13 de novembro de 2011

Talentos

«Um homem ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.» A história é conhecida: um ganha cinco e produz mais cinco; outro, de dois cria mais dois e o que recebe um esconde o único que recebe. Com medo.

Ouço sempre esta passagem do Evangelho como uma chamada de atenção importante na minha vida. Hoje, sobretudo, procurei escutá-la num sentido mais comunitário: olhar não só para mim, mas alargar o meu olhar à família a que pertenço: a Igreja. E veio-me a questão: e nós, como Igreja, qual dos três servos seríamos? De facto, muito nos é confiado, muito nos é dado. Mas, como temos posto a render o muito que recebemos?

Confesso que, algumas vezes, me sinto preocupado com este aspecto. Em nome de uma “tradição” – por vezes mal entendida – julgo que também nós enterramos o Tesouro que recebemos. Que temos medo do risco. Somos conservadores, no pior sentido que esta palavra possa ter. Tememos estar na linha da frente, não somos arrojados nas propostas que fazemos. Temos medo de denunciar a injustiça, a opressão, o poder despótico, a falta de liberdade. Preferimos repetir modelos. Preferimos, muitas vezes, manter tudo como está. Parece mais seguro… Mas nesta parábola, aquele que teve medo acabou por ser rejeitado pelo seu senhor.

Como dizia, o Evangelho de hoje poderia levar-nos, nos quatro cantos do mundo onde haja catolicismo, a um exame de consciência sobre o modo como temos arriscado ser mais de Cristo. S. Paulo, na 2ª leitura, alerta-nos: «não durmamos como os outros».

Mt 25, 14-30

12 de novembro de 2011

Útero de caminhos

Capela Árvore da Vida, Seminário Conciliar S.Pedro e S.Paulo, Braga. Pelo fotógrafo Nelson Garrido.


Chegamos ao fim de mais uma Semana dos Seminários, levamos connosco, no coração, todos aqueles que se entregam ao Senhor Deus desta forma específica e necessária, neste ramo que nasce do Tronco maior que é a Árvore de Deus, a Igreja espiritual, mas também a Igreja de carne. Ambas a mesma Igreja.

Nós, os jesuítas que também estamos numa espécie de seminário, não nos esquecemos daqueles que cuidam cada canto e cada recanto deste projecto de Deus, os seminaristas, padres e futuros padres que conduzirão o sonho até ao seu destino. Vivemos, já e ainda não, de mãos dadas entre nós e ao mesmo Jesus.

É necessário orar pelos seminários, que são útero onde se geram caminhos para o mundo. É necessário procurar os sacerdotes, que são serviço de Deus no meio da Igreja. Sobretudo, é necessário entregar-se radicalmente, de que forma for, à peregrinação contínua do homem em direcção a Deus.

Fica aqui, de forma mais afectiva e efectiva, uma prece de força e de vigor para os seminários da cidade de Braga...
  ... cheia de gratidão.

9 de novembro de 2011

Ao meu encontro


Tenho um copo e tenho sede,

olho, pergunto, anseio.

O tempo passa e eu, sem água.

Tenho sede, e tenho um copo.

Urjo, pergunto, olho.

Ando à procura de água, e não a encontro,

e tenho sede.


E o copo sou eu,

e a sede, minha angústia,

e a água és Tu,

e eu, quem te procura.


Tenho um abrigo e tenho frio,

comprovo, forço, canso-me.

Passa o tempo e eu, sem chave,

tenho frio, e não consigo entrar.

Desisto, forço, fracasso.

Busco a chave, mas não a encontro,

e tenho frio.

E o abrigo é tua casa,

e o frio, minha luta,

e a chave és Tu,

e eu quem anda à tua procura.


E busco-te sempre

chave, água ou vento,

mas busco mal,

pois não olho para dentro.


E acabo por acreditar que,

embora sem pretender,

adivinho: és Tu

quem sai ao meu encontro.


(Miguel Diez, in “Silencios guiados”, Valladolid: 2008)

5 de novembro de 2011

Todos os Santos e Beatos da Companhia de Jesus

Esta é uma festa própria da Companhia de Jesus, na qual queremos lembrar de forma especial todos os nossos irmãos que viveram a sua vida entregando-se aos outros de tal modo, que o seu coração estava onde está a vontade de Deus.

Neste dia não celebramos apenas os nossos Santos e Beatos reconhecidos pela Igreja, mas sim TODOS, querem sejam conhecidos ou desconhecidos, de hoje e de ontem, em África ou na América, na Ásia, Europa ou Oceânia. É um dia de alegria, pois sabemos, com testemunhos passados e actuais, que há jesuítas por esse mundo fora que vivem a sua vida trabalhando com Cristo pela salvação dos homens e que, tendo-O seguido nos trabalhos, também O seguiram na glória (Cfr. EE 95).

Infelizmente, muitas vezes as histórias que nos chegam dos chamados “santos de altar” são de tal modo fantasiadas que nos levam a construir ideais inalcançáveis de santidade, ou mesmo associando a santidade como algo de muito aborrecido. Mas se entendermos santidade como um desejo de alguém que, sabendo-se fraco, não desiste de querer ser mais compassivo, misericordioso, bondoso para com o próximo, isto é, alguém que não desiste de procurar em primeiro lugar o bem do outro, então passamos a ter um entendimento de santidade diferente. Passa a ser visto como um dinamismo presente até ao fim dos nossos dias, de abertura ao Amor de Deus em mim, para O entregar aos outros.

A santidade é um esvaziar-se da ilusão da auto-suficiência, é dar espaço a Deus para que Ele possa ser tudo em mim.

Uma vez que esse amor de Deus não faz acessão de pessoas, a santidade de cada ser humano está ao alcance de todos. Se a santidade fosse perfeição, Jesus teria certamente escolhido outros apóstolos para andar com Ele, pois Jesus era o primeiro a compreender que santidade não é ser santinho nem significa que se faça tudo bem.

Então, porque é que nós ainda temos dificuldade em perceber que a santidade não se alcança por mérito, mas sim por graça?

“Eu, teu Deus, conheço a tua miséria,

os combates e as tribulações da tua alma

a fraqueza e as enfermidades do teu corpo,

conheço a tua frouxidão, os teus pecados, as tuas falhas:

mesmo assim, Eu te digo:

dá-me o teu coração, ama-me como és.”

(autor desconhecido)

Os santos e beatos da Companhia de Jesus são todos aqueles que se aceitaram como eram e se entregaram inteiramente ao amor de Deus…

que as suas vidas sejam hoje celebradas com infinita alegria!

3 de novembro de 2011

Beato Rupert Mayer, jesuíta.


Há 66 anos falecia, no terceiro dia daquele Novembro, Rupert Mayer, padre jesuíta.

A sua vida testemunha os anos difíceis que assolaram a Europa e o mundo, na primeira metade do século xx. Da Primeira Grande Guerra guardou, como cicatriz do desejo de confortar os que formigavam na linha frente dos disparos, uma Medalha de Honra e uma perna estilhaçada. Da Segunda, a sua insurreição contra o movimento Nacional Socialista somou-lhe perseguições e três prisões sucessivas, a última das quais no campo de concentração Oranienburg-Sachsenhausen. Para evitar conceder-lhe uma nova “Medalha de Honra” (a do martírio, com então se dizia), os oficiais do campo enviaram-no para uma Abadia beneditina, onde permaneceu como recluso convalescente. Finda a Guerra, regressou de imediato ao púlpito da sua resistência, na igreja de São Miguel, em Munique. Fragilizado, viria a falecer poucos meses depois. Cumpria-se, então, a sua persistente vontade de estar próximo dos que sofrem. Por isso foi tão humano. Por isso é tão de Deus.

1 de novembro de 2011

Todos os Santos

Tadao Ando - Igreja da Luz, Osaka, Japão
Neste dia celebramos os santos todos de uma vez, como que elogiando a unidade e a comunhão que a santidade pressupõe. De facto, ser santo implica ver a união de todas as coisas e sobretudo de todas as pessoas entre si e com Deus. Há uma expressão tipicamente cristã de que gosto muito, "Comunhão dos Santos". Ela recorda-nos, mais uma vez, que a santidade está profundamente relacionada com essa ligação íntima entre as pessoas. Sem isto não há santidade, não há experiência de Deus, não há Igreja, não há nada.
O centro desta relação há-de ser sempre Alguém, nunca uma coisa, por isso vale a pena rever, neste dia, onde temos posto a tónica da nossa atenção, dos nossos afectos e da nossa acção, comprometendo-nos a abrir a porta à união com todas as pessoas sem fazer acepção de umas em detrimento de outras. 
É por isso, então, que devemos começar por aquelas que nos precederam e já partiram, celebrando com aqueles com quem vivemos hoje e abrindo-nos, por fim, à concretização da Santidade de Deus no meio de nós em cada criança que é dada à Luz.
Termino citando a Oração das Oblatas que se reza hoje nas igrejas, porque me parece que expressa bem esse sentimento largo que nos pode preencher:

“Aceitai benignamente, Senhor,

os dons que Vos apresentamos
em honra de Todos os Santos
e fazei-nos sentir a intercessão
daqueles que já alcançaram a imortalidade”.

Que assim seja.

31 de outubro de 2011

Santo Afonso Rodrigues


Afonso Rodrigues, nasceu em Segóvia, em 1533, e aos 38 anos entrou na Companhia de Jesus como Irmão em 1571, após a morte da sua mulher e dos dois filhos. Ainda como Noviço é enviado para o Colégio de Monte Sião, em Palma de Maiorca. Entre outros trabalhos de casa é sobretudo como porteiro que, durante 46 anos, colabora na vida do Colégio.

Pelos seus apontamentos podemos encontrar, deste porteiro simples, humilde e acolhedor, uma vida interior de enorme intimidade com Jesus e Nossa Senhora. Um ser contemplativo também na acção marca a sua espiritualidade, encontrando o amor de Deus em tudo. “Já vou, Senhor!” – desta forma, quando tocavam à porta, o Santo dirigia-se para a abrir como se tivesse Deus tocado à campainha.

Afonso Rodrigues morreu aos 84 anos em Palma de Maiorca a 31 de Outubro de 1617. Foi canonizado por Leão XIII em 1888.