27 de novembro de 2011

Toca esperar

Toca esperar. Não é imposição. É uma necessidade. Viver a espera é viver à espera. Poucos mecanismos são tão dinamizadores como aquele instalado no profundo de quem se sente incompleto. Uma carência constitutiva despoja o Homem de toda a ilusão de perfeição. Entretanto, a pessoa humana continua a transbordar dignidade. Não existe incompatibilidade possível entre a insuficiência de transcendência e a intensidade da dignidade. O convívio é amável no interior de cada ser humano. Mas, sobretudo, ardentemente discreto. Tão discreto que muitos ignoram a energia irrepreensível de quem se sente dinamizado. Impelido a esperar, necessitado de ser completado.
O ritmo litúrgico não se detém. O esplendor do Rei de tudo dá lugar ao Menino nascido do nada. Este Rei foi aquele Menino. Este Menino será aquele Rei. Não é um paradoxo biográfico, mas a incapacidade de Cristo se esgotar na vida de qualquer um dos seus crentes. Não há vida humana capaz de abranger por completo o mistério daquela outra divina, nascida na terra. Nascida para dar vida. Esperada por ser semente de futuro.

Começa o Advento, celebremos a privilegiada necessidade de esperar.

26 de novembro de 2011

S. João Berchmans

Eis S. João Berchmans, patrono dos juniores da Companhia de Jesus. O juniorado é o tempo na formação de um jesuíta que se segue ao noviciado. É o tempo de estudo da Filosofia e das Humanidades.

Jan Berchmans nasceu na Bélgica, em 1599. Desde novo que toda a gente gostava dele, tanto em casa como entre os amigos, por ser um daqueles rapazes meigo e alegre, bem-disposto e irreverente, que sabia dizer a palavra certa no momento certo.
Desde novo que percebeu que o Senhor o chamava à vida religiosa e acabou por entrar no noviciado da Companhia de Jesus, em 1616. Os pais não estavam de acordo, mas Jan escreveu-lhes uma carta explicando as suas intenções, dizendo que é certo que aos amigos e aos pais lhes custa separar-se daqueles que amam, (…) mas o meu espírito e o meu coração não têm paz enquanto não encontrarem Aquele a quem amam. Resolvi por isso entregar-me de todo o coração a Cristo Jesus e combater por Ele na sua Companhia.
Quando acabou o noviciado, foi para o juniorado em Antuérpia, e daí mandaram-no estudar para Roma, para onde foi fazendo todo o caminho a pé. Poucos meses depois de chegar a Roma, adoeceu e acabou por morrer, com 22 anos.
Durante o seu tempo como jesuíta, destacou-se não só por fazer do ordinário da vida algo extraordinário ao serviço de Deus, mas também pelo fervor com que vivia as Constituições da Companhia.
Foi canonizado em 1888, pelo Papa Leão XIII.

Há muitas histórias de santos na Igreja Católica, homens e mulheres que se distinguiram pelo seu amor a Deus, pelo serviço prestado a quem mais precisava, pelo ardor da oração. João Berchmans tinha tudo isto, mas o que faz dele especial é a maneira como, vendo Deus em todas as coisas, fazia tudo tendo Cristo – seu Senhor – no centro e como modelo. Para nós, juniores da Companhia de Jesus, é um estímulo em tempo de estudo saber que de cada vez que abrimos um livro o fazemos para louvar a Deus, para aprender e pôr o conhecimento ao serviço da Igreja e do Mundo. Não é o muito saber que sacia a alma, mas o sentir e gostar as coisas internamente, diz S. Inácio nos Exercícios Espirituais. Vivendo assim, faremos – como S. João Berchmans – da nossa vida lugar e presença de nosso Senhor.

23 de novembro de 2011

Em tudo amar e servir – Beato Miguel Pró, mártir

Foi há 100 anos atrás que Miguel Agostinho Pró entrou no noviciado da Companhia de Jesus, no México. Quem diria que este rapaz que entrara para jesuíta com apenas 20 anos viria a dar tanto que falar?

Miguel Pró era um rapaz conhecido pelo bom humor e pela extraordinária capacidade de gerar momentos de grande alegria aos que com ele conviviam. Ao longo do tempo dos estudos, sobretudo enquanto estudava Teologia, este “apóstolo da alegria” sofreu grandes crises de saúde, colocando à prova a sua capacidade de passar por contrariedades.

Precisamente por exigentes provações viria a passar este jesuíta mexicano, quando no seu país, em 1926, se iniciou a perseguição oficial contra a Igreja Católica. Descrevem os relatos da época, não muito longínqua, que foram tempos incrivelmente duros para quem se assumia Católico, então imagine-se o perigo que correria um sacerdote como era Miguel Pró há cerca de um ano?

Este recém-sacerdote não se acanhou com a hostilidade do tempo em que vivia, de tal modo que, pelo testemunho da sua fé na entrega da vida pelos outros, chegou a escrever o seguinte: “Creio que há um meio-termo entre a temeridade e o medo, assim como entre a prudência extrema e a coragem temerária. Já declarei isso ao meu Superior, mas ele receia pela minha vida. A minha vida?! ... Que é que ela vale? Dá-la pelos meus irmãos não será ganhá-la? É certo que não a devo dar estultamente. Mas para que servirão os filhos de Santo Inácio, se ao primeiro rebentar de um tiro se põem logo em fuga?

Esta fidelidade à sua vocação foi de tal forma extrema que acabou por pagar com o martírio da própria vida, na Cidade do México em 23 de Novembro de 1927.

22 de novembro de 2011

Grandes equívocos do ateísmo contemporâneo


Equívoco fundamental: O maior drama do ateísmo não é a sua impossibilidade de demonstrar a inexistência de Deus, mas sim a de estar estruturalmente impedido de conseguir os seus objectivos: erradicar a religião. Porque das duas, uma: ou tece críticas inteligentes, objectivas e fundamentadas à religião, e nesse caso só pode ser benéfico para ela; ou as suas críticas não são nem inteligentes, nem objectivas, nem fundamentadas e, nesse caso, elas não beliscam a religião.

Décimo segundo equívoco: A imagem bíblica de Deus.

A imagem de Deus que os novos ateus recolhem da Bíblia baseia-se em passagens do Antigo Testamento nas quais Jahvé é descrito com traços vingativos e cruéis, particularmente nos livros históricos e naqueles em que são codificadas leis de natureza diversa, basicamente os livros do Pentateuco: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. Dawkins considera que “o Deus do Antigo Testamento é possivelmente a personagem mais desagradável de toda a ficção: ciumento e orgulhoso de o ser; um mesquinho, injusto e implacável fanático do controlo; responsável, vingativo e sanguinário por actos de limpeza étnica; um tiranete misógino, homofóbico, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilento, megalomaníaco, sadomasoquista e caprichosamente malévolo. A Desilusão de Deus, p. 57)

O autor ignora por completo as razões pelas quais Deus surge nos textos bíblicos com características contraditórias, uma vez que o mesmo Deus é também apresentado como misericordioso e compassivo. Ignora todo o processo histórico e cultural de formação dos livros que constituem a Bíblia, sobretudo o Antigo Testamento, uma ignorância que se estende em geral a todos os demais ateus contemporâneos que têm publicado ensaios e livros de ataque ao cristianismo com base no texto bíblico.

Os novos ateus evitam cuidadosamente as passagens bíblicas em que a imagem de Jahvé é exactamente oposta à de um deus tirano, sobretudo nos salmos e nos livros sapienciais e proféticos como, por exemplo: “Sião dizia: «O Senhor abandonou-me, o Senhor esqueceu-Se de mim».Poderá a mulher esquecer a criança que amamenta e não ter compaixão do filho das suas entranhas? Mas ainda que ela se esqueça, Eu não te esquecerei.” (Is 49, 14-15). Neles, Deus aparece como um ser compassivo, interessado numa aliança permanente com o seu povo, prescrevendo atitudes de ajuda aos mais pobres como os órfãos e as viúvas, e aliando o culto à prática da justiça. A caridade surge, particularmente nos escritos proféticos, como o verdadeiro culto que agrada a Deus, e o mesmo acontece nos escritos do Novo Testamento.

Dawkins refere-se, por exemplo, à crueldade de Deus ao afogar através do dilúvio toda a Humanidade com excepção da família de Noé. O autor reconhece que a narração bíblica do dilúvio é muito semelhante a outras narrações existentes em diversas culturas. Com base nesta constatação ele deveria estar em condições de interpretar a narração bíblica do dilúvio num sentido não literal. Mas não o faz. Muito pelo contrário, afirma: “a história de Noé é aterradora. Deus tinha os humanos em fraca conta, e por isso (com excepção de uma família) afogou-os a todos, incluindo crianças, e assim como quem dá um bónus, afogou também o resto dos (presumivelmente inocentes) animais.” (A Desilusão de Deus, p. 286). Dawkins coloca-se assim uma vez mais ao lado dos fundamentalistas cristãos que fazem uma leitura literal do dilúvio, mesmo contra todas as evidências factuais que demonstram a impossibilidade de um tal acontecimento.

Dawkins e os demais autores do novo ateísmo ignoram que os diversos textos bíblicos foram redigidos em épocas, circunstâncias e culturas diferentes, e ignoram igualmente que a Bíblia é considerada pelos cristãos como palavra de Deus mas que é, naturalmente, expressa em linguagem humana.

Tendo tudo isto em consideração, torna-se evidente que se deve distinguir no conteúdo bíblico o que é essencial do que é circunstancial, e que se deve ter em mente o sentido do conjunto dos textos bíblicos. É o sentido do conjunto, bem como a sua contextualização histórica e cultural, que permite chegar ao sentido coerente de todas as afirmações bíblicas. Isto pressupõe que a descoberta de Deus pelo povo judeu se foi fazendo lenta e progressivamente, ao mesmo tempo que este Deus se ia revelando também lenta e progressivamente. Por conseguinte, há que considerar que a imagem de Deus que se encontra na Bíblia é um conjunto de imagens sucessivas cujo pleno significado se atinge somente em Jesus Cristo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos, e aos cegos o recobrar da vista; a mandar em liberdade os oprimidos; a proclamar um ano de graça do Senhor.” (Lc 4, 18-19)

20 de novembro de 2011

Domingo da Festa do Cristo Rei | O Senhor abençoará o seu povo na paz.


As leituras desta Festa falam-nos de pastoreio e de reinado, de Pastor e de Rei. À partida poderá parecer um pouco estranha esta “combinação”. Talvez porque nos dias que correm seja difícil imaginar um pastor a governar um Estado, e talvez difícil imaginar um Rei, um Chefe de Estado, a pastorear um rebanho de ovelhas. Será porque vivemos num tempo em que se procura exaltar palavras como “soberania”, “poder”, “autoridade”, e atenuar palavras como “simplicidade”, “bondade”, “respeito”, “confiança”? Mas hoje ouvimos exactamente falar de um Rei que se auto-intitula de "Bom Pastor". De facto, a imagem que tenho de um pastor é a imagem de alguém que se preocupa em vigiar, proteger, alimentar, …, o rebanho que está debaixo do seu cuidado. O rebanho que está à sua confiança e que, por isso, também confia no pastor. É alguém que diz: “Hei-de procurar a ovelha que anda perdida, reconduzir a que estiver desgarrada. Tratarei a que estiver ferida, darei vigor à que andar enfraquecida e velarei pela gorda e vigorosa.” (Ez 34, 16). E não seria dessa forma que gostaríamos que alguém nos ajudasse e gerisse o bem comum? Em tempos tão difíceis como os que vivemos actualmente não desejamos ainda mais que cuidem de nós? Não desejamos ainda mais ter estas atitudes para com todos aqueles que passam por maiores dificuldades? É através destas pequenas grandes acções que se vai construindo o Reino de Cristo Rei. Um Reino que não é imposto, mas sim oferecido, e que precisa de cada um de nós para se tornar cada vez mais visível.

Aproximamo-nos do Natal, sendo que no próximo Domingo começa o tempo do Advento. O tempo em que nos preparamos para acolher o nascimento deste Cristo Rei. Por isso, no Evangelho, Jesus convida-nos a olhar para aquilo que fazemos e para a forma como queremos contribuir para a construção do Reino. As imagens que nos dá das ovelhas e dos cabritos, e as respectivas diferenças, poderão ajudar-nos a definir um caminho que ajude a transformar as nossas vidas, num esforço de conversão para acolhermos o Salvador e para ajudarmos o próximo a acolhê-Lo connosco.

Com tudo isto, tal como nos diz S. Paulo, Jesus poderá entregar o Reino a Deus Pai. Mas “é preciso que Ele reine, até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos seus pés.” (1 Cor 15, 25), ou seja, até que tenha aniquilado todo o tipo de iniquidade.

Entretanto, não nos esqueçamos que a paz com que o Senhor, o Cristo Rei, nos quer abençoar é aquela paz que, tal como ao salmista, nos permite dizer: “O Senhor é meu pastor, nada me falta” (Salmo 22(23), 1).

Leituras: Ez 34, 11-12.15-17 | Salmo 22 (23), 1-2ª.2b-3.5-6 (R.1) | 1 Cor 15, 20-26.28 | Mt 25, 31-46




14 de novembro de 2011

São José Pignatelli



"Quando os jesuítas espanhois, desterrados* e dispersos por Itália, queriam explicar quem era José Pignatelli, diziam simplesmente: «Um novo S. Francisco de Borja»"
P. M Batlloni, SJ, in Santos e Beatos da Companhia de Jesus, Braga - 1974

*Os jesuítas foram explusos de Espanha, por Carlos III, em 1767

13 de novembro de 2011

Talentos

«Um homem ao partir de viagem, chamou os seus servos e confiou-lhes os seus bens.» A história é conhecida: um ganha cinco e produz mais cinco; outro, de dois cria mais dois e o que recebe um esconde o único que recebe. Com medo.

Ouço sempre esta passagem do Evangelho como uma chamada de atenção importante na minha vida. Hoje, sobretudo, procurei escutá-la num sentido mais comunitário: olhar não só para mim, mas alargar o meu olhar à família a que pertenço: a Igreja. E veio-me a questão: e nós, como Igreja, qual dos três servos seríamos? De facto, muito nos é confiado, muito nos é dado. Mas, como temos posto a render o muito que recebemos?

Confesso que, algumas vezes, me sinto preocupado com este aspecto. Em nome de uma “tradição” – por vezes mal entendida – julgo que também nós enterramos o Tesouro que recebemos. Que temos medo do risco. Somos conservadores, no pior sentido que esta palavra possa ter. Tememos estar na linha da frente, não somos arrojados nas propostas que fazemos. Temos medo de denunciar a injustiça, a opressão, o poder despótico, a falta de liberdade. Preferimos repetir modelos. Preferimos, muitas vezes, manter tudo como está. Parece mais seguro… Mas nesta parábola, aquele que teve medo acabou por ser rejeitado pelo seu senhor.

Como dizia, o Evangelho de hoje poderia levar-nos, nos quatro cantos do mundo onde haja catolicismo, a um exame de consciência sobre o modo como temos arriscado ser mais de Cristo. S. Paulo, na 2ª leitura, alerta-nos: «não durmamos como os outros».

Mt 25, 14-30