco nos parece insuficiente).

A semente de Reino está cuidadosamente depositada nesta terra.

Não cheira a fruto definitivo porque é só semente.

Por ser semente é que existe e é possível.

Indubitavelmente discreta,

as capacidades de fertilidade escapam a toda a previsão.

A grandeza de existir manifesta-se na pequenez de cada um.

São subtis as contradições que dinamizam o agir…

A confiança plena em que a duvida vai orientando o caminho.

A urgência de amor universal praticada no local.

A insinuação de Pai ao órfão de sentido.

A humildade do Filho recomendada ao excelso ninguém.

A ligação do Espírito como comum companheiro do amável.

Como atrever-se a ensinar, havendo ainda tanto por aprender?

“Puxar para cima” a realidade próxima é missão de gratuidade.

O pobre, o desiludido, o excluído… merecem “um sempre melhor”.

Somos herdeiros de um repto de ascensão.

A vitalidade do testemunho está no pormenor:

“Para Deus, sobe-se descendo”.





1 de junho de 2011

Ser contemplativo na acção

Uma das mais habituais queixas das nossas vidas é que estamos muito ocupados. (...) paradoxalmente, as tradições espirituais - tanto cristãs como não cristãs - não costumam imaginar Deus tão ocupado como nós. (...) Mas há uma tradição espiritual que oferece um certo correctivo à nossa imagem de um Deus a descansar eternamente. Essa tradição vem de Inácio de Loyola, que tinha uma certa predilecção para descrever Deus, Trindade e Encarnado, a trabalhar. Ele imaginava Deus activo e Jesus atarefado com os assuntos deste Deus a quem chamava Abba, Pai. (...)

Então, onde é que começamos a procurar Deus? Na actividade, no trabalho. O que distingue a perspectiva de Inácio não é chamarmos por Deus para Ele estar presente connosco nos nossos trabalhos, mas antes cairmos na conta que somos privilegiados por nos juntarmos a Deus nas Suas actividades, nos trabalhos de Deus. Mais correctamente ainda: devemos estar sempre a trabalhar com Deus e com o mundo de Deus. A nossa união com Deus, com Cristo, é encontrada primariamente, portanto, na actividade em conjuncão com Deus, com Cristo. (...)

O dom de lnácio para nós, nos nossos dias, é ainda o de nos apontar o caminho para a nossa vida peregrina, feita de movimento e actividade. O trabalho que fazemos deve envolver-nos na divina história que contemplamos. (...) Encontrar um Deus ocupado fornece um incentivo para o nosso trabalho, porque descobrimos que o próprio labor que nos caracteriza como humanos é um lugar especial onde Deus está. Tanto que precisa de ser feito e Deus chama-nos para a tarefa de construir com Ele um mundo ao mesmo tempo mais humano e mais divino.

Ao mesmo tempo, encontrar um Deus ocupado dá-nos um meio de nos libertarmos da ansiedade inútil e da impaciência de querermos terminar qualquer trabalho de acordo com o nosso calendário. Embora Deus nos tenha criado para O ajudarmos nas Suas ocupações, continuamos a ser apenas colaboradores. Cada vez que rezamos como Jesus nos ensinou, expressamos a nossa fé na vinda divinamente assegurada desse Reino. "Venha a nós o vosso Reino”, rezamos.

Por essa esperança trabalhamos; nessa divina certeza nos descontraímos.

David Fleming, Finding a busy God

31 de maio de 2011

Um Deus que Dança



José Tolentino Mendonça revela"Um Deus que dança"

“Um Deus que dança – Itinerários para a oração” é o novo livro do padre José Tolentino Mendonça, que vai ser lançado em Lisboa a 7 de junho.

O volume constitui «um caso particular» nas obras do diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, dado que «o seu conteúdo não foi pensado, originalmente, para ser lido, mas para ser escutado», sublinham os responsáveis pela edição em nota enviada hoje ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

A primeira parte do volume, intitulada ‘Livro das Pausas’, é constituída por meditações inspiradas em textos bíblicos, lidas no site “www.passo-a-rezar.net” pelos atores Pedro Granger e Susana Arrais, cujas locuções podem ser ouvidas no CD que acompanha o livro.

A obra, com prefácio do encenador Luís Miguel Cintra e ilustrações do arquiteto e padre jesuíta João Norton, oferece no segundo capítulo, designado ‘Livro dos Andamentos’, «orações poéticas» lidas aos microfones da Rádio Renascença.

«Acredito num Deus que dança», «imiscuído, engajado, detetável até pelo impreciso radar dos sentidos, suscetível de ser invocado pelos motores de busca das nossas persistentes interrogações ou do nosso silêncio», escreve o autor na introdução.

Para o poeta e biblista, as palavras, «por pobres que sejam, constituem pontes de corda lançadas sobre a amplidão do mistério», e nelas se perscruta o «assobio que anuncia os passos do viandante que chega ou que parte».

O professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa sublinha que «a oração não se constrói de palavras, mas de relação», pelo que o «mais importante» é a «celebração de um encontro».

A sessão de lançamento do livro realiza-se às 18h00, no espaço da Companhia Olga Roriz (Rua da Prata, 108), com a presença de José Tolentino Mendonça, Luís Miguel Cintra e João Norton.


Rui Martins
Agência Ecclesia / SNPC
30.05.11

29 de maio de 2011



(das leituras do dia)

«Eu já não estou no mundo mas eles estão no mundo, enquanto Eu vou para Ti»

“Não voz deixarei órfãos: voltarei para junto de vós. Daqui a pouco o mundo já não Me verá mas vós ver-Me-eis, porque Eu vivo e vós vivereis.”

“Nesse dia reconhecereis que Eu estou no Pai e que vós estais em Mim e Eu em vós”.





Hoje o tom é de despedida – quando partimos parece que arrancamos de nós próprios um pedaço do chão alheio. Mas temos que partir, pois não podemos criar camadas de gente que amamos, colando-as a nós para que não se apartem da nossa vista. Na verdade o medo de orfandade pede-nos que nos amarremos de unhas e dentes àqueles pelos quais se aperta o estômago quando os vemos de costas despedidas, já no fundo da rua, que parece querer traze-los de novo para os nossos braços ainda no ar.

No entanto temos esse medo.

Talvez o tenhamos, porque nos descobrimos tantas vezes, órfãos – como no supermercado a agarrava com a naturalidade de filho, uma mão de uma mãe desconhecida que pensava ser a minha – numa sensação de surpreendente solidão, de falta de tecto. Também nos sentimos órfãos, quando o silêncio supera largamente qualquer música, ou ainda, quando não descubro o meu lugar, por não receber o depoimento dos gestos, que nos gravam a paternidade nas mãos. Mas o Senhor dá-nos o Seu lugar quando parte, da mesma forma que o avô deixou o lugar da cabeceira vazio, para que agora o pai coma no dia da festa sem que ninguém lhe escape aos olhos.

No entanto, no lugar ocupado de quem partiu acumulou-se mais um, àquilo que inevitavelmente fica de quem já lá não está. Assim, para quem se sentou no colo do pai não existe orfandade e quem se viu entrelaçado nos seus braços nunca será órfão. Desta forma, o maior medo não pode ser de orfandade mas antes da amnésia, por isso a enorme necessidade de fazer memória, para que eu não passe de filho a órfão.

Quando um PAI parte não deixa órfãos mas filhos e, desfazendo-se o nó da falta que faz o corpo quente e a voz, ficamos sós, mas no seu lugar, logo mais nós mesmos.

É assim que o Senhor se despede e parte para o Pai para que fiquemos n’Ele, não órfãos, mas filhos que assumem as cabeceiras das mesas em paternidades fecundas.


O que hoje aprendi para dizer-me

talvez não caiba no jeito do verso

não cabe, por minha falta

mas eu aprendi.

Desde hoje serei mais eu

Estarei mais onde estiver

Almada Negreiros

27 de maio de 2011

A Terceira Provação, na Companhia de Jesus

No percurso de formação dos jesuítas, os anos dedicados ao estudo parecem nunca mais acabar mas, na verdade, as diferentes etapas têm oficialmente um final. O termo da formação do jesuíta não é a Teologia, como poderia pensar quem lida mais com os sacerdotes. Os irmãos também dedicam algum tempo ao estudo e ao conhecimento técnico e prático de um determinado ofício. Assim como o começo é para todos o Noviciado, também o final é para todos igual e tem um nome: Terceira Provação.


Pressupõe duas outras provações: a primeira logo a seguir à entrada do candidato e a segunda a partir do próprio Noviciado. Ainda que distante no tempo, a Terceira Provação tem a sua similitude com o Noviciado. Muitos dizem que é como regressar àqueles primeiros anos onde se aprendiam os fundamentos do que é ser Companheiro de Jesus. Esta etapa final, por um período de seis a nove meses, acontece habitualmente após dois ou três anos de actividade apostólica.

Tal como as outras fases se inspiram no percurso formativo de Santo Inácio, também esta vai beber, de algum modo, às experiências que ele e os primeiros companheiros, já sacerdotes, viveram na região de Veneza.

Escola do Coração ou Escola do Afecto é outro nome dado a este momento que encerra, no sentido formal, o período formativo: "uma vez acabada a preocupação e o empenho de cultivar a inteligência, no tempo da última provação, insistam na escola do afecto" (Constituições da Companhia de Jesus, nº 516). Esta etapa, que como vimos, vem já desde o tempo de Santo Inácio, não sendo nos nossos dias uma originalidade no contexto da vida religiosa foi-o sem dúvida na sua origem. Inácio mostra o seu génio intuitivo ao perceber os mecanismos psicológicos da pessoa. A preocupação de que a prolongada formação do jesuíta no plano intelectual o possa desequilibrar, fá-lo ver como necessário formar agora o coração para que o jesuíta se possa entregar à exigência da missão na totalidade da sua pessoa.

Do mesmo modo que todos os momentos da formação são pedidos pela missão da Companhia de Jesus, também este tem a sua razão de ser naquilo a que cada um é chamado a realizar na vida de cada dia.

Só após a Terceira Provação e com a realização dos "últimos votos" o jesuíta está plenamente integrado no corpo apostólico que é a Companhia de Jesus. De integração se trata na verdade. Esta procura-se que seja a melhor possível nos diversos âmbitos da vida: "relação consigo próprio e com Cristo, com a Companhia de Jesus, com a Igreja, com o Mundo.

Este processo acontecerá através das diversas "provas" que na Terceira Provação serão proporcionadas ao jesuíta. À semelhança do que aconteceu no Noviciado, o mais marcante é sem dúvida a repetição dos Exercícios Espirituais de mês, só que agora enriquecida por alguns anos de vida na Companhia. Uma posterior reflexão sobre esta experiência vai facilitar a interiorização da letra e do espírito dos Exercícios, fundamental em todo o modo de proceder do jesuíta.
O estudo também não está esquecido mas agora não tanto no plano meramente técnico ou intelectual, mas mais numa orientação sapiencial: a vida como o grande lugar de aprendizagem do que Deus quer dizer. O jesuíta voltará de novo aos textos fundantes e fundamentais da Companhia de Jesus: A Fórmula do Instituto; as Constituições, os escritos de Santo Inácio de Loiola.

Acresce a tudo isto, o exercitar apostólico que procura abrir à universalidade e ao discernimento da missão levando o jesuíta a campos de apostolado com os quais ainda não se confrontou ou a que mais dificilmente parece ter acesso.

Todos estes elementos procuram tocar os aspectos mais profundos do mundo afectivo do jesuíta para que seja cada vez mais dócil à acção de Deus na sua vida. Este, poder-se-ia dizer, é o fim desejado por Santo Inácio com a Terceira Provação. A Escola do Coração ou do Afecto é crucial na maturação do apóstolo que o Companheiro de Jesus procura ser.

24 de maio de 2011

África, acorda!

O teu avô deixou-me aqui.

Acho que se esqueceu de mim.

A sua intenção era que eu lhe desse abundantes frutos, mas sempre faltou a água. Nunca conseguiu regar-me, pois a fonte mais próxima só está na aldeia detrás daquela cadeia de montanhas. O céu também não é assim tão generoso em nuvens. Pouco chove neste canto da savana. Estava condenado a amadurecer estéril, mas nem por isso resolvi deixar de crescer. Começou tudo bastante direitinho, mas o vento é implacável. Sopra enérgico, e são poucos os que podem opor-lhe resistência. Eu esgotei logo, pois a sua aridez secava as minhas forças ingénuas. Sempre na mesma direcção, cada vez mais dobrada. A minha posição permite-me vigiar sobre os arbustos, mas perdi toda a estética possível. Além de inútil, feiosa.

Não será estranho que morra daqui a pouco. Não há ser vivo que ultrapasse a sua condição de mortal. O meu passado começou já a acabar-se, e o futuro é desaparecer dissolvida no mesmo chão para onde o teu avô me atirou naquela tarde de Outono.

Mas tu, tu vieste ter comigo.

Não te conformaste com ficar ao pé de mim, no entanto resolveste atingir esta cimeira vegetal. Pareces corajoso e são. Embora não logre adivinhar para onde estás a olhar, intuo que sabes observar e contemplar.

Os nossos olhos apontam para direcções opostas, e ainda bem! Eu desço para a terra, tu sobes cá para vê-la melhor.

Não podes imaginar como me fazes sentir feliz cada vez que para isto vens. Se eu fosse como aquelas outras árvores majestosas, dificilmente te terias elevado nas minhas costas.

Ó rapaz, ama esta terra!

Por vezes parecer-te-á não demasiado agradável, mas é a tua. Está cheia de possibilidades, e este encontro voltou a ser um exemplo. Visita-me quando quiseres, e convida o teu povo a acordar.

Quiçá apareça um dia a tua neta, simplesmente para ter uma conversa com a minha filha.

Ainda há muita vida escondida, e tu irás descobrindo-a. Aproveita o teu entusiasmo, que a mim há tempo que me falta.

Sopra o vento, mais uma vez.




Nossa Senhora da Estrada


A pequena igreja de Nossa Senhora da Estrada (datada do séc. V, originalmente Igreja dos Astalli – família a que pertencia) ficava na rua que dá para o Monte Capitolino. Santo Inácio e os seus Companheiros frequentavam com assiduidade essa igreja, quer para rezar, quer para exercerem aí os ministérios, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação.

S. Inácio teve sempre uma grande devoção a Nossa Senhora, dedicando-lhe muito tempo da sua oração, chamando-lhe Mãe da Companhia. No caminho de Veneza para Roma, quando ia confiar o grupo de Amigos de Jesus nas mãos do Papa, repetia incessantemente Mãe, põe-nos com o Teu Filho, sinal dessa grande devoção e confiança.

O Papa Paulo III acabou por entregar a Igreja aos cuidados dos companheiros de Jesus e, no seu lugar, acabou por ser construída a Igreja do Santíssimo Nome de Jesus – Igreja do Gesù – a primeira igreja da Companhia de Jesus. Para aí foi transladada a imagem da Senhora da Estrada (possivelmente, da segunda metade do séc. XIII), colocada entre o altar de Santo Inácio e o altar-mor, do Santíssimo Nome de Jesus.

A Senhora é representada com o Menino ao colo, sentado na Sua mão esquerda, tendo a mão direita aberta aos fiéis. Na cabeça, tem uma coroa rodeada por uma auréola, olhando de frente para quem a contempla, vestida com um manto dourado. O Menino tem, também, uma auréola e a postura do Pantokrator. Austero, mas de olhar sereno, segura o livro com a mão esquerda e a direita erguida, dando a bênção. É a imagem da Mãe Medianeira da Graça, que apela à confiança no Filho.

Hoje, como no séc. XV, muitos jesuítas se confiam à Mãe, pedindo a Sua intercessão junto do Seu Filho, Jesus, Companheiro e Senhor nosso.