15 de julho de 2011
Boas Perguntas ao Cristianismo e à Igreja
Alguns destes filmes vão aparecer aqui no Companhia dos Filósofos como pontos de partida para considerar questões do contacto entre cristianismo e a cultura e a sociedade.
11 de julho de 2011
Geração JMJ [jornadas mundiais da juventude]

Recém-publicado pela Editorial Apostolado da Oração de Braga (Portugal), a obra é de autoria das espanholas Cristina Larraondo Erice e Ana Larraondo Erice. A tradução ao português é de António Valério, S.J.
O livro faz uma retrospectiva das dez edições anteriores da JMJ. Quer ser um instrumento que ajude a preparar a JMJ de Agosto em Madrid, em que 2 milhões de jovens se encontrarão com Bento XVI.
Na obra se recolhem 25 testemunhos que revelam a existência de uma autêntica revolução no seio da Igreja. Milhões de jovens já participaram na JMJ e a sua vida mudou completamente.
Em Geração JMJ é possível ler o testemunho de um casal holandês, um sacerdote japonês, uma estudante norte-americana, uma religiosa contemplativa espanhola, uma política do Mali, um seminarista britânico, uma executiva da Indonésia, um jornalista do Togo… todos eles pertencem à Geração JMJ.
O livro inclui o testemunho inédito do único bispo da Igreja que organizou duas JMJ e que participou neste acontecimento desde as suas origens: D. António María Rouco Varela, cardeal de Madrid.
in Zenit
10 de julho de 2011
sexo e religião

No passado dia 8 tive o prazer de participar juntamente com o Prof. Júlio Machado Vaz num debate sobre 'sexo e religião', a convite da Delegação de Braga da Ordem dos Médicos. Publico os tópicos que utilizei nesse debate, e nos quais me refiro sobretudo às posições da Igreja Católica.
1- Quando se fala de sexo e religião vêm-nos talvez à mente algumas ideias comuns: a religião tem um problema com o sexo, com o prazer em geral e com o prazer sexual em particular, a religião católica, em particular, é contra as mulheres, o casamento dos padres, e contra a própria natureza humana. Para algumas pessoas estas posições estão fundamentalmente erradas, e para elas parece fácil compreender porquê.
2- Pessoalmente tenho sempre alguma dificuldade em aceitar respostas fáceis e rápidas para questões complexas e que exigem, por isso mesmo, ponderação e discernimento. Tais são, entre outras, as questões éticas, particularmente as que se referem à sexualidade.
3- Em questões relativas à sexualidade, como as que se referem a muitas outras questões, os seres humanos em geral e a Igreja Católica em particular encontram-se com frequência numa tensão, que deve ser criativa, entre princípios gerais e casos particulares. Por exemplo, o princípio ‘não matar’ é universal mas há casos concretos em que é lícito matar, como o caso de legítima defesa.
4- Para algumas pessoas, o princípio geral supremo é o da liberdade pessoal – supostamente oposto ao da obediência a mandamentos divinos ou outros. Com alguma frequência oiço algumas pessoas enunciarem o seguinte princípio: “cada um deve ser livre de fazer o que bem entender, desde que isso não prejudique ninguém”. A partir daqui, parece fácil decidir o que se pode e não pode fazer. Por exemplo, se eu pagar a uma prostituta que livremente me acompanha a casa e livremente passa um fim-de-semana comigo, e que se despede feliz da vida, qual é o problema?
5- O problema é que ao ‘alugar’ uma prostituta, eu estou objectivamente a banalizar um género de relação interpessoal que é dos mais profundos e, ao mesmo tempo, a pressupor que essa banalização não me afecta a mim nem à prostituta como pessoas. Objectivamente o pressuposto aqui implícito é o de que cada ser humano é uma ilha. Quando lia nas manifestações a favor do aborto, em Itália como em Portugal expressões como “il corpo è mio e lo gestisco io” ou “eu mando na minha barriga”, mais do que o termo ‘sexo’, o que me vinha à mente era o termo ‘ilha’.
6- A Igreja Católica baseia-se no princípio da totalidade ou do bem total do ser humano para discernir o valor humanizador das relações interpessoais concretas. Este princípio aplica-se a todos os aspectos da vida humana,e pretende superar análises puramente parcelares ou casuísticas. O modo como gasto o meu dinheiro deve ter em conta este princípio. Não parece adequado gastar demasiado dinheiro a jogar no casino, por exemplo, se depois me falta dinheiro para a habitação, o vestuário, a alimentação. Da mesma forma, a gestão dos nossos afectos, instintos, decisões, deverá ter em conta o princípio de totalidade ou do bem total. Não basta procurar o prazer, sexual ou outro, apenas pelo prazer, porque ele me satisfaz, aqui e agora. Há que viver a experiência do prazer no contexto total da minha existência, do meu projecto de vida, e não apenas em relação a um qualquer momento ou a uma qualquer situação desligados desse contexto.
7- A Igreja Católica parte de uma concepção de ser humano como um ser-de-relação. É a qualidade das relações interpessoais que torna as pessoas cada vez mais pessoas. Por conseguinte, tudo o que leve à banalização das relações diminui as pessoas. As relações sexuais são um género muito especial de relações porque inclui um nível de complexidade e de intimidade que não se encontra noutras relações. Para a Igreja Católica, se é verdade que é através das relações interpessoais que os seres humanos se exprimem, então as relações sexuais permitem aos mesmos seres humanos um nível de expressão muito mais profundo e complexo que outros tipos de relação. As relações sexuais são expressão de um amor amadurecido entre dois seres humanos, um homem e uma mulher,. Por conseguinte, se não se pode brincar ao amor, também deve ser verdade que não se pode brincar às relações sexuais. Creio que estes princípios permitem compreender a posição da Igreja Católica em muitas questões concretas.
8- A Igreja Católica tem uma concepção da relação sexual entre dois seres humanos que supõe que o sentido dessa relação é o de realizar uma união de complementaridade total entre eles, uma complementaridade que é física, afectiva e mental. É a partir desta concepção que o amor homossexual é visto como uma forma de relação que não está ao nível da relação heterossexual. A Igreja Católica parte ainda do pressuposto que esta complementaridade total leva à união profunda dos esposos e à procriação como fruto dessa união, um fruto que só se torna possível quando os esposos não se fecham na sua relação amorosa mas se abrem à possibilidade de transcenderem, de olharem para além de si mesmos. Ao contrário do que algumas pessoas pensam, a Igreja Católica não afirma que a relação sexual no casamento tem apenas como objectivo a geração de filhos.
9- A argumentação da Igreja Católica em matéria de moral em geral e de moral sexual em particular recorre ao conceito de lei natural, um conceito nem sempre bem compreendido, talvez mesmo no interior da própria Igreja Católica. Num documento da Comissão Teológica Internacional, afirma-se o seguinte:
“Chamamos lei natural ao fundamento de uma ética universal que procuramos elaborar a partir da observação e da reflexão sobre a nossa natureza humana comum. É uma lei moral inscrita no coração dos seres humanos e da qual a Humanidade adquire uma consciência crescente à medida que avança na História. Esta lei natural não tem nada de estático na sua expressão; não consiste numa lista de preceitos definitivos e imutáveis. É uma fonte de inspiração que se manifesta sempre na procura de um fundamento objectivo para uma ética universal” (Comissão Teológica Internacional, “À procura de uma ética universal: um novo olhar sobre a lei natural”, nº 113)
O mesmo documento afirma também que “a moral não pode limitar-se a produzir normas” (nº 56), e que “em moral, a pura dedução silogística não é adequada” (nº 54)
10- Como conclusão, creio ser fácil compreender do acima exposto por que razão a Igreja Católica considera que uma educação sexual que se centre em tornar acessível aos jovens os anticonceptivos e as técnicas do seu uso não passa de uma caricatura da educação sexual e, em última instância, do amor.
P. Alfredo Dinis,sj
9 de julho de 2011
DOIS FÍSICOS CONVERSAM SOBRE A FÉ (7)
Obrigado pela resposta. Há medida que as nossas cartas se sucedem, avolumam-se as questões que gostava de tratar individualmente. Contudo, como temos de seguir uma linha, vou cingir-me às questões que levantas explicitamente, não sem antes abordar alguns dos teus parágrafos na última carta.
Começaste por abordar de novo a grande questão da existência de princípios universais. Apresentaste, e com razão, o argumento de que os vários, diferentes, sistemas morais, podem ser diferentes vertentes reflectindo os “mesmos princípios universais e absolutos que não foram ainda completamente desvelados”. O itálico da minha autoria, mostra que implicitamente assumes a existência de tais princípios universais, como já o afirmaste. Todavia, a existência de sistemas morais diversos é um facto. A existência de princípios absolutos subjacentes é uma assumpção. E se pretendermos provar essa assumpção verdadeira ou falsa, deveremos primeiro partir da existência dos vários sistemas morais espalhados pela história e pela geografia. Somente depois, e se se provar a existência de tais princípios absolutos, se poderá colocar a questão da inteligibilidade de tais princípios, onde o teu “ainda” fará sentido. Antes disso, deveremos deixar a questão da existência do absoluto, pelo menos, em aberto.
Abordas depois que “reconhecer que existe no universo um princípio de persistência na vida é, de algum modo, uma ponte para a perspectiva cristã”. Entendo onde queres chegar, mas somente se implicitamente assumires algo – fora do que expus – de que a existência de um princípio, como este de “persistência”, tem subjacente uma razão funcional. De novo, assumes o absoluto aqui. Na minha perspectiva, nada à partida na Vida precisa de uma razão funcional para a vida existir e desenvolver-se tal como acontece.
Nota que se estou a usar o conceito científico de selecção natural como ilustração para explicitar como pode um sistema moral emergir sem princípios morais universais, isto não significa que necessite de uma “sustentação científica” como afirmas na tua última carta. Estamos a tratar de temas fora do âmbito científico. Penso que nisto estamos de acordo. A argumentação e contra-argumentação da existência de absoluto, no contexto presente pelo menos, não carece de sustentação científica. Concordo contigo que a minha visão ou perspectiva é “incompleta”, tal como o é a perspectiva religiosa. Não acho contudo que “por isso mesmo” seja “empobrecedora”. A visão científica do Mundo é incompleta. A visão religiosa também. Nem uma, nem outra são contudo pobres, parece-me.
Na tua carta ainda mencionas que “o princípio que subjaz à moral não é a mera sobrevivência, mas sim a aquisição de uma vida abundante e plena”. Penso que não te referes tanto a princípio mas sim à finalidade ou função da moral. Aqui reside o problema que in praxis ocorre frequentemente: sendo “uma vida plena” algo difícil de ser definido unanimamente por toda a humanidade – ao contrário da “mera sobrevivência” – torna-se necessário pré-definir quem ou o quê determinará quando é a vida de um indivíduo plena e quando não é. Deverá ser o próprio individuo a determinar da plenitude da sua vida? Se não for, quem será? Se diferentes grupos atribuírem autoridade a diferentes perspectivas, não estará isto na origem dos conflitos que já referi entre as várias perspectivas religiosas na procura de imporem a sua “definição” de absoluto, no caso concreto a sua definição de vida plena?
A tua resposta à minha pergunta é afirmativa: achas pessimista a concepção do ser humano ocupar um lugar não privilegiado e de não ser o fim último da história do Universo. E talvez a razão de achares tal concepção pessimista reside substancialmente na questão que levantas a seguir: “qual é, afinal, o sentido de todo o esforço humano se, à partida, ele está condenado ao fracasso?”
O início da minha resposta começa com questões: porque usas o termo “fracasso”? Porque impões à partida que a extinção eventual da nossa espécie implica uma existência fracassada? Sabendo eu, com certeza, que um dia morrerei, implica isto que tudo na minha existência pessoal será em vão e que terá sido uma existência fracassada? Precisarei de uma garantia de eternidade, enquanto individuo, para que a minha vida aqui e agora faça sentido? Penso que não.
E com isto inicio o término desta carta respondendo à tua questão: “Não te parece que a visão do Universo que defendes é pessimista, além de pôr em causa a dignidade do ser humano?” De forma nenhuma. O facto de não assumir o sentido da minha vida como reflexo de um sentido absoluto da existência não significa que o sentido que a minha vida e a dos outros tem para mim diminua a minha dignidade perante mim, perante os outros e perante o Universo. Nem sequer diminui a minha capacidade de contemplação do mundo à minha volta. Capacidade que vejo como resultado dos milhões de anos de evolução daqueles que me antecederam e que a mim, e a nós todos deram lugar. Lugar que nós daremos aos próximos que por aqui passarão. Cada teve, tem e terá as suas próprias razões de aplicar o princípio da persistência na Vida (ou não!). Se não o aplicar não haverá a sua continuidade. Se o aplicar, provavelmente algo ou alguém lhes sucederá.
Continuar não tem em si uma razão absoluta ou universal. Mas tem muitas razões, uma para cada um daqueles que já existem. Isto porque, independentemente da existência ou não de absoluto, tudo o que eu sou e faço intersecta e implica o acto de existir ou fazer existir. Tenho por isso somente razões para que, mesmo sendo ateu e sem assumir o absoluto, conferir também “inteligibilidade ao universo e à vida”, tal como fazem aqueles que perspectivam o universo e a vida assumindo a existência do absoluto em todas as suas dimensões.
Penso até, que a minha perspectiva se torna mais globalizante que a tua, uma vez que não se incompatibiliza com a tua. Em vez disso incorpora-a, tomando-a como um resultado da tua forma de estruturares a realidade na qual te situas. De outra forma: apesar de termos perspectivas muito diferentes, temos perspectivas compatíveis. Caso contrário não estariamos a dialogar sobre a fé desta forma. Concordas?
Um abraço,
8 de julho de 2011
NADA ME FALTARÁ, a última crónica de Maria José Nogueira Pinto
O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África
portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a "Mensagem" de Pessoa, quando eu tinha sete anos.
Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo,
o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra
coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina e a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria - , mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a Pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou - mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi-a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também servi o melhor que soube e pude. Bati-me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.
( Última crónica de Maria José Nogueira Pinto, escrita poucas horas antes da sua morte)
DOIS FÍSICOS CONVERSAM SOBRE A FÉ (6)
| (por lapso, ao texto 4, segue-se o 6) Caro Pedro, Obrigado pela tua resposta clara e directa. Estou de acordo que a nossa conversa se vai tornando cada vez mais interessante. O facto de existirem, em cada sociedade e ao longo da história, diferentes padrões morais não implica necessariamente, parece-me, a inexistência de critérios morais com carácter universal, nem que o progresso ao nível da moralidade seja uma quimera. Diria, antes, que cada sistema moral é, de algum modo, o reflexo de princípios universais e absolutos que não foram ainda completamente desvelados. Neste sentido, não existem códigos morais completamente desadequados, mas todos eles expressariam a seu modo uma escala de bem que os transcende. Tu próprio, aliás, admites que um mesmo princípio subjaz aos distintos sistemas morais que as diferentes sociedades foram elaborando. Alinhando com as abordagens naturalistas da moral, as quais têm nos modelos da sociobiologia a sua mais recente evolução, defendes que o aparecimento e sustentabilidade dos diferentes códigos morais têm a sua origem nas vantagens adaptativas que conferem às sociedades nas quais têm a sua origem. Trata-se, no fundo, de uma questão de sobrevivência. Os códigos morais que contribuem para a sobrevivência de uma sociedade acabam por subsistir. Apesar de mais vulnerável do que parece (viria a propósito analisar com algum detalhe a chamada falácia naturalista), esta abordagem tem certamente algo de verdade – além disso, reconhecer que existe no universo um princípio de persistência na vida é, de algum modo, uma ponte para a perspectiva cristã. Trata-se, contudo, de uma visão a meu ver incompleta e por isso mesmo empobrecedora. Mais, a transposição de um princípio da biologia – como é o da selecção natural – para o plano da cultura humana não tem, na minha opinião, suficiente sustentação científica, aproximando-se mais de uma opção de carácter ideológico. Outra diferença importante em relação à posição que defendeste na tua última carta prende-se com as origens do ser humano. Para o cristianismo o homem tem a sua origem na Vida (ou seja, Deus) e é na Vida, e não no nada, que está o seu fim. A ideia de que o homem surgiu mediante a selecção natural e um dia desaparecerá tem a virtude de sublinhar a incontornável contingência do ser humano – o homem não pode por si só manter-se na vida – , mas mostra-se incapaz de reconhecer a Vida que lhe deu origem, que permanentemente o sustenta e que constitui o seu fim. Estamos, pois, diante de duas concepções consideravelmente distintas do ser humano. Segundo a posição que defendes, o ser humano, que surgiu fortuitamente a partir do mecanismo de selecção natural, não ocupa nenhum lugar privilegiado no cosmos e está condenado à extinção. Para a tradição cristã, pelo contrário, o ser humano tem a sua origem na Vida que Deus é e o seu fim é a comunhão plena com esta Vida. Não é um mero acidente, mas o cume da ordem criada. Como afirma Teilhard de Chardin, o homem não é o centro do Universo, mas o vector do Universo. A tomada de posição em favor de uma destas narrativas acerca do ser humano não se pode fazer de forma estritamente racional. Trata-se, no fundo de uma opção teológica. Poderíamos tentar perceber, no entanto, as consequências de cada uma delas, consideração que me conduz à tua questão. Perguntas-me se a concepção do ser humano que apresentaste me parece pessimista. A meu ver sim. Aliás, se levada às suas últimas consequências parece-me até absurda. Qual é, afinal, o sentido de todo o esforço humano se, à partida, ele está condenado ao fracasso? A vida na contingência total é sufocante. Na verdade, mesmo quando dizemos que não existem absolutos acabamos por viver como se eles existissem, e para os encontrar bastaria perguntarmo-nos por aquilo que é capaz de nos mobilizar no mais profundo de nós mesmos. Por outro lado, a naturalização do ser humano conduz inevitavelmente à deflação da sua dignidade. O que somos é determinado pela nossa origem e pelo nosso fim. Se somos o produto de leis naturais cegas e estamos condenados ao fracasso (ou a uma sobrevivência quando muito casual) então todas as dimensões especificamente humanas mais não são do que epifenómenos. E a moral mais não é do que um manual de sobrevivência que trazemos incorporado. Realmente, se Deus deixa de ser a origem e o fim do ser humano, a sua dignidade perde o seu mais firme suporte, e a mais dramática consequência acaba por ser a eliminação daqueles que são mais frágeis. Como afirma o jesuíta francês Henri de Lubac, “a morte de Deus é a morte do homem”. Ao terminar queria devolver-te a questão que colocaste. Não te parece que a visão do Universo que defendes é pessimista, além de por em causa a dignidade do ser humano? Não te parece que a visão cristã confere maior inteligibilidade ao universo e à vida que a visão ateía? | |||
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