24 de outubro de 2011

Uma imitação requentada: Nota sobre o romance "O último segredo", de José Rodrigues dos Santos


O romance de José Rodrigues dos Santos, intitulado “O último segredo”, é formalmente uma obra literária. Nesse sentido, a discussão sobre a sua qualidade literária cabe à crítica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida, numa outra área, a história da formação da Bíblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam por outro, pensamos que pode ser útil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou não) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre.

1. Em relação à formação da Bíblia e ao debate em torno aos manuscritos, José Rodrigues dos Santos propõe-se, com grande estrondo, arrombar uma porta que há muito está aberta. A questão não se coloca apenas com a Bíblia, mas genericamente com toda a Literatura Antiga: não tendo sido conservados os manuscritos que saíram das mãos dos autores torna-se necessário partir da avaliação das diversas cópias e versões posteriores para reconstruir aquilo que se crê estar mais próximo do texto original. Este problema coloca-se tanto para o Livro do Profeta Isaías, por exemplo, como para os poemas de Homero ou os Diálogos de Platão. Ora, como é que se faz o confronto dos diversos manuscritos e como se decide perante as diferenças que eles apresentam entre si? Há uma ciência que se chama Crítica Textual (Critica Textus, na designação latina) que avalia a fiabilidade dos manuscritos e estabelece os critérios objetivos que nos devem levar a preferir uma variante a outra. A Crítica Textual faz mais ainda: cria as chamadas “edições críticas”, isto é, a apresentação do texto reconstruído, mas com a indicação de todas as variantes existentes e a justificação para se ter escolhido uma em lugar de outra. O grau de certeza em relação às escolhas é diversificado e as próprias dúvidas vêm também assinaladas.

Tanto do texto bíblico do Antigo como do Novo Testamento há extraordinárias edições críticas, elaboradas de forma rigorosíssima do ponto de vista científico, e é sobre essas edições que o trabalho da hermenêutica bíblica se constrói. É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorreções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe.

2. Chesterton dizia, com o seu notável humor, que o problema de quem faz da descrença profissão não é deixar de acreditar em alguma coisa, mas passar a acreditar em demasiadas. Poderíamos dizer que é esse o caso do romance de José Rodrigues dos Santos. A nota a garantir que tudo é verdade, colocada estrategicamente à entrada do livro, seria já suficientemente elucidativa. De igual modo, o apontamento final do seu romance, onde arvora o método histórico-crítico como a única chave legítima e verdadeira para entender o texto bíblico. A validade do método de análise histórico-crítica da Bíblia é amplamente reconhecida pela Igreja Católica, como se pode ver no fundamental documento “A interpretação da Bíblia na Igreja Católica” (de 1993). Aí se recomenda o seguinte: «os exegetas católicos devem levar em séria consideração o caráter histórico da revelação bíblica. Pois os dois Testamentos exprimem em palavras humanas, que levam a marca do seu tempo, a revelação histórica que Deus fez… Consequentemente, os exegetas devem servir-se do método histórico-crítico». Mas o método histórico-crítico é insuficiente, como aliás todos os métodos, chamados a operar em complementaridade. Isso ficou dito, no século XX, por pensadores da dimensão de Paul Ricoeur ou Gadamer. José Rodrigues dos Santos parece não saber o que é um teólogo, e dir-se-ia mesmo que desconhece a natureza hipotética (e nesse sentido científica) do trabalho teológico. O positivismo serôdio que levanta como bandeira fá-lo, por exemplo, chamar “historiadores” aos teólogos que pretende promover, e apelide apressadamente de “obras apologéticas” as que o contrariam.

3. A nota final de José Rodrigues dos Santos esconde, porém, a chave do seu caso. Nela aparecem (mal) citados uma série de teólogos, mas o mais abundantemente referido, e o que efetivamente conta, é Bart D. Ehrman. Rodrigues dos Santos faz de Bart D.Ehrman o seu teleponto, a sua revelação. Comparar o seu “Misquoting Jesus. The Story Behind who Changed the Bible and Why” com o “O Último segredo” é tarefa com resultados tão previsíveis que chega a ser deprimente. Ehrman é um dos coordenadores do Departamento de Estudos da Religião, da Universidade da Carolina do Norte, e um investigador de erudição inegável. Contudo, nos últimos anos, tem orientado as suas publicações a partir de uma tese radical, claramente ideológica, longe de ser reconhecida credível. Ehrman reduz o cristianismo das origens a uma imensa batalha pelo poder, que acaba por ser tomado, como seria de esperar, pela tendência mais forte e intolerante. E em nome desse combate pelo poder vale tudo: manobras políticas intermináveis, perseguições, fabricação de textos falsos… Essa luta é transportada para o interior do texto bíblico que, no dizer de Ehrman, está repleto de manipulações. O que os seus pares universitários perguntam a Ehrman, com perplexidade, é em que fontes textuais ele assenta as hipóteses extremadas que defende.

4. Resumindo: é lamentável que José Rodrigues dos Santos interrogue (e se interrogue) tão pouco. É lamentável que escreva centenas de páginas sobre um assunto tão complexo sem fazer ideia do que fala. O resultado é bastante penoso e desinteressante, como só podia ser: uma imitação requentada, superficial e maçuda. O que a verdadeira literatura faz é agredir a imitação para repropor a inteligência. O que José Rodrigues dos Santos faz é agredir a inteligência para que triunfe o pastiche. E assim vamos.



Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
© SNPC | 24.10.11

23 de outubro de 2011

Reptos teológicos perante o horror (I)

I.- BARBÁRIE E TEOLOGIA: QUESTÕES PENDENTES

Theodor W. Adorno perguntou-se, num célebre dictum, acerca da possibilidade de continuar a escrever poesia depois de Auschwitz. Queria significar assim a humanidade concretizada nos campos de extermínio como símbolo daquilo que é irreversível, irrevocável e imprescritível que, apesar da justiça, não pode ser reparado. Auschwitz teria levado a perder perdera toda a possibilidade de inocência humana definitivamente. Outros pensadores judeus (Hans Jonas, por exemplo) seguiram a esteira iniciada por Adorno e colocaram a questão de continuarmos a acreditar em Deus depois de Auschwitz. Seja como for, Auschwitz converteu-se no símbolo da barbárie humana, na expressão máxima dos catastróficos resultados da imoralidade, no paradigma do ignominioso silêncio perante o sofrimento e o atentado sistemático contra a dignidade humana. Expressão e parábola de até onde é capaz de chegar a degradação humana…

Alguns quiseram ver nos atentados do 11 de Setembro de 2001 uma intensificação da capacidade humana de infligir mal aos seus semelhantes. O 11-S seria o símbolo substituto de Auschwitz para exprimir o infeliz ingresso numa nova era de maldade, o expoente máximo daquilo que se acabou por denominar horrorismo, isto é, aquela violência que, apontando à casualidade da vítima, multiplica a imprevisibilidade dos efeitos. Encontramos a violência horrorista em todos aqueles casos em que as vítimas, inermes, devêm seres humanos em dissolução: os horríveis genocídios de todo o tipo, as modernas guerras hiper-tecnológicas que causam “danos colaterais”, o mártir que se suicida sacrificando a quem se encontra ao seu lado ou os sádicos torturadores desumanizados… O horrorismo choca duma maneira brutal precisamente porque quem o aplica não se limita à destruição da vítima, mas sucumbe à indiferença perante o sofrimento alheio. Seja como for, o 11-S teria sido um acontecimento, isto é, um facto que marcou o ponto de inflexão na percepção da realidade, um fenómeno que fracturou muitos pressupostos (sobre segurança, progresso…) porque é, ao mesmo tempo, manifestação de ideologias radicais, mas também expressão das patologias sociais que nos espreitam.

Muito disto tudo pode ser rastreado no 11-S. Alguns têm encontrado aqui a concretização mais extrema da perversão da geoestratégia malsã dos interesses políticos; outros têm descoberto a prova empírica dum choque de civilizações que nos conduziria a um futuro imediato nada animador; outros, finalmente, têm visto a manifestação explícita da incompatibilidade do Islão com a democracia. Para todos eles tem-se completado um ciclo, que abarcaria desde os atentados em Nova Iorque no dia 11 de Setembro de 2001 até a execução de Bin Laden em Abbottabad no dia 1 de Maio de 2011. Muito (talvez demasiado) haveria aqui para comentar: desde a suposta participação de Bin Laden nos atentados do 11-S até a complexa organização descentralizada da Al Qaeda… No entanto, interessa-nos muito mais centrar a nossa atenção numa perspectiva teológica, que leve em consideração aspectos tão decisivos como a ambiguidade das religiões e a urgência do diálogo inter-religioso.

Em verdade, são muitos os reptos teológicos que nos têm colocado os dez anos que transcorreram desde o 11-S. Assim, por exemplo, os textos sagrados partilhados por judeus, cristãos e muçulmanos estabelecem o imperativo de amar o próximo como ao próprio e a proibição da violência em nome de Deus, mas a condição humana parece inclinar-nos antes a odiar o próximo, explorá-lo, humilhá-lo e martirizá-lo. Pareceria que a violência está inscrita no mais íntimo do ser humano e que as civilizações (religiões incluídas) têm fracassado na sua tentativa de impor um pouco de critério que possibilite o convívio humano. Contraste inevitável entre natureza e cultura, conflito permanente entre instinto e educação. Dalguma maneira, este tem sido o debate da humanidade desde as suas origens: tem a Teologia algo a dizer perante a condição humana (contingência, vulnerabilidade, fragilidade, pecado…) que nos mergulha numa espécie de contradição entre o bom e o mau, o aconselhável e o reprovável?, será que pode a Teologia ilustrar-nos acerca do perdão entendido como gratuidade e magnanimidade, como vontade de retomar as relações, como radicalidade do sacrifício disposto a instaurar uma nova ordem na realidade?, está a teologia capacitada para desafiar a profunda memória do nosso tempo, que nos incapacita para descobrir a dimensão salvífica na densidade da história e a singularidade de cada pessoa?, porventura tem a Teologia uma resposta ao mal enquanto desafio que força a pensar doutra maneira, ao mal enquanto provocação que obriga a reconsiderar os atributos de Deus?, será que pode a Teologia habilitar-nos para nos enfrentarmos com a dimensão dogmática das religiões e para nos mostrar a capacidade pacificadora e resistente da espiritualidade vivida com profundidade que, longe de separar as pessoas, as une naquilo que há de essencial?, ajudar-nos-á a Teologia a construir uma identidade cosmopolita num mundo globalizado, respeitosa ao mesmo tempo com a unidade e a diversidade, com o particularismo e o universalismo?, pode colaborar a Teologia na construção duma ética global num contexto de interculturalidade, sendo sensível à actual pluralidade e evitando ao mesmo tempo os escolhos do subjectivismo, do relativismo e do fundamentalismo?, será que a Teologia, de dimensão utópica, é ainda capaz de insuflar esperança perante a fascinação do niilismo, de prometer libertação perante a sedução da banalidade, de apelar à responsabilidade perante a tentação da indiferença, de pregar o messianismo reconciliador perante o avanço esmagador dos interesses criados? (...)

MARÍN I TORNÉ, Francesc-Xavier (Professor da Universidade Ramón Llull e elemento do Conselho Assessor para a Diversidade da "Generalitat de Cataluña") - Religión, Violencia y Diálogo. Diez años después del 11-S, in Pliego VIDA NUEVA 2.767- Madrid: PPC, 2011.

20 de outubro de 2011

pequeno

Do que nos recordamos melhor? Dos passos,
da sucessão encadeada de movimentos que nos conduziu a um altar…
[o batismo.
O teste, o beijo, a praxe, a festa,
[o excesso, o pouco, o exclusivo.
O geral.
O íntimo, o público, o particular, o universal, o caraterístico, o indistinto…
[e um altar.
E as histórias que encheram a história de cada um.
Um lugar para cada momento,
e o pão e o vinho, e o corpo e o sangue, e uma folha de papel
[e uma prece...
de joelhos e de mão abertas, um arremesso aos céus, uma esperança e um consolo.
Comunhão.

A vida é um suspiro pelo absoluto, despertado por um toque, ainda que ínfimo, do Outro. Alguém deixou as notas de uma música perdida nos tempos, encontrámos as saudades de uma outra harmonia… e é atabalhoadamente que tentamos regressar lá.

A pequenez, confiada à bondade, em esperança.



[No dia 15 de outubro de 2011, sábado, o António, o Francisco, o Ricardo e o Nélson
fizeram votos perpétuos de Pobreza, Castidade e Obediência,
e promessa de entrar na Companhia de Jesus.
]

18 de outubro de 2011

Ciência e religião – o caso do P. Georges Lemaître


1.Celebram-se este ano os 80 anos da publicação em inglês de um célebre texto do Padre Católico Georges Lemaître, no qual este sacerdote e cientista apresentou a hipótese que viria a ser mais tarde chamada teoria do big bang. O P. Lemaître é hoje considerado o proponente desta teoria. Isto já seria muito incómodo para muitas pessoas, sobretudo as que continuam a insistir que há uma incompatibilidade radical entre ciência e religião, e que a ciência avança tanto mais depressa quanto mais depressa se abandonar a religião. O P. Lemaître mostra que tal não é verdade. Mas a questão tornou-se mais complexa.

2.Com efeito, o texto original francês do P. Lemaître foi publicado em 1927, e a tradução inglesa, publicada quatro anos depois, omite importantes passagens do original, nas quais está incluída a que é conhecida como a Lei de Hubble. A descoberta de que a luz que nos chega das galáxias se desloca para o vermelho, o que indica que elas se estão a afastar, já está no texto original francês, mas diversas passagens deste texto foram retiradas na tradução inglesa. Hubble, que publicou um texto posterior ao do P. Lemaître, ficou até hoje com os louros da descoberta.

3.Esta questão provocou já alguns estudos e debates em publicações de relevo como a Revista Nature. A questão em debate é a de saber quem eliminou a as passagens fundamentais na tradução inglesa do texto do P. Lemaître, e por que razão o fez. Algumas pessoas consideram que o próprio Hubble poderá ter feito isso, mas dificilmente se poderá chegar a uma conclusão, uma vez que se desconhece quem foi o tradutor e parece não haver hoje modo de o vir a saber. Há, porém, uma questão de justiça: a de reconhecer o mérito do P. Lemaître.

4.É também possível que haja muitas pessoas que não estejam muito interessadas na verdade histórica, sobretudo porque isso vai contra a tese de que quem tem uma fé religiosa não está interessado na verdade científica, nem sequer tem competências para fazer avançar a ciência, porque a fé não deixa pensar, ter espírito crítico e criativo. O caso do P. Lemaître mosta bem como estão enganadas as pessoas que pensam assim.

9 de outubro de 2011

Acima de tudo Deus e a Sua vontade.

- O que aconteceu? Diz-me o que aconteceu.
- O Pe. Luís foi para o Céu…
- Morreu?
- Foi para o Céu, meu Amor, foi para o Céu…

Não posso compreender a morte e muito menos a vida. Eu gostava do Pe. Luís e não posso compreender o sentido da sua finitude. Não posso compreender o sentido do que não é eterno. Quem é aquele que ama e compreende a morte daqueles a quem ama? O afectivo é o efectivo, dizia Santo Ireneu, e efectivamente a morte é absurda. Ela dilacera os nossos afectos, tritura-nos na cronologia da saudade, joeira-nos como trigo e lança-nos no inferno da nossa incredulidade.
E no entanto permanecemos aqui, vivos, e não estamos livres da nova vida que constantemente vem ao mundo: filhos, sobrinhos, netos, os futuros vizinhos, cada criança que nasce e a quem, naturalmente, vamos amando. A vida continua, dizemos. A morte continua, vemos. É a vontade de Deus, repetimos. E a verdade… a verdade permanece do outro lado do abismo que existe entre o já e o ainda não, a morte que tudo separa.

O Pe. Luís Archer morreu hoje. Deixou-nos um testemunho contrário a quanto acabo de dizer. Cumpriu um destino que ele próprio não esperava, levar uma vida dedicada à investigação científica, quando tudo o que ele queria era ser sacerdote, receber tudo de Deus, oferecer-se todo no crisol da existência onde o Pai purifica o sem sentido e o absurdo que ainda sobra em nós. Paradoxalmente descobriu que a sua vontade de servir não era nada se não fosse uma vontade pedida e recebida. Foi assim que acabou por ser sacerdote do Senhor e cientista do Senhor ao mesmo tempo. Abnegou-se sem se entristecer e recebeu a alegria serena dos santos. O Pe. Luís, percebo agora, soube deixar-se morrer com aceitação durante toda a vida, porque acreditou mais na graça de Deus que nas suas próprias forças e determinações. Todo o amor seria vão sem eternidade. E o que é mais, toda a vontade é pobre se não for recebida do infinito.
Pe. Luís, obrigado por ter levado leal e humildemente a tocha ardente da esperança até ao seu destino. Obrigado por nos ajudar a continuar. Vemo-nos no Céu.
 

4 de outubro de 2011

Deus, acaso e determinismo


Até há pouco tempo, o universo e todos os acontecimentos que nele tiveram lugar ao longo dos biliões de anos da sua existência, desde o big bang, foram considerados de uma forma determinística, tanto por cientistas como por filósofos e teólogos. O determinismo conduziu a duas visões do mundo muito diferentes no que se refere à existência de Deus. Para Laplace, uma vez que tudo o que acontece no universo está determinado pelas leis naturais, não necessitamos da hipótese de Deus para explicarmos a formação do universo e a sua evolução. Uma visão contrária têm tanto os deístas como os teístas para os quais o universo se rege por leis próprias e é de acordo com elas que todos os processos naturais têm lugar. Tais leis têm a sua origem num Criador.

O acaso foi sempre difícil de entender e aceitar. Einstein é certamente o cientista mais conhecido que teve grandes dificuldades em aceitar a realidade de acontecimentos aleatóriso ao nível quântico da matéria. Ficou célebre a sua afirmação: “Deus não joga aos dados!” Hoje, porém, os cientistas sabem que processos aleatórios acontecem com frequência, e que isto é consistente com a ordem que encontramos no universo e na vida. Acontecimentos que não se podem prever parece não se poderem controlar. Isto parece à primeira vista ser uma má notícia tanto para os cientistas cristãos como para os teólogos. Se Deus não controla todos e cada um dos processos que têm lugar no universo a todos os níveis, então a sua omnipotência fica ameaçada.

Hoje é geralmente aceite que no final do período Pérmico, há cerca de 225 milhões de anos, cerca de 96% de todas as espécies então existentes desapareceram. Neste caso, poder-se-á ainda continuar a afirmar que existe um plano divino no universo, um sentido para a vida em geral e para a vida humana em particular? Alguns cristãos temem que a resposta seja negativa. Esta é sem dúvida a razão pela qual William Demsbski, um dos proponentes do ‘propósito inteligente’, procura eliminar o acaso dos fenómenos naturais, como revela no título de uma das suas obras: The Design Inference: Eliminating Chance through Small Probabilities.

David Bartholomew, um cientista cristão, formulou a questão nos seguintes termos: “O problema consiste em reconciliar o papel central que o acaso tem na explicação científica do mundo e a narrativa teológica acerca das relações de Deus com o mundo. O acaso parece indicar que há uma ausência de plano. Esta antiga fonte de tensão adquiriu uma nova actualidade com a proposta do movimento conhecido como ‘projecto inteligente’, que procura eliminar o acaso em favor do projecto. A teoria quântica, que coloca o acaso no núcleo da matéria, coloca essencialmente a mesma questão aos teólogos. “ (D. Bartholomew, God, Chance and Purpose. Can God have it both ways?, Cambridge, UK: Cambridge University Press, 2008,p. 1).

Torna-se necessária uma nova compreensão de como o acaso não só não é um obstáculo à fé num Deus omnipotente e criador, como é indispensável a um Deus omnipotente que cria o universo e a vida tal como os conhecemos.

15 de setembro de 2011


II Jornadas Fé e Ciência
Deus, Acaso e Determinismo


Terão lugar no próximo dia 8 de Outubro as II Jornadas Fé e Ciência, subordinadas ao tema “Deus, acaso e determinismo.” As Jornadas são realizadas pelo Centro de Estudos Filosóficos e Humanísticos da Faculdade de Filosofia, e inserem-se na inserem-se no Projecto de Investigação “Ciência, Filosofia e Teologia em confronto e diálogo”.
O tema proposto como objecto de investigação é o da implicação do conceito de ‘acaso’ na ideia de um Criador. O problema é colocado de um modo claro por David J. Bartholomew no seu livro God, Chance and Purpose. Can God have it both Ways?.da seguinte forma:

“The problem is to reconcile the central place which chance has in the scientific account of the world with the theological account of God’s relationship to the world. Chance suggests lack of purpose; theology speaks of purpose. This long-running source of tension has come to the fore again in the claims of the Intelligent Design movement, which aims to eliminate chance in favour of design. Quantum theory, which places chance at the heart of matter, poses essentially the same question for theologians.”