13 de fevereiro de 2012

sabedoria de olhar

Sabemos tudo, por tudo termos coberto com mantas familiares que nos escondem as coisas que todos os dias vemos, mostrando-nos somente como elas estão, nunca como elas são.

O momento em que me me mexo é a minha oportunidade para ver o que me rodeia, de viver o que está ao meu alcance, de enxergar o todo. Perante o todo, ganho consciência do quão só estou, do quão fugazes são todas as minhas certezas, e chego até a recordar nostalgicamente o tempo do erro, o tempo do doce engano, em que a ilusão, ainda que mera ilusão, era fonte de calor. Na descoberta do todo há uma toada solitária que nos amedronta.

Investimos uma boa parte do nosso tempo procurando respostas sem olhar duas vezes a pergunta. Vivemos arritmadamente os eventos, em turbilhão de emoções, considerando-o, por si só, a única experiência de vida autêntica; encontramo-nos num estilo de vida em que chegar à sabedoria de olhar é dispensável no viver.

12 de fevereiro de 2012

«Se quiseres, podes curar-me»

Nas leituras da Missa de hoje, parece-me ser bem visível a relação, o encontro, a complementaridade entre a primeira leitura, do Livro do Levítico e o Evangelho segundo S. Marcos. E isto principalmente por duas razões.

A primeira na medida em que essa sequência pode ser vista como um sinal de que Deus Pai, que Jesus nos vem dar a conhecer é, tal como várias vezes referido nos Evangelhos, o mesmo Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob. O Deus de Moisés e de Elias, como Jesus nos indica na Transfiguração. É o Deus que acompanha a história da humanidade, porque seu Criador constante, que não nos deixa desamparados, porque nos ama de tal forma que nos entregou o Seu Filho Unigénito, o Seu Filho muito amado.

A segunda, tem a ver com o facto de muitas vezes vermos Jesus apenas como um outro homem, ou como alguém que quer revogar o que parece ser mais humano, o que é criado pelo homem. Neste caso concreto revogar as leis humanas. Na verdade, ouvir Jesus dizer: “… e vai-te mostrar ao Sacerdote”, sem termos lido a primeira leitura, pode ser mais difícil de compreender. Será que o importante é que o Sacerdote veja o milagre de Jesus? Queria Jesus “exibir” o Seu milagre ao Sacerdote? Sacerdote era, na época de Moisés, um mediador entre Deus e os homens e mulheres. No entanto, no Novo Testamento, com Jesus Cristo, surge a Boa Notícia de que todos os cristãos são sacerdotes, no sentido que através de Jesus Cristo temos livre acesso a Deus. Escreve S. João no Livro do Apocalipse: “…Àquele que nos ama e nos purificou dos nossos pecados com o seu sangue, e fez de nós um reino de sacerdotes para Deus e seu Pai; a Ele seja dada a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Ámen!” (Ap 1, 5-6). Queria Jesus sobrepor-se às leis humanas de Moisés?
Ou será, simplesmente, que Jesus nos está a querer dizer que não quer eliminar as leis humanas? Quer dizer-nos que Ele quer completá-las, pois Ele é fonte de uma vida nova.

Na verdade, com tantas leis humanas, continuamos a ver cadeias cheias de presos, que, grande parte das vezes, vivem situações inumanas. Com todas as leis humanas vemos cada vez mais o desemprego a aumentar, a pobreza a aumentar, as diferenças sociais a aumentar, o desespero a aumentar, o ódio a aumentar, a dor a aumentar…
Todas as leis humanas chegam? Mais leis humanas resolveriam todas essas questões? Onde procurar tantas “curas”?

Jesus quis curar o leproso. Tal como ele, procuremos pedir a Jesus que nos cure. Procuremos também olhar uns pelos outros, ajudarmo-nos uns aos outros. Talvez em conjunto seja mais fácil ver que as curas de Jesus surgem muitas vezes naquilo que acontece nas nossas vidas para além do cumprimento das leis humanas.

LEITURA I  Lev 13, 1-2.44-46
SALMO      31 (32), 1-2.5.7.11 (R. 7)
LEITURA II 1Cor 10, 31 – 11, 1
EVANGELHO  Mc 1, 40-45
IMAGEM     Estudo para a "Transfiguração", de Raffaelo

9 de fevereiro de 2012

...andemos para além...



«Irmão ateu, nobremente pensativo,
à procura de um Deus
que eu não sei dar-te,
atravessemos juntos o deserto.
De deserto em deserto, andemos para além
da floresta das fés,
livres e nus em direcção
ao Ser Nu
e lá
onde a palavra morre
tenha fim o nosso caminho.»



(Pe.) David Maria Turoldo, in Canti Ultimi.

6 de fevereiro de 2012

S. Paulo Miki

Hoje a Companhia de Jesus celebra a memória dos mártires do Japão – os jesuítas Paulo Miki (1566-1597), João Gotó e Diogo Kisai e mais vinte e três religiosos e leigos. Estávamos no séc. XVI e, ao mesmo tempo que os católicos eram perseguidos no Japão, muitos nipónicos convertiam-se a Cristo, movidos pelo testemunho de tantos europeus que chegavam à sua terra. Paulo foi um desses japoneses que se converteu e entrou na Companhia de Jesus. Sofreu muito por anunciar o Evangelho e acabou por ser crucificado no dia 5 de Fevereiro de 1597. Antes da sua crucifixão, disse: Chegado a este momento, creio que não haverá ninguém entre vós que me julgue capaz de faltar à verdade. Declaro-vos, por isso, que não há nenhum caminho para a salvação a não ser aquele que seguem os cristãos. E como esta religião me ensina a perdoar aos inimigos e a todos os que me ofenderam, de boa vontade perdoo ao rei e a todos os que tiveram parte na minha sorte, e peço-lhes que queiram receber o Baptismo.

Ainda hoje, há muitos homens e mulheres perseguidos por defenderem a sua fé. São homens e mulheres que não impõem, mas pelo seu testemunho propõem a Alegria de ser fiéis ao Senhor Jesus. Homens e mulheres que vivem gratuitamente a sua entrega aos outros irmãos e irmãs, perdoando as ofensas contra si.

Que nós, cristãos do séc. XXI, saibamos ser este testemunho nos nossos dias, como estes nossos irmãos o foram no seu tempo.

5 de fevereiro de 2012

A cidade inteira ficou reunida diante da porta…

Depois de Jesus ter curado a sogra de um amigo, eis que ao final da tarde a cidade inteira se veio amontoar à porta da casa onde Ele estava.
Hoje, as nossas cidades continuam cheias de gente angustiada, preocupada, doente, cansada, à procura de alívio, de descanso ou de libertação. Se soubéssemos que Jesus estava em alguma casa, talvez nos amontoássemos de novo à porta de sua casa, à espera que Ele nos arranjasse solução para os nossos problemas. Apesar das igrejas vazias, não faltam hoje “casas” que nos oferecem solução para os nossos problemas, mas a verdade é que a cidade continua cheia de gente doente, cansada e preocupada.
Então, onde estará o problema? Talvez andemos a bater à porta errada… Ainda não nos apercebemos que, afinal, a porta continua aberta e Jesus está ali à nossa espera para nos libertar. No entanto, não o queremos reconhecer. Achamos que conseguimos resolver tudo, que temos força para tudo. E cansamo-nos. E vivemos com o coração atribulado. E deixamos que a vida nos engula. Mas insistimos: sou capaz! Consigo resolver os meus próprios problemas!
Jesus, porém, não se cansa de repetir: “vem a mim, tu que vives cansado e atormentado. Descansa em mim.”. Mas nós seguimos, de ouvidos surdos, acreditando muito em nós, julgando que isto são coisas muito bonitas que vêm na Bíblia, mas depois...
E se eu aceitasse, uma vez que fosse, acreditar neste Deus que cura os corações atribulados? Que diferença faria na minha vida?

Mc 1, 29-39

29 de janeiro de 2012

É Domingo. Partilho de alguém que experimenta a ressurreição...

"Penso que não existe nada de mais belo, profundo e perfeito do que Cristo. Se me demonstrassem que Cristo está fora da verdade e a verdade fora de Cristo, eu preferiria estar mais com Cristo do que com a verdade."