Equívoco fundamental: O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.
Décimo segundo equívoco: A imagem bíblica de Deus. A imagem de Deus que os novos ateus recolhem da Bíblia baseia-se em passagens do Antigo Testamento nas quais Jahvé é descrito com traços vingativos e cruéis, particularmente nos livros históricos e naqueles em que são codificadas leis de natureza diversa, basicamente os livros do Pentateuco: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Dawkins considera que “o Deus do Antigo Testamento é possivelmente a personagem mais desagradável de toda a ficção: ciumento e orgulhoso de o ser; um mesquinho, injusto e implacável fanático do controlo; responsável, vingativo e sanguinário por actos de limpeza étnica; um tiranete misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista e caprichosamente malévolo. A Desilusão de Deus, p. 57)
O autor ignora por completo as razões pelas quais Deus surge nos textos bíblicos com características contraditórias, uma vez que o mesmo Deus é também apresentado como misericordioso e compassivo. Ignora todo o processo histórico e cultural de formação dos livros que constituem a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, uma ignorância que se estende em geral a todos os demais ateus contemporâneos que têm publicado ensaios e livros de ataque ao cristianismo com base no texto bíblico.
Os novos ateus evitam cuidadosamente as passagens bíblicas em que a imagem de Jahvé é exactamente oposta à de um deus tirano, sobretudo nos salmos e nos livros sapienciais e proféticos como, por exemplo: “Sião dizia: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim».Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta e não ter compaixão do filho das suas entranhas? Mas ainda que ela se esqueça, Eu não te esquecerei.” (Is 49, 14-15). Neles, Deus aparece como um ser compassivo, interessado numa aliança permanente com o seu povo, prescrevendo atitudes de ajuda aos mais pobres como os órfãos e as viúvas, e aliando o culto à prática da justiça. A caridade surge, particularmente nos escritos proféticos, como o verdadeiro culto que agrada a Deus, e o mesmo acontece nos escritos do Novo Testamento.
Dawkins refere-se, por exemplo, à crueldade de Deus ao afogar através do dilúvio toda a Humanidade com excepção da família de Noé. O autor reconhece que a narração bíblica do dilúvio é muito semelhante a outras narrações existentes em diversas culturas. Com base nesta constatação ele deveria estar em condições de interpretar a narração bíblica do dilúvio num sentido não literal. Mas não o faz. Muito pelo contrário, afirma: “a história de Noé é aterradora. Deus tinha os humanos em fraca conta, e por isso (com excepção de uma família) afogou-os a todos, incluindo crianças, e assim como quem dá um bónus, afogou também o resto dos (presumivelmente inocentes) animais.” (A Desilusão de Deus, p. 286). Dawkins coloca-se assim uma vez mais ao lado dos fundamentalistas cristãos que fazem uma leitura literal do dilúvio, mesmo contra todas as evidências factuais que demonstram a impossibilidade de um tal acontecimento.
Dawkins e os demais autores do novo ateísmo ignoram que os diversos textos bíblicos foram redigidos em épocas, circunstâncias e culturas diferentes, e ignoram igualmente que a Bíblia é considerada pelos cristãos como palavra de Deus mas que é, naturalmente, expressa em linguagem humana.
Tendo tudo isto em consideração, torna-se evidente que se deve distinguir no conteúdo bíblico o que é essencial do que é circunstancial, e que se deve ter em mente o sentido do conjunto dos textos bíblicos. É o sentido do conjunto, bem como a sua contextualização histórica e cultural, que permite chegar ao sentido coerente de todas as afirmações bíblicas. Isto pressupõe que a descoberta de Deus pelo povo judeu se foi fazendo lenta e progressivamente, ao mesmo tempo que este Deus se ia revelando também lenta e progressivamente. Por conseguinte, há que considerar que a imagem de Deus que se encontra na Bíblia é um conjunto de imagens sucessivas cujo pleno significado se atinge somente em Jesus Cristo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos, e aos cegos o recobrar da vista; a mandar em liberdade os oprimidos; a proclamar um ano de graça do Senhor.” (Lc 4, 18-19)